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Saturday, October 31, 2026

Chegou o terramoto do desemprego da IA

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Em fevereiro, numa entrevista ao programa Dúvidas Públicas, da Renascença, perguntaram-me qual seria a ordem de grandeza da destruição de emprego provocada pela IA. Respondi sem rodeios: “Diria que será aí do dobro, pelo menos.” Por cada posto de trabalho novo – engenheiro de prompts, engenheiro de dados, engenheiro de IA – perderíamos dois. E acrescentei que ainda não estávamos preparados para as baixas que aí vinham.

Na altura, a frase soou a exagero de académico. Hoje, soa a boletim sismológico.

A Critical Software, fundada em Coimbra em 1998 e fornecedora de software para aviões, comboios e missões espaciais, vai terminar 2026 com cerca de 1.300 colaboradores. Começou o ano com cerca de 1.500. São menos 200 pessoas, 13% do quadro. O motivo foi assumido pelo próprio presidente executivo, João Carreira, ao Expresso: com a evolução da IA, há funções que deixam de fazer sentido. As mais repetitivas, de programação e de teste, são – nas palavras dele – muito facilmente substituídas pela máquina.

O que torna este caso tão significativo não é o número. É quem o protagoniza. A Critical não é uma empresa aflita a cortar custos para sobreviver. É, há quase três décadas, a prova viva de que Portugal sabe fazer tecnologia de ponta. Está a investir cerca de oito milhões de euros em IA. Inaugurou esta semana um novo escritório no edifício histórico da Coimbra Editora. A sua joint venture com a Airbus passou de 110 para 165 trabalhadores num ano.

Ou seja: uma empresa saudável, a crescer e a investir, conclui que precisa de menos gente para fazer o mesmo – ou mais. É esta a natureza do terramoto. Os despedimentos clássicos nascem das crises e recuperam-se com a retoma. Os despedimentos da IA nascem da produtividade, e a produtividade não devolve postos de trabalho quando a economia melhora.

O cofundador Gonçalo Quadros disse à Lusa que há um antes e um depois da inteligência artificial. Tem razão. E o “depois” já começou.

Seja justo dizê-lo: a empresa sublinha que os 200 lugares a menos resultam de saídas e de novas contratações, e não necessariamente de 200 despedimentos. João Carreira descreve funções que desaparecem, outras que se transformam e outras que são criadas. Mas é precisamente essa a aritmética de que falei em fevereiro. Criam-se empregos, sim. Só que se destroem mais do que se criam. O saldo da Critical é de menos 200.

E a Critical não está sozinha. Em agosto de 2025, a Altice Portugal reduziu cerca de mil postos de trabalho, 16% da força laboral, numa reestruturação associada à IA. Antes, a norte-americana Bitsight eliminara 54 empregos no seu polo português, substituídos por uma ferramenta de IA. Este verão, a Defined.ai cortou 30% dos trabalhadores e a Bhout reduziu significativamente o quadro. Lá fora, a IA tornou-se a justificação mais citada para despedimentos no setor tecnológico.

Há quem argumente que muitas empresas usam a IA como pretexto, despedindo mais pelo que esperam da tecnologia do que pelo que ela já faz. É um argumento sério e merece atenção. Mas, para quem perde o emprego, a distinção é irrelevante. E o caso da Critical, com tarefas concretas de programação e teste já automatizadas, é tudo menos pretexto.

Repare-se em quem está a ser atingido. Não são operários de linhas de montagem nem empregados de balcão. São programadores e testadores de software – exatamente as profissões que, durante vinte anos, recomendámos aos nossos filhos como garantia de futuro. As funções mais repetitivas são, quase sempre, as de entrada na carreira. Se a máquina as faz, onde vão os jovens engenheiros aprender o ofício? Estamos a retirar os primeiros degraus a uma escada que continuamos a pedir que subam.

Não defendo travar a tecnologia. Fui crítico do manifesto que propunha proibir a IA nas universidades, e mantenho-o: não se para uma revolução por decreto. Mas uma revolução sem gestão da mudança deixa vítimas pelo caminho. Proponho quatro coisas.

Primeiro, medir. Portugal não tem hoje um número oficial de empregos perdidos por causa da IA. Sabemos mais pelos jornais do que pelas estatísticas. O INE e o IEFP devem começar a contar.

Segundo, requalificar a sério, e já. Não com cursos de fim de semana, mas com programas financiados para quem perde funções técnicas rotineiras poder saltar para as que a IA cria.

Terceiro, democratizar o acesso. Como disse na Renascença, as versões gratuitas das ferramentas de IA são limitadas, e as boas são pagas. O Estado deve garantir a cada cidadão uma licença de nível intermédio, como já fez com o acesso às bases de dados científicas no ensino superior. Caso contrário, a IA será uma fábrica de desigualdade.

Quarto, reforçar a proteção social e pôr o tema no centro do debate político. O Orçamento do Estado para 2027 está em discussão e não conheço uma linha dedicada a esta transição.

Depois de 1755, Lisboa não foi reconstruída a lamentar o sismo. Foi reconstruída com a gaiola pombalina, uma das primeiras estruturas antissísmicas da Europa. Não impediu os terramotos seguintes, mas impediu que destruíssem tudo.

É disso que precisamos agora: de uma gaiola pombalina para o mercado de trabalho. O sismógrafo já registou o primeiro abalo em Coimbra. Fingir que foi só um tremor seria o maior erro que poderíamos cometer.

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