Fim da escala 6x1 pode encarecer imóveis em 5,5%, alerta Abrainc
A redução da jornada de trabalho pode chegar ao canteiro de obras — e, com ela, ao preço da casa própria. A Associação Brasileira das Incorporadoras (Abrainc) estima que a mudança da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, pode elevar em 5,5% o preço dos imóveis e tirar até 2,5 milhões de famílias do acesso ao financiamento habitacional.
O alerta foi divulgado pela entidade após o Senado aprovar, na quarta-feira, 14, a proposta que prevê o fim da escala 6x1. O texto reduz progressivamente a jornada semanal e garante dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial.
O impacto sobre os imóveis viria principalmente do aumento do custo de construção. O setor já enfrenta escassez de mão de obra qualificada, e uma redução da jornada sem correspondente redução dos salários pode exigir a contratação de mais trabalhadores para manter o ritmo das obras.
A Abrainc afirma que a mudança precisa levar em conta os ciclos longos da incorporação imobiliária, inclusive projetos que já estão em construção ou foram vendidos.
O estudo que estima o aumento de 5,5% nos preços foi realizado pela Abrainc em parceria com a consultoria econômica Ecconit.
Por que a jornada menor pode encarecer a construção
A construção civil é uma atividade intensiva em mão de obra. Diferentemente de setores em que é possível aumentar a automação rapidamente, parte relevante das etapas de uma obra ainda depende de equipes trabalhando presencialmente no canteiro.
Com a jornada semanal menor e os salários preservados, uma incorporadora pode precisar ampliar as equipes para manter a produtividade e cumprir o cronograma original.
O problema é que o setor já encontra dificuldades para contratar profissionais qualificados. A consequência pode aparecer em duas frentes: aumento do custo por unidade construída e maior pressão sobre os prazos de entrega.
A Abrainc afirma que a mudança pode comprometer a viabilidade econômica de determinados projetos, principalmente aqueles com margens mais apertadas.
O efeito tende a ser especialmente relevante na habitação de menor renda, em que o preço final do imóvel é limitado pela capacidade de pagamento das famílias e pelas condições de financiamento.
Por isso, para a entidade, o aumento dos custos não necessariamente pode ser absorvido integralmente pelas incorporadoras. Parte da pressão pode chegar ao preço de venda.
A construção já tenta produzir mais com menos trabalhadores
A discussão não começa com a aprovação da proposta. Incorporadoras já vêm buscando maneiras de reduzir a dependência de mão de obra nos canteiros diante da escassez de profissionais.
Um exemplo é a Tenda, uma das maiores incorporadoras do país voltadas à habitação popular. A companhia adotou, desde 2011, um modelo produtivo inspirado no sistema da Toyota, com padronização, sequenciamento das etapas e maior industrialização da construção.
Na prática, a obra é dividida em etapas executadas por equipes especializadas. Há times responsáveis por atividades específicas, como estrutura, instalação de revestimentos e sistemas hidráulicos.
A empresa também utiliza kits pré-fabricados para instalações elétricas e hidráulicas. Em vez de cortar e preparar as peças no próprio canteiro, o trabalhador recebe componentes previamente dimensionados e prontos para instalação.
Segundo a Tenda, o modelo faz com que a mão de obra represente entre 5 e 10 pontos percentuais menos do custo de construção do que a média do setor.
A industrialização é ainda mais avançada na Alea, empresa do grupo voltada à produção de casas. Parte da construção ocorre em fábrica, reduzindo a necessidade de trabalho pesado diretamente no canteiro.
A experiência da Tenda também mostra o custo de perder produtividade. Quando a Alea utilizou empreiteiros externos sem experiência no modelo produtivo da companhia, os custos de construção chegaram a ficar 30% acima do previsto.
Essas iniciativas podem funcionar como uma proteção parcial para empresas mais industrializadas, mas não eliminam o impacto potencial de uma mudança generalizada na jornada de trabalho.
O risco para a casa própria
A Abrainc estima que o Brasil já tenha um déficit habitacional de aproximadamente 5,8 milhões de moradias e que precisará atender à demanda por cerca de 11 milhões de novas unidades nos próximos dez anos.
Nesse contexto, a entidade afirma que o aumento dos preços pode reduzir o número de famílias capazes de financiar um imóvel. O estudo estima que até 2,5 milhões de famílias poderiam perder acesso ao financiamento habitacional caso o aumento dos custos de construção seja repassado aos preços.
A preocupação é maior entre os consumidores que estão próximos do limite de comprometimento de renda. Para essas famílias, um aumento de 5,5% pode ser suficiente para tirar o imóvel desejado da faixa financiável.
A entidade defende, por isso, uma transição que considere as características de cada setor e preserve a segurança jurídica de empreendimentos já contratados ou em execução.
Como será a mudança na jornada
A proposta aprovada pelo Senado reduz a jornada de forma gradual. 60 dias após a promulgação, o limite semanal cairá de 44 para 42 horas, enquanto os trabalhadores passarão a ter direito a dois dias de descanso remunerado por semana.
A redução definitiva para 40 horas semanais ocorrerá 12 meses depois da primeira mudança. Assim, a implementação completa levará 14 meses a partir da promulgação.
A proposta não prevê redução salarial. Durante a etapa intermediária, acordos e convenções coletivas poderão organizar jornadas diárias superiores a oito horas para acomodar as 42 horas semanais, desde que sejam preservados os dois dias de descanso.
A mudança também alcança trabalhadores domésticos e estabelece prazo diferente para empresas terceirizadas que prestam serviços ao poder público.
O texto ainda precisa ser promulgado pela Mesa do Congresso. Por se tratar de uma emenda constitucional, não depende de sanção presidencial nem pode ser vetado pelo presidente.
Para a construção civil, a discussão agora passa a ser como adaptar os canteiros a uma jornada menor sem comprometer produtividade, custos e cronogramas. Para as incorporadoras, o desafio é fazer essa conta em projetos que podem levar anos entre o lançamento, a construção e a entrega — enquanto o preço final precisa continuar cabendo no bolso de quem depende do financiamento para comprar a casa própria.
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