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Saturday, September 26, 2026

Por dentro do CVV no Setembro Amarelo: como funciona a rede que acolhe quem precisa ser ouvido

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Em uma sala silenciosa, do outro lado da linha, uma pessoa desconhecida compartilha uma dor que muitas vezes nunca conseguiu revelar para familiares ou amigos. Não há julgamento, conselho ou tentativa de convencer alguém sobre o que fazer. O objetivo é outro: ouvir.

Essa é a base do trabalho do Centro de Valorização da Vida (CVV), organização que há mais de seis décadas atua na prevenção do suicídio e no apoio emocional por meio de uma rede formada exclusivamente por voluntários.

“Desde a fundação, em 1962, o CVV procura acompanhar os movimentos da sociedade e abrir canais de escuta para quem está em sofrimento. No dia a dia, percebemos o quanto faz diferença para uma pessoa conseguir compartilhar algo que está causando dor, principalmente quando ela encontra um ambiente de anonimato e respeito”, afirma Carlos Correa, voluntário da organização, em entrevista à EXAME.

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O CVV oferece atendimento gratuito pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, além de canais digitais, como chat e e-mail, em horários específicos. Segundo Correa, a possibilidade de conversar sem revelar a identidade é um dos elementos centrais do serviço.

“A pessoa encontra um espaço em que não existe julgamento, menosprezo ou comparação do sofrimento. Algo que para alguém pode parecer simples de superar pode representar uma montanha para outra pessoa”, diz.

O desafio de acolher uma dor invisível

O trabalho do CVV parte de uma ideia simples, mas complexa na prática: muitas pessoas carregam sofrimentos que não conseguem compartilhar.

Correa compara esse processo a um copo que vai enchendo aos poucos.

“Muitas vezes, aquilo que vira notícia é apenas a última gota. O problema é que ninguém sabe o tamanho desse copo, em que momento emocional a pessoa está ou qual será a gota que fará transbordar. A prevenção ajuda justamente a esvaziar esse copo”, afirma.

Segundo ele, parte do desafio está em identificar sinais antes que uma crise se agrave. A organização recebe milhares de ligações diariamente e enfrenta períodos em que a demanda supera a capacidade disponível de voluntários.

“Precisaríamos ter mais pessoas para atender principalmente em determinados horários, como finais de semana e madrugada. A procura é muito grande”, afirma.

Atualmente, o CVV conta com cerca de 2 mil voluntários. A organização também utiliza campanhas como o Setembro Amarelo para incentivar não apenas a busca por ajuda, mas uma mudança cultural na forma como as pessoas lidam com o sofrimento emocional.

“Às vezes estamos tão envolvidos com a correria do dia a dia, com informações e preocupações, que deixamos de olhar para quem está ao nosso redor. A proposta é convidar cada pessoa a acolher o próximo”, diz.

Como funciona o treinamento dos voluntários

Apesar de o atendimento envolver questões relacionadas à saúde mental, os voluntários do CVV não são profissionais da área. A organização trabalha com a ideia de uma pessoa acolhendo outra pessoa.

“Na inscrição, não perguntamos a profissão. Podemos ter pessoas da área de saúde mental, mas a nossa atuação não é feita por especialistas oferecendo tratamento. São pessoas comuns que passam por uma capacitação para oferecer escuta”, explica Correa.

O treinamento inicial tem aproximadamente 40 horas, distribuídas em encontros semanais. Durante a preparação, os candidatos conhecem a história da organização, entendem o perfil das pessoas que procuram o atendimento e refletem sobre as expectativas para exercer a função.

Um dos pontos trabalhados é justamente desconstruir a ideia de que ajudar significa dar respostas ou conselhos.

“Muitas pessoas chegam dizendo: ‘sou bom em dar conselho, por isso quero ser voluntário’. Mas nós não damos conselho ou orientação. Criamos um ambiente de acolhimento para que a própria pessoa consiga encontrar caminhos durante a conversa”, afirma.

A formação também envolve exercícios de simulação e autoconhecimento. O objetivo é que o voluntário reconheça seus próprios limites e possíveis questões pessoais que poderiam interferir no atendimento.

“É importante que a pessoa saiba lidar com seus próprios preconceitos e sentimentos para que isso não interfira na conversa. O cuidado também é com a segurança emocional do próprio voluntário”, diz.

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O poder da escuta

Para Correa, um dos principais aprendizados do CVV pode ser aplicado fora dos canais oficiais: aprender a ouvir. Segundo ele, existe uma diferença entre simplesmente escutar e ouvir de forma acolhedora.

“Escutar não é apenas ouvir palavras. É acolher alguém em um ambiente de confiança, sem julgamento e respeitando aquilo que a pessoa está sentindo”, afirma.

No cotidiano, porém, essa prática nem sempre acontece. Muitas vezes, respostas comuns acabam diminuindo a dor de quem procura ajuda.

“Às vezes alguém compartilha um sofrimento e recebe uma resposta como ‘você tem uma vida tão boa, por que está reclamando?’ ou ‘eu já passei por coisa pior’. Isso acaba desvalorizando o sentimento daquela pessoa”, explica.

No atendimento do CVV, a proposta é justamente evitar esse tipo de reação. “O voluntário não interrompe, não compete com a dor do outro e não tenta comparar experiências. A pessoa precisa sentir que aquele espaço é seguro”, afirma.

O papel da sociedade na prevenção

Na avaliação de Correa, a prevenção ao suicídio depende de diferentes iniciativas, desde políticas públicas até atitudes individuais.

“O suicídio é multifatorial. Não existe uma única causa. São situações que vão se acumulando ao longo do tempo”, afirma.

Para ele, uma das contribuições possíveis é ampliar a cultura do voluntariado e da solidariedade. “É uma doação para alguém que muitas vezes nós nem conhecemos. Precisamos incentivar uma sociedade mais humana e mais atenta ao sofrimento do outro”, diz.

Ele também destaca a importância de profissionais de diferentes áreas conhecerem formas adequadas de lidar com o tema, incluindo jornalistas. O CVV mantém uma cartilha com orientações para cobertura de casos de suicídio, seguindo recomendações de órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Entre as orientações estão evitar detalhar métodos utilizados, não divulgar cartas de despedida e não transformar casos em narrativas que possam estimular identificação ou glamourização.

“A prevenção é uma responsabilidade coletiva. Cada pessoa, dentro da sua área, pode pensar em como contribuir”, afirma.

O que uma pessoa comum pode fazer

Para quem está próximo de alguém em sofrimento, Correa recomenda atenção aos sinais e disposição para iniciar uma conversa.

“Às vezes é um professor que percebe uma mudança em um aluno, um amigo que nota que alguém não está bem. É importante tentar conversar em um ambiente reservado, sem julgamento e sem minimizar a dor”, afirma.

Segundo ele, mudanças de comportamento, isolamento e manifestações diferentes nas redes sociais podem ser sinais de alerta.

“Não devemos ignorar ou colocar debaixo do tapete. Uma pergunta simples como ‘percebi que você não está bem, quer conversar?’ pode abrir uma porta”, diz.

Ele também reforça que olhar para si mesmo é parte desse processo.

“Precisamos aprender a olhar para o espelho e perguntar: como eu estou hoje? Se tenho uma dor física, procuro ajuda médica. Com a saúde emocional deve ser da mesma forma”, afirma.

No fim, a principal mensagem do trabalho do CVV é justamente a que sustenta sua atuação há mais de 60 anos: ouvir pode ser uma forma de cuidado.

“Às vezes, chamar alguém para uma caminhada ou para uma conversa muda tudo. A conversa pode mudar o rumo da vida de alguém”, afirma Correa.

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