Sócrates cansa-se...e já cansa

Cansaço. Foi essa a palavra que Sócrates atirou ao tribunal, como quem fecha uma porta a meio de uma pergunta incómoda. Cansaço, disse ele — depois de nove sessões a falar à vontade sobre tudo o que lhe interessava contar. O país, esse, está cansado há mais de dez anos, e ninguém lhe perguntou se queria uma pausa.
Não há coincidências inocentes num homem que geriu, durante anos, os tempos e os silêncios do poder com mão de ferro. O cansaço apareceu mesmo quando as perguntas começaram a apertar. Nove sessões inteiras a discorrer sobre o que lhe convinha, e é agora, precisamente agora, que falta o fôlego. Quem geriu a agenda de um país sabe muito bem como se gere a agenda de um julgamento.
E a vergonha, aqui, já não é só dele. É de uma justiça que deixou este processo arrastar-se desde 2014 — mais de uma década — até chegar a um ponto em que um simples “estou cansado” ainda tem poder para suspender tudo outra vez. Justiça lenta não é necessariamente uma justiça branda; mas é, convenhamos, cúmplice do tempo. E o tempo, isso sabemo-lo bem, é o melhor advogado de quem tem posses e paciência para esperar.
Enquanto isso, há um cansaço que ninguém regista em acta. É o de quem paga impostos, o de quem levou com a austeridade na cara, o de quem ouviu prometer crescimento e recebeu défice e o de quem ainda espera uma sentença que já devia ter chegado. A este país ninguém pergunta se está cansado. Presume-se que sim. Presume-se que aguenta — porque aguentar é o que os portugueses sempre fizeram enquanto os processos apodrecem nas prateleiras dos tribunais.
Fique claro: não se trata de atropelar a presunção de inocência. As acusações são isso mesmo, acusações, e cabe ao colectivo de juízes decidir sobre corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal. O que não se aceita, com o mais elementar bom senso, é que a lentidão da máquina judicial se transforme num escudo, e que uma pausa por cansaço mereça o mesmo respeito que um verdadeiro impedimento de saúde.
Portugal não pode continuar a ser o país onde o arguido dita o ritmo e a nação prende a respiração à espera de resposta. Se há um cansaço que pesa mais nesta história toda, é o cansaço colectivo de quem continua, ano após ano, à espera de ver a justiça funcionar como deve — sem pausas de conveniência, sem calendário feito à medida de quem está a ser julgado, e sem esta sensação, cada vez mais entranhada, de que em Portugal quem tem tempo tem sempre a última palavra.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.