Filho de Bolsonaro e investigado pela PF, Flávio chega ao segundo turno com o objetivo de retomar o legado da família

Senador em fim de mandato pelo Rio de Janeiro, o candidato tem 45 anos, é casado e formado em direito.
O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, ao lado da esposa, Fernanda Bolsonaro — Foto: Ricardo Moraes/Reuters
Apesar das discussões, Flávio chega ao segundo turno com chances reais de ganhar a eleição, tendo como adversário o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Flávio Bolsonaro e Lula — Foto: Mateus Bonomi/Reuters; Roberto Sungi/Estadão Conteúdo
Político desde os 21 anos, Flávio Bolsonaro foi eleito pela primeira vez como deputado estadual, cargo que ocupou por quatro mandatos. Em 2016, Flávio disputou e perdeu a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro.
Dois anos depois, no entanto, foi eleito senador com mais de quatro milhões de votos. Foi o candidato mais votado para o Senado Federal no Rio de Janeiro.
A escolha do herdeiro
Metade de seu mandato de oito anos no Senado foi cumprida durante a presidência de seu pai. Nesse período, Flávio Bolsonaro foi presidente da Comissão de Segurança Pública, tema que sempre colocou como sua bandeira.
Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro — Foto: AP Photo/Eraldo Peres
No entanto, teve uma atuação tímida como senador. Teve somente dois projetos transformados em lei – nenhum sobre segurança pública.
Neste período, o patrimônio do candidato aumentou de R$ 1,7 milhão para R$ 8,1 milhões.
Flávio passou a ganhar mais relevância entre o bolsonarismo a partir do processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Bolsonaro por golpe de Estado. Após a condenação, tornou-se uma das poucas pessoas que conversava com Jair Bolsonaro na condição de advogado do pai.
O presidente Jair Bolsonaro e, ao fundo, seu filho Flávio Bolsonaro, em imagem de novembro de 2018 — Foto: Adriano Machado/Reuters
"É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação", disse Flávio à época.
A escolha, no entanto, não pacificou os ânimos dos aliados. A briga na família veio à tona de forma clara com um vídeo de Michelle nas redes sociais em meados de junho.
Flávio Bolsonaro durante live na noite de 23 de setembro — Foto: Reprodução
Caso Dark Horse
Menos de seis meses depois de anunciar sua pré-candidatura, o portal The Intercept revelou áudios e mensagens mostrando que Flávio negociou com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o pagamento de R$ 130 milhões como investimento no filme Dark Horse, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O g1 e a TV Globo tiveram acesso aos documentos que mostram que o banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões.
"Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. [...] Eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?", disse Flávio em uma das conversas.
Em um áudio de 8 de setembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL) cobrou pagamentos de Daniel Vorcaro — Foto: Adriano Machado / REUTERS
Segundo as apurações, os repasses de Vorcaro para o filme foram feitos por meio da empresa Entre Investimentos e Participações, de um aliado do ex-banqueiro.
A Entre transferia o dinheiro para um fundo de investimentos chamado Havengate, nos Estados Unidos, controlado por um advogado de Eduardo Bolsonaro. O fundo repassaria o dinheiro para a produtora do filme, a empresa Go Up.
O caso foi marcado por diversas contradições de Flávio sobre sua relação com Vorcaro. No dia em que o caso veio à tona, Flávio negou que Vorcaro tivesse financiado o filme e chamou os questionamentos do jornalista do Intercept de “militância”.
Em entrevista à GloboNews em maio, Flávio justificou que negou a relação do banqueiro com o filme alegando que existiam cláusulas de confidencialidade.
"Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade. Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar", disse.
Nessa mesma entrevista, Flávio afirmou que os pagamentos, que totalizaram R$ 61 milhões, ocorreram até maio de 2025. Em setembro, no entanto, a revista Piauí revelou que Vorcaro fez mais um pagamento de US$ 1,6 milhão, totalizando cerca de R$ 65 milhões.
Flávio disse que sua relação com Vorcaro estava restrita ao filme e que não haveria “supresinha”. Quatro dias depois, o senador admitiu ter visitado Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro, quando ele já estava em prisão domiciliar e usava tornozeleira eletrônica, para encerrar as negociações sobre o filme.
“Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco”, afirmou.
Outro ponto de contradição de Flávio sobre o filme foi a respeito da prestação de contas. O senador afirmou, em 19 de maio, que havia determinado à produtora que apresentasse uma prestação de contas dos recursos usados no filme em até 30 dias.
O deputado Mário Frias, o senador Flávio Bolsonaro e o ator Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro no filme 'Dark Horse' (O Azarão), sobre a vida do ex-presidente brasileiro. — Foto: Reprodução/Redes Sociais
O prazo terminou em 18 de junho sem que o candidato ou a produção tornassem público o conjunto de documentos prometido.
Ao ser questionado, o candidato atribuiu a prestação de contas a uma perícia que a produtora do filme, Karina Gama, anexou ao inquérito que corre na Polícia Civil de São Paulo.
A perícia foi contratada pela própria produtora e aponta que os gastos somaram R$ 75 milhões, mas não apresentou recibos ou notas fiscais dos gastos.
Outra contradição de Flávio em relação ao Master aconteceu quando o senador negou proximidade com Vorcaro após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhar uma publicação sobre supostas festas promovidas pelo banqueiro.
“Eu quero garantir para vocês aqui: a única relação que eu tenho com Vorcaro é sobre o filme do meu pai. É a única. Vocês não vão me ver em festinha de Vorcaro. Nunca entrei em avião de Vorcaro e nunca estive em festinha de astronauta”, afirmou em um encontro com apoiadoras mulheres.

Flávio viajou em avião que tinha como donos ex-banqueiro Vorcaro e o advogado Willer Tomaz
A aeronave era de propriedade compartilhada. Uma das cotas estava vinculada à Prime You, enquanto outra pertencia ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Tomaz afirmou que convidou o senador, solicitou o voo e arcou integralmente com a viagem.
Após a revelação, Flávio disse que não sabia da participação de Vorcaro na aeronave e que foi convidado pelo amigo Willer Tomaz. Dias antes, Flávio havia criticado o ministro Alexandre de Moraes por voar na mesma aeronave.
"Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes", declarou.
Emenda para milícia
A emenda foi negociada em 2023 entre Peixe e Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete de Flávio no Senado. Maria de Fátima é descrita pela PF como "interlocutora direta" de Peixe no gabinete do senador Flávio Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro destinou emenda a miliciano condenado no caso Marielle
A PF encontrou mensagens de WhatsApp trocadas entre Peixe e Maria de Fátima no celular do miliciano, apreendido quando ele passou a ser investigado pela morte de Marielle, em 2024. Marielle e seu motorista Anderson Gomes foram mortos em 2018.
Peixe foi condenado pelo STF, em fevereiro deste ano, a nove anos de prisão e à perda do cargo de policial militar reformado. Segundo a investigação, ele foi o elo entre os executores do assassinato e os mandantes, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio e ex-deputado federal, respectivamente.
Rachadinha no gabinete
Em outubro de 2020, o MP do Rio denunciou o senador Flávio Bolsonaro, o ex-assessor dele Fabrício Queiroz e mais 15 investigados pelos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita no esquema da "rachadinha".
Flávio Bolsonaro foi acusado de chefiar uma organização criminosa que recolhia parte do salário de seus ex-funcionários para seu benefício – prática conhecida como "rachadinha".
Segundo a denúncia, o esquema funcionou por meio da contratação de assessores para o gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj, entre 2007 e 2018. Parte desses funcionários teria sido usada para devolver ao grupo uma parcela dos salários recebidos. Alguns deles seriam funcionários fantasmas.
De acordo com o MP, Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete, seria o principal responsável por recolher e movimentar o dinheiro, enquanto Flávio teria comandado o esquema e se beneficiado dos recursos.
Segundo o MP, foram identificados pelo menos 13 assessores que repassaram parte dos salários ao ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz. De acordo com documento do órgão, ele recebeu 483 depósitos na conta bancária, mais de R$ 2 milhões.
Em 2021, a Segunda Turma do STF decidiu invalidar as quebras de sigilo de Flávio e dos assessores em uma ação que transcorreu na esfera criminal. A decisão abriu caminho para o encerramento do processo da rachadinha. O relator da matéria foi justamente o ministro Gilmar Mendes.
Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia por falta de justa causa. Assim, Flávio foi denunciado, mas não condenado, e a Justiça não chegou a julgar se ele efetivamente praticou a rachadinha.
Em 2023, o MP apresentou outra ação, dessa vez na esfera cível, por improbidade administrativa. A ação não teve Flávio Bolsonaro como alvo, mas apurou práticas irregulares. Foi nessa ação de improbidade que a Justiça autrizou a quebra de sigilo dos assessores de Flávio.
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