Voto 'dupla face' sobre fim da 6x1 torna Flávio cabo eleitoral de Lula

A campanha de Flávio já se movimenta para ele sequestrar os louros, produzindo peças publicitárias para se vender como o homem que acabou com a 6x1. O sujeito passa o ano tentando atrasar o trem e, quando percebe que ele vai partir de qualquer jeito, corre para tirar foto na janela da locomotiva. A política brasileira tem dessas...
O problema é o que ele disse longe das câmeras. Conforme apurou Gabriela Echenique, na Folha de S.Paulo, o senador garantiu a empresários que, caso eleito, vai buscar mudar a mudança. Ou seja, vota a favor hoje para desfazer amanhã. Um voto dupla face: uma para o trabalhador ver no horário eleitoral, outra para o patrão guardar no bolso do paletó.
E não é difícil adivinhar o rumo da reforma da reforma. O ponto central é a tal negociação direta entre empresa e trabalhador, coração da PEC da Hora Trabalhada, apresentada em maio por Rogério Marinho, seu coordenador de campanha. O mesmo senador que, mês passado, votou contra a PEC do Fim da 6x1 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A ideia é permitir que o contrato individual entre patrão e empregado tenha peso maior que acordos ou convenções coletivas. E atrela a redução da carga horária à diminuição do pagamento no fim do mês, que passaria a ser proporcional às horas trabalhadas.
Bonito no papel. Liberdade, flexibilidade, autonomia, todas essas palavras que soam ótimas em palestra motivacional. Só que patrão e empregado nunca sentam à mesa com o mesmo peso. De um lado, quem paga o salário e pode demitir. Do outro, quem tem aluguel vencendo, filho na escola e três ônibus para pegar até o serviço. Sem sindicato no meio, o que se desenha é uma negociação caracu: o patrão entra com a cara, e o trabalhador... com o sorriso amarelo.
Quem já ouviu um "se não quiser, tem quem queira" sabe exatamente como termina essa conversa "livre".
Há ainda um detalhe saboroso. Ao anunciar o voto, Flávio prometeu que o Estado pagaria a fatura dos empresários. Disse que quem vai pagar essa conta é o governo, porque os empresários estão sufocados. Traduzindo: o trabalhador ganha o sábado de volta, mas o boleto da compensação vai para o caixa público, que é bancado, entre outros, pelos impostos desse mesmo trabalhador.
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