O Brasil do Pix tem 130 milhões de pessoas que ainda pagam por boleto
O Brasil inventou uma maneira de transferir dinheiro em segundos, a qualquer hora, sem perguntar se é domingo ou feriado. O Pix dispensou números de agência, abreviou conversas sobre troco e tornou quase constrangedora a pergunta sobre aceitar cartão. Ainda assim, um velho conhecido das contas domésticas segue firme: o boleto bancário.
Em 2024, 130,2 milhões de brasileiros pagaram pelo menos um boleto, segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central. Em 2020, ano de lançamento do Pix, eram 116,9 milhões. Em quatro anos, o boleto ganhou 13,3 milhões de pagadores, crescimento de 11,4%.
O valor médio também aumentou: passou de R$ 626,47 para R$ 852,13 no período. A alta nominal foi de 36%, sem descontar a inflação.

Os números contrariam a expectativa de que a popularização de um meio de pagamento significaria, necessariamente, o desaparecimento dos anteriores. O brasileiro parece ter escolhido outro caminho: acrescentar opções, em vez de abandonar todas as antigas.
O boleto não recebeu o aviso
Em 2024, o Banco Central contabilizou 273 bilhões de transações financeiras e não financeiras realizadas por telefone celular, seis vezes o volume de 2020. Mas a velocidade de uma tecnologia não determina, sozinha, o destino das demais.
O Pix atende à necessidade de transferir e pagar imediatamente. O boleto continua presente em cobranças e pagamentos com vencimento definido, inclusive em relações recorrentes entre consumidores e empresas.
Há uma distinção importante: pagar um boleto não significa necessariamente imprimir uma folha de papel ou procurar um caixa. A cobrança pode ser recebida digitalmente e quitada por aplicativo. O estudo contabiliza os pagadores, não quantos deles utilizaram cada canal.
É justamente essa convivência que caracteriza a transformação dos serviços financeiros brasileiros. A inovação não precisa eliminar o que já funciona para ampliar as possibilidades de escolha.
Quem ainda paga boleto?
O levantamento permite observar diferenças entre os usuários. As mulheres representam 54% dos pagadores, embora o valor médio dos boletos pagos por homens seja maior: R$ 1.031,14, contra R$ 695,02 entre elas.
A faixa dos 35 aos 60 anos concentra 48% dos pagadores. Entre pessoas de até 34 anos, a participação é de 33%; acima dos 60, de 19%. As diferenças também aparecem no valor das cobranças. No Sudeste, a média chegou a R$ 930,01. No Nordeste, ficou em R$ 700,15.
Esses recortes não explicam, por si, as preferências de pagamento. Mostram, porém, que o boleto continua presente em diferentes idades e regiões, longe de ser um hábito restrito a quem não acompanhou a digitalização.

Mais caminhos para o mesmo dinheiro
O crescimento simultâneo do Pix e dos boletos aponta para um sistema de pagamentos cada vez mais diversificado. Uma pessoa pode transferir dinheiro pelo celular, receber uma cobrança por boleto e utilizar um canal presencial quando essa for a alternativa mais conveniente.
Essa multiplicidade também ajuda a compreender o papel das redes de atendimento. A Tecban, responsável pelo Banco24Horas, integra essa estrutura ao oferecer soluções de acesso a serviços financeiros em diferentes formatos, incluindo caixas eletrônicos e equipamentos instalados em estabelecimentos comerciais.
A presença de canais físicos complementa a expansão dos aplicativos. Nem todos os consumidores utilizam os serviços da mesma maneira, e nem toda necessidade financeira é resolvida pelo mesmo instrumento.
O Banco Central registrou que 96,4% dos adultos brasileiros tinham uma conta bancária ou de pagamento ao final de 2024. O desafio deixou de ser apenas ampliar o número de pessoas conectadas ao sistema. Passou a incluir a oferta de alternativas adequadas às diferentes rotinas.
O Pix mudou a maneira como o Brasil paga. O boleto, ao que indicam os números, não pretende sair de cena tão cedo.
Talvez porque, em matéria de contas a pagar, os brasileiros não estejam interessados em escolher um único método. Basta que o dinheiro chegue ao destino — de preferência, antes do vencimento.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.