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Wednesday, October 21, 2026

Para uma estética revolucionária, colecção Outono-Inverno

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As manifestações de “estudantes” franceses, a campanha eleitoral no Brasil, as acampadas de Espanha e as mesmas assim ditas do Porto, no Rossio de Lisboa, afinal em toda a parte onde a sede de justiça, apesar de maior, não tem sido tão vista no Bairro Alto – vieram expor de um modo muito cruel a fealdade e o horror do activismo de esquerda. E também a ignorância básica e o seguidismo – que lhes parece internacionalista, mas é apenas parolo – “acampada”: Campamento, lugar al aire libre, dispuesto para alojar turistas, viajeros, etc. Podiam chamar-lhe abarracamento, arraial, roda de samba ou quilombo, no que seriam muito mais fiéis ao aspecto e à frequência. Mas não o fizeram. E, posto assim de parte o esmero no uso da língua, ficam os activistas resumidos às ideias e ao aspecto.

1. As ideias de esquerda são muito conhecidas. É sobre elas que habitualmente se fundamenta a recusa do esquerdismo nas suas variantes socialista, comunista, utopista e fora da graça de Deus. As pessoas que não sabem muito de política e das suas tácticas acham suficientemente claro que não lhes convém entregarem a sua enxada a uma cooperativa chamada “Estrela Vermelha”, tal como não achariam bem se a cooperativa não fosse uma cooperativa mas se designasse a si própria como “Congregação das Filhas do Amor Divino”. As pessoas podem considerar bem que os pobres sejam ajudados e que as reformas amparem a velhice. Até ao dia em que se dão conta de que uma boa parte do que lhes custou a ganhar foi antes para subsidiar devaneios, assistir clientelas e dar casas a criaturas avessas ao trabalho. As mesmas pessoas ou outras, não sabendo de política e sendo à vez egoístas ou cheias de problemas, irritam-se quando não podem ir trabalhar porque os trabalhadores estão em greve (por melhores condições de trabalho), quando perdem uma consulta porque decorre uma greve (por melhores cuidados de saúde), quando os filhos não têm escola porque há greve (por uma escola melhor). Cada uma dessas provações promovida por sindicatos que pugnam por uma sociedade sem classe(s) acentua a dúvida por cima da irritação. Uma irrritação que ganha contornos de galhofa quando um garoto de 18 anos exige casa, por direito adquirido a partir do momento em que a sua esclarecida mãe da Geração X não foi a tempo de o abortar e não, como acontece com os atrasados da direita fascista, um bem que se conquista com tempo, trabalho e banho diário. E atinge envergadura de doença mental quando os putos, e as suas congéneres femininas, exigem mais serviços públicos, salários mais altos, nacionalizações, casas de banho trans, fim dos ricos, morte a Israel, keffiyeh mais baratos, uma doença incurável só para a bófia, catequistas e malta com sapatos de vela, sol e fim das propinas.

Estas e as outras ideias da esquerda estão presentes tradicionalmente em todas as sociedades e comportam-se como as endemias vulgares. Têm períodos de exacerbação, fazem um número considerável de vítimas e atenuam-se, sem nunca desaparecerem, até ao próximo surto geracional. Cada um desses surtos, uma vez resolvido, deixa quase curados e adaptados à vida normal a maior parte daqueles que adoeceu e alguns deles, revolucionários que já estiveram dispostos a morrer pelo povo, recuperam ao ponto de ficarem obesos e chegarem a funcionários europeus. Um pequeno resíduo que se mantém fiel à revolução permanente e persiste, já não como jovens idealistas mas como sexagenários tresloucados. São chatos mas não chegam a ser reservatório do vírus porque lhes falta viço – e os jovens sem trepidação e viço não funcionam.

Por mais absurdas e letais que sejam as ideias têm a qualidade de poderem ser contestadas. Por esse meio, uma argumentação consistente mas, sobretudo, por um processo de auto-reconhecimento da parvoíce, uma vasta maioria de feros esquerdistas rende-se. Fica-lhes na alma, quase sempre, uma aspiração subsequente a um emprego por conta do Etado, que acham normal mas é um óbvio reliquat do admirável Estado provedor. O Estado, que se põe a jeito, também acha normal. E desse modo, como se fosse uma conchinha entre namorados, todos se adaptam.

(Entretanto, há ideias que não devem considerar-se. Um cartaz, numa manifestação de campistas a decorrer, propunha comunismo e anarquia lado a lado. Esse é o tipo de ideias que nem precisa de discussão. Uma ignorância da história e da teoria política tão crassas, o ridículo e a abjecção intelectual tão rasa, não são passíveis de contraditório).

No plano das ideias, e dos factos que as ideias originam, haverá sempre batalhas perdidas. Existirão sempre aqueles que negam a falência, a catástrofe e os morticínios originados pela aplicação da ideia socialista/comunista às sociedades – uma ideia tão bondosa que não funciona, sequer, para gerir brinquedos entre 2 irmãos ou para a comunhão de um baton entre duas companheiras de quarto. Existirão sempre os que negam 100 milhões de mortos dos regimes comunistas, embora admitam como aceitável que possam ter sido apenas 20 milhões. Existirão sempre os que acreditam que tudo o que falhou não foi por uma culpa endógena mas provocada pelos boicotes, pelos embargos, pela persistência de sabotadores na sua comunidade de puros. Há de tudo entre a maldade e o delírio mas, apesar desses insucessos, é possível um optimismo razoável no que respeita à resolução das ideias. Não parece possível o mesmo optimismo em relação ao mau aspecto dos activistas de esquerda.

2.O aspecto dos activistas de esquerda, as suas opções de visual e de expressão, têm sido expostos de uma maneira extensa nas televisões, no Twitter e por todo o lado onde uma imagem vale mais do que mil palavras. São imagens de um horror perfeito e de náusea. Não são todos, são muitos, são os mais activos e aqueles que alcançaram a mescla ideal de marxismo com outros defeitos e aberrações ideológicas prosperadas à sua sombra. Ao contrário das ideias, discutíveis e sujeitas a reversão, as opções sobre o corpo e a linguagem são inamovíveis – ou deixarão cicatrizes se alguma vez forem arrancadas. Em alguns casos resultam da proveniência cultural (rastas, djellabas…), uma proveniência natural ou inventada por solidariedade, pedantismo ou mau gosto. Mas, excluindo as que primariamente se originam em casa, ou em meios universitários e artísticos onde é exercida uma forte censura sobre costumes, quase sempre são uma escolha voluntária e com um propósito. Não são necessárias às ideias, resultam de linhas de opções que são paralelas. São úteis como as rendas mas dispensáveis ao vestido e por isso, porque resultam do gosto, não estão sujeitas a discussão. Deve fazer-se algum silêncio à sua volta e há quem pense, com grande cinismo, que a melhor maneira de desesperar e mandar para casa um acampado é mostra-lo assim, no seu habitat natural e a falar. Mesmo com sotaque brasileiro vai perceber-se o essencial, perder-se-ão simpatizantes para a causa à razão de vários por cada frase.

Os activistas de esquerda são feios, os mais perfeitos. A sua fealdade é construída em parte mas natural em muitos casos. Não é espantoso que os de beleza ausente sejam capturados mais facilmente por causas contestatárias e de disrupção. Em muitos, e sobretudo em muitas, existe uma revolta compreensível contra o aspecto físico indesejado, são aptos ao ressentimento e à inveja, com facilidade encontram na sociedade uma culpa indistinta que, não podendo ser pela modelação imperfeita da sua cara, pode ser por uma causa qualquer a ser servida na altura – o aborto, o fóssil, a ideologia de género, Gaza, os imigrantes, a habitação, o capitalismo, tudo o que possa ser objecto de raiva, a raiva que sentem pelo seu próprio aspecto.

A fealdade natural suscita reacções de ajustamento, seja para a corrigir seja para a acentuar. A correcção operada pode ser pouco eficaz, mas é saudável. Infelizmente, nem sempre é assim e a rapariga (normalmente uma rapariga) afunda-se numa vertigem de transformações que só agrava o problema e, com grande frequência, degenera na opção por acentuar a fealdade e a excentricidade. Este, é um esforço assumido para alcançar dois objectivos: fugir ao desgosto e à tensão pela melhoria – assumindo que quanto pior melhor ou perdido por cem perdido por mil – e, ao mesmo tempo, provocar nos outros a convicção de que aquela fealdade não é natural mas sim escolhida de modo consciente e para servir um objectivo nobre. A procura da fealdade torna-se num modo de contrariar uma estética prevalecente mas também um protesto contra qualquer tipo de beleza e ordem, a ordem e a beleza que não podem existir na revolução.

(quando alguns activistas dizem na sua acampada que nunca viram uma coisa tão bonita como aquela, protagonizam uma de duas condições: 1) são muito tenrinhos, estão deslumbrados e alguém mais sério lhes vai puxar as orelhas; 2) estão a usar uma estratégia contra-factual para aguentar o status, até ao dia em que a fealdade seja irrecusável)

Os recursos disponíveis para a destruição da cara são imensos. Não serão tão usados como o desejado porque são caros e os activistas de esquerda são todos pobres. Apesar disso há resultados notáveis, normalmente pela combinação de cabelos vermelhos, marrafas/franjas subculturais, piercings e tatuagens. A combinação profusa destes elementos pode transformar uma mulher apenas gorda, de cara larga ou nariz aquilino – mas que poderia ser simpática e até amorosa se arriscasse assumir esses defeitos burgueses – num dragão medonho e problemático de explicar a uma criança fora da época do carnaval. Um corpo carregado de distorções, pinturas e argolas é uma contestação violenta do ideal de perfeição e beleza que subsiste em todas as sociedades mentalmente sãs. É uma contestação que se exerce pelo efeito de recusa de um estereótipo e pela imposição de um contra-estereótipo – que é outro estereótipo, apesar da recusa da esterotipagem por parte da cada um dos activistas que se considera único e muito especial.

Na modelação do corpo, assim como nas vestimentas entre o étnico e o rasgado, existe a recusa da cultura dominante em todas as suas vertentes – política, económica, moral, estética – e o esforço de uma re-identificação individual e colectiva. A parte da recusa é a mais premente mas também a mais fácil, a redefinição individual e colectiva é difícil e gera tensões. Parte das tensões origina-se na dificuldade em compatibilizar os traços da individualidade com a norma do grupo, i.e. sem os demarcar dos traços colectivos – um activista típico não sabe o que é que pode fazer mais para ser diferente e ao mesmo tempo continuar a ser reconhecido como um dos outros, do “colectivo”. A outra dificuldade na gestão do aspecto resulta da enormidade de opções e da sua presença confundente em outros ambientes culturais. Uma franja cortada a direito pode ser vista numa menina pobre a quem a mãe ajeita o cabelo o melhor que pode. Um visual desleixado e sarnento pode ser o de um sem-abrigo autêntico, roído pela miséria e destituído de ideias proletárias. Neste ponto, é o discurso que pode ser diferenciador.

Um activista de esquerda pode ser de falas mansas, loquaz e sibilante, servido por uma aparência de seminarista vicioso. Também pode ser cabriolante e excitado, discursar aos gritos e parecer que não está a confundir alhos com bugalhos. Também pode ser um espontâneo que diz coisas sem sentido até que um camarada o manda calar e sentar-se. E pode ser um desbragado – normalmente uma mulher, aparentemente a querer soltar-se das amarras da feminilidade – vociferando frases cheias de escatologia e calão de marinheiro.

É no discurso fortemente agressivo e escatológico que transparece mais claramente a dificuldade de muitas mulheres em lidarem com a sua identidade. Têm anulados, apagados, tapados, todos os elementos que a poderiam identificar como mulher – o belo sexo, que não compreendem nem aceitam – mas pretendem mais. Pelo discurso carregado de vulgarismos, simplificado, reduzido a expressões curtas e incisivas, recheado de equivalentes semânticos de fezes, pénis, ânus, senhora que se prostitui, descendente directo de uma meretriz, relações sexuais com penetração… etc, acreditam estar mais próximas da des-identificação sexual e terem atingido o almejado nível de carroceiro binário.

3.Um activista de esquerda bem forjado combina a indigência de ideias com o descabelamento das propostas, junta em cada frase uma dolorosa ignorância da história com a impreparação sobre os conceitos, associa o estilo físico bizarro a um discurso pobre e com palavrões. As ideias e impreparação resultam da falta de estudo, dos clássicos e da realidade. Os palavrões são do domínio da escatologia mas também do folclore local – sociedade sem classes, paz, assembleia popular, comissão… A aparência pessoal remete para um jogo de espelhos, literalmente um jogo de espelhos.

Os activistas de esquerda são um pequeno grupo bem identificado nas suas origens, filiações, percursos e, na maior parte dos casos, pelo aspecto. Os simpatizantes da esquerda são outra coisa, têm muito pouco a ver com os activistas de esquerda e podem perfeitamente ser convidados para jantar. Perfilham ideias mal estruturadas mas generosas sobre o bem estar colectivo, o direito à saúde, a protecção dos desfavorecidos… – várias coisas que devem ser providas pela colectividade e podem ser esperadas pelos que precisam. Em certas alturas, um encantador simpatizante da esquerda cede com facilidade ao discurso activista, e excita-se. Ouve coisas que parecem estar de acordo com os seus princípios e sobre assuntos que não fazia ideia de serem tão extraordinários. Depois, um activista parece-lhe admirável. Mexe-se, desrespeita, grita e, mesmo que não perceba bem o que ele diz e o que ele quer, vê nele o contraponto invejável da sua inércia culpada.

O activismo foi capturado pela esquerda no dia em que o motor da revolução deixou de estar nos proletários com dores nas pernas e passou a estar ao cuidado das vanguardas universitárias e dos media. A ideia tinha anos e um dia foi inevitável. Os proletários tinham caminhado para poucos, trabalhavam muito, envelheciam. Os jovens sem mercado de trabalho prolongavam os estudos, alguma coisa haviam de fazer. Nas sociedades com alguma abundância foram aproveitados para cursos fluidos e ressentidos, tinham tempo, tinham sangue na guelra. Eram, realmente, indicados para o activismo. Dessem-lhes causas e eles sairiam à rua. E saíram.

Era tão desejável que a esquerda decente não pactuasse com o activismo que agride, que nauseia, que vai deixar imundas as praças das cidades no dia em que se cansarem e partirem para outra!

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