Brasileiras com contas bloqueadas no Paraguai relatam medo: 'Tá um caos'

A preocupação agora é conseguir pagar as despesas até receber o próximo salário. Ao UOL, Taís contou que trabalha como prestadora de serviços para uma empresa de idiomas no Paraguai e afirma que só deverá receber novamente no começo do próximo mês. Ela também é voluntária em um zoológico e tinha dinheiro de doação no banco.
Eu não sei como vou pagar as contas. Taís Magno
A brasileira já abriu uma conta em outra instituição financeira. Enquanto não recupera o dinheiro, depende de alternativas para realizar compras e pagar despesas. Na terça-feira (3), chegou a faltar à faculdade por não conseguir pagar uma corrida de aplicativo e precisou pedir ajuda financeira ao marido.
Taís também passou a utilizar um cartão de crédito brasileiro para fazer compras no Paraguai. Os gastos, segundo ela, chegaram a aproximadamente R$ 250 a R$ 300, incluindo os impostos cobrados nas transações internacionais.
A estudante prefere não revelar quanto dinheiro ficou bloqueado. Ela afirma, porém, que o valor é suficiente para deixá-la aflita com a própria situação financeira. "Era o suficiente para me deixar bem preocupada", afirmou.
Brasileira também tinha dinheiro investido
Parte dos recursos de Taís estava aplicada em um CDA (Certificado de Depósito de Ahorro). O produto é semelhante ao CDB brasileiro: o cliente aplica dinheiro em uma instituição financeira e recebe juros conforme as condições contratadas.
O CDA também é protegido pelo Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai, desde que cumpra as condições legais. Segundo o Banco Central, a cobertura é de até 75 salários mínimos paraguaios, equivalentes atualmente a 228,3 milhões de guaranis (cerca de R$ 204 mil) por depositante e instituição financeira. A garantia considera o conjunto de depósitos elegíveis, incluindo os juros acumulados até o início da resolução do banco.
Antes da crise, Taís afirma que nunca havia enfrentado problemas com o Ueno. Ela relata que gostava dos benefícios oferecidos pela instituição, especialmente dos valores devolvidos aos clientes por meio do cashback. Ela diz estar contente com as autoridades paraguaias pelas atuações no caso.
Eu amava ser cliente lá! Ganhava muito cashback e sempre que ia pra uma agência, eles me davam chocolate quente e biscoitos chiques, tudo grátis.
Pagamentos prejudicados
A chef de cozinha Renata Brito, que administra um negócio em Hernandarias, não consegue receber pagamentos da maioria dos clientes. A máquina de cartão utilizada no estabelecimento é vinculada a uma conta no banco. Com isso, no momento, só consegue receber pagamentos em dinheiro.
Os recursos pessoais de Renata também foram afetados. A chef explica que todos os pagamentos pelo trabalho, tanto os recebidos no estabelecimento quanto os de encomendas pontuais de refeições, são depositados na conta bloqueada. "Está um caos. Estou com muito medo de como ficará tudo".
Renata conta que, quando começou a ouvir comentários sobre o assunto, não deu atenção. "Eu ouvi comentários sobre isso há semanas, mas não levei a sério", diz. "Só ontem, então, confirmei pela rede de televisão daqui do Paraguai". Ela vive no país há dois anos.
Assim como Taís, ela não recebeu qualquer comunicação oficial do banco ou previsão de como o problema será resolvido. "Inicialmente, eu estava mais confiante de que tudo iria se resolver, mas agora sinto um pouco de insegurança. Não sei como isso tudo vai seguir".
Quando os clientes poderão recuperar o dinheiro?
O Banco Central do Paraguai anunciou o início da primeira etapa de restituição. Inicialmente, serão atendidos clientes que tenham até 10 milhões de guaranis em depósitos, não possuam dívidas com o Ueno e mantenham conta habilitada em outra instituição financeira do país.
Quem se enquadrar nessa primeira etapa poderá receber a totalidade dos depósitos. Os demais correntistas deverão acompanhar os próximos cronogramas divulgados pela autoridade monetária.
Uma nova lei também permite antecipar até 40 salários mínimos paraguaios da garantia de depósitos. O Banco Central informou que o processo de pagamento dessa antecipação deve ocorrer em até cinco dias úteis, observadas as condições estabelecidas. O valor máximo da antecipação não significa que todos os clientes receberão imediatamente.
Entenda a crise do Ueno Bank
O Banco Central do Paraguai iniciou o procedimento de resolução do Ueno Bank após identificar uma grave deterioração de sua situação financeira. Segundo a autoridade monetária, a instituição apresentava um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido. A decisão foi tomada em 2 de novembro e divulgada no dia seguinte.
A crise levou à paralisação dos serviços do banco e deixou clientes sem acesso ao dinheiro. Para tentar reduzir os prejuízos, as autoridades paraguaias iniciaram o processo de devolução dos depósitos por meio do Fundo de Garantia de Depósitos.
O caso também passou a ser investigado pela Justiça paraguaia. O Ministério Público apresentou acusações contra 27 pessoas ligadas à instituição e a empresas relacionadas. A Justiça determinou hoje a prisão preventiva de Miguel Vázquez, ex-executivo do Ueno, e de outros dirigentes. As suspeitas incluem lesão de confiança e tentativa de estelionato. Os investigados ainda não foram condenados.
A crise chegou ao governo e provocou a apresentação da renúncia do presidente Santiago Peña. Ex-acionista da holding ligada ao Ueno, Peña passou a ser alvo de questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses.
A Fiscalía (Ministério Público paraguaio) também abriu uma investigação envolvendo Peña. A apuração busca esclarecer suspeitas relacionadas à sua ligação com o grupo empresarial e às operações questionadas. A abertura de investigação não significa que o presidente tenha cometido algum crime.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.