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Sunday, September 20, 2026

A IA chegou ao campo — e agora disputa terra, energia e água com o agro

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A corrida global pela inteligência artificial (IA) começa a criar uma nova disputa no campo: a competição por terra, energia e água. Enquanto empresas de tecnologia buscam áreas rurais para instalar grandes data centers e regiões de nuvem (onde ficam hospedados serviços como Google Cloude e AWS), comunidades agrícolas enxergam uma combinação de oportunidade econômica e preocupação com a pressão sobre recursos locais.

O alerta aparece na Gardner Food and Agricultural Policy Survey (GFAPS), pesquisa realizada trimestralmente pela Universidade de Purdue. O levantamento mostra que a preocupação dos moradores rurais dos Estados Unidos com os impactos dos data centers aumentou entre fevereiro e agosto de 2026.

Entre os entrevistados, os maiores receios estão relacionados justamente aos recursos que sustentam a atividade agrícola. 68% dos moradores rurais disseram estar muito preocupados com os impactos sobre a energia, enquanto 62,6% demonstraram preocupação com o uso de água e 58,7% com a utilização de terras agrícolas.

A expansão da infraestrutura necessária para a inteligência artificial criou uma nova disputa econômica no campo: empresas buscam espaço para instalar data centers, enquanto comunidades rurais avaliam os impactos sobre seus recursos.

O avanço dos data centers para regiões agrícolas ocorre porque essas áreas oferecem grandes extensões de terra, disponibilidade energética e acesso a redes de transmissão.

Segundo o Data Center Map e uma análise da American Farm Bureau Federation (AFBF), os EUA têm cerca de 4.925 data centers ativos ou em construção. Essas estruturas podem demandar centenas de megawatts de energia e estão avançando para locais antes dominados pela produção agrícola.

A escala dos investimentos ajuda a explicar esse movimento. Os custos de construção variam entre US$ 9 milhões e US$ 15 milhões por megawatt. Na prática, um data center de 250 megawatts pode exigir investimentos entre US$ 2,3 bilhões e US$ 3,8 bilhões.

Projetos maiores podem alcançar dezenas de bilhões de dólares e representam compromissos de infraestrutura capazes de transformar a economia local por décadas.

O estudo da Purdue aponta que cerca de dois terços dos novos projetos planejados de data centers nos Estados Unidos estão destinados a comunidades rurais, que ainda não têm experiência em receber esse tipo de empreendimento.

"Embora a maioria dos centros de dados existentes esteja localizada em áreas urbanas, cerca de dois terços das novas instalações planejadas estão destinadas a comunidades rurais", afirma o estudo.

Entre os moradores rurais, o principal receio está relacionado ao impacto dos data centers sobre o custo da eletricidade. O temor ocorre em um momento em que produtores agrícolas já enfrentam aumento dos custos de produção e margens pressionadas.

Os gastos com eletricidade nas fazendas dos EUA aumentaram acentuadamente nos últimos anos e a previsão é de um aumento de 48%, ou US$ 2,8 bilhões, passando de US$ 5,75 bilhões em 2019 para US$ 8,5 bilhões em 2026, segundo o Serviço de Pesquisa Econômica do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). 

Em agosto de 2026, 68% dos entrevistados rurais disseram estar muito preocupados com uma possível alta nos custos de energia causada pelos novos centros de dados, acima dos 57,9% registrados em fevereiro.

Em uma escala de 1 a 7, em que 7 representa "extremamente preocupado", os moradores rurais deram nota média de 5,83 para o impacto dos data centers sobre os custos de eletricidade.

"O aumento dos custos de eletricidade continuou sendo a principal preocupação dos entrevistados em todos os tipos de comunidade", diz o estudo. A média geral de preocupação chegou a 5,52 pontos em agosto de 2026.

Para o setor agrícola, a questão é como uma nova demanda industrial por energia pode alterar a estrutura de custos de regiões tradicionalmente ligadas à produção de alimentos.

A disputa por terras

Além da energia, a ocupação de áreas agrícolas passou a ser uma das principais preocupações das comunidades rurais diante da expansão dos data centers.

Na pesquisa de agosto de 2026, 58,7% dos moradores rurais disseram estar muito preocupados com o uso de terras agrícolas para esses empreendimentos. Em fevereiro, esse percentual era de 40,6%.

A pressão já começa a aparecer no mercado imobiliário rural dos EUA. Uma pesquisa da Sociedade de Gestores Agrícolas e Avaliadores Rurais de Illinois (ISPFMRA) mostrou que 26% dos gestores agrícolas entrevistados no primeiro semestre de 2026 haviam sido procurados por incorporadores ou corretores interessados em comprar ou arrendar terras para desenvolver data centers.

"A crescente demanda por terrenos adequados para o desenvolvimento de data centers destaca uma nova pressão sobre o uso da terra em comunidades rurais", afirma o levantamento.

Estados do Meio-Oeste americano se tornaram polos dessa expansão em razão do custo relativamente baixo das terras e à disponibilidade de recursos naturais. Illinois, um dos principais produtores de soja dos EUA, já soma mais de 200 centros de dados em operação ou planejamento.

Apesar das preocupações, a chegada dos data centers também é vista por parte das comunidades como uma oportunidade econômica. O problema é que o otimismo em relação aos benefícios ainda é menor do que o receio sobre os impactos.

Apenas 26,2% dos moradores rurais disseram estar muito otimistas com o aumento da arrecadação de impostos locais, enquanto 19,4% esperam uma forte geração de empregos.

Outros possíveis benefícios também tiveram adesão limitada: 22,8% demonstraram muito otimismo com novas oportunidades para empresas locais e 21,8% com melhorias de infraestrutura, como estradas, serviços públicos e banda larga.

A diferença aparece quando as comunidades são comparadas. Moradores urbanos apresentaram níveis de otimismo mais próximos de um terço dos entrevistados em relação a benefícios como empregos, impostos e infraestrutura.

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