A playlist secreta de David Bowie, contada por dois amigos
Um adolescente ouvindo Little Richard em uma vitrola Dansette, num quarto de subúrbio londrino, dificilmente imaginaria que aquele disco se tornaria o primeiro capítulo de uma biografia sonora reconstituída décadas depois. Essa cena abre David Bowie: Music Lover, livro que chega às livrarias britânicas em 28 de setembro pela editora ACC Art Books, com preço a partir de £19,05, o equivalente a cerca de R$ 131 na cotação atual.
A publicação foi escrita a quatro mãos por Geoff MacCormack, amigo de infância de David Bowie e companheiro de turnês nos anos 1970, e Jérôme Soligny, jornalista francês que acompanhou o músico por 25 anos e assina a biografia Rainbowman. Juntos, os autores reúnem mais de cem artistas que passaram pelo toca-discos de Bowie ao longo de cinco décadas, do rock e do blues ao repertório erudito e à música eletrônica.
Uma trilha organizada por décadas

David Bowie ao lado do produtor Harry Maslin durante mixagem no Cherokee Studios, em sessão do álbum "Station to Station" (Geoff MacCormack/Wallpaper)
O livro segue uma estrutura dividida por período, com introdução e posfácio, percorrendo da década de 1950 até os anos 2010. Segundo Soligny, a seleção prioriza nomes menos óbvios na trajetória de Bowie, como o cantor americano Biff Rose, ao lado de referências mais conhecidas do público. Em entrevista à revista britânica Wallpaper*, o jornalista afirmou que seria "uma surpresa real não se surpreender" com os gostos do músico, dada a amplitude de estilos que ele absorvia.
Para os autores, a lista de influências funciona como um mapa paralelo à obra de Bowie. Soligny cita I'm Waiting for the Man, do Velvet Underground e Lou Reed, como uma espécie de referência primária que inspirou diversas composições posteriores do artista. A ideia central do livro, segundo ele, é evitar interpretações forçadas sobre as escolhas do músico, mantendo o foco em documentar o que ele efetivamente ouvia.
Kendrick Lamar e o fim de uma trajetória
A narrativa termina com Kendrick Lamar, artista que Bowie ouvia durante a gravação de "Blackstar", seu último álbum, lançado dois dias antes de sua morte, em janeiro de 2016. A informação, segundo Soligny, veio do produtor Tony Visconti, parceiro de longa data de Bowie nos estúdios. O jornalista evita atribuir motivações diretas ao músico, mas observa que o caráter experimental de Lamar seria compatível com o tipo de artista que sempre despertou o interesse de Bowie.
Uma amizade sem perguntas
Os relatos de MacCormack complementam a pesquisa de Soligny com memórias pessoais. Ele conta que acompanhou Bowie na turnê mundial de 1973 como vocalista de apoio e percussionista, além de ter participado das gravações de seis álbuns, de Aladdin Sane a Station to Station. Segundo ele, Bowie tolerava sua presença constante, inclusive fotografando os bastidores, justamente porque nunca fazia perguntas sobre o processo criativo.
MacCormack relembra que os dois ouviam Kraftwerk no período de gravação de Station to Station, embora não possa confirmar se a banda alemã influenciou diretamente o disco. Para ele, o critério de Bowie para gostar de um artista não estava ligado a gênero musical, e sim a autenticidade, o que ele descreve como "alma" no sentido de verdade artística, somado a um apreço particular por sonoridades estranhas ou pouco convencionais.
David Bowie: Music Lover é o segundo livro de MacCormack pela ACC Art Books, depois de David Bowie: Rock 'n' Roll with Me, publicado em 2023. Soligny, por sua vez, recebeu em 2019 o título de Chevalier des Arts et Lettres, condecoração concedida pelo governo francês, das mãos do próprio Tony Visconti.
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