Kiyoshi Kurosawa filma duelo de palavras em 'O Samurai e o Prisioneiro'
Para seu primeiro filme de samurai, Kiyoshi Kurosawa trouxe consigo o gosto por situações paradoxais. E a de "O Samurai e o Prisioneiro" é realmente forte, já que o senhor feudal Murashige Araki, logo no início, decide prender Kanbei Kuroda, um enviado do poderoso Nobunaga Oda, contra quem Araki está em rebelião.
O gesto é inusual no Japão do século 16. Ele poderia matar Kanbei e fazer Oda ficar sabendo do ocorrido. O mais corrente seria enviar Kanbei de volta, pois era apenas o portador de uma mensagem. Desde então sabemos que Araki é uma personalidade que destoa de seu tempo.
Ele pretende desafiar Oda baseado no fato de que seu castelo é inexpugnável. Mas a presença de Kanbei vem a calhar, já que se trata de um cérebro estrategista.
Logo, no entanto, o lugar começa a ser palco de acontecimentos misteriosos, começando pela morte de um jovem refém, filho de outro senhor feudal, que Araki gostaria de ter como aliado.
Buscar o responsável pelos fatos anômalos se torna uma obsessão do senhor feudal. E não será estranho que ele vá se aconselhar com Kanbei, mas este o entope de enigmas que levam necessariamente a uma questão. O prisioneiro está contra ou a favor de Araki?
O interessante não é isso, mas sua decorrência. À medida que o filme transcorre, vemos Araki e seu castelo sitiados não só pelo inimigo, como por seus próprios fantasmas. E o centro deles é Kanbei —embora imobilizado numa masmorra, suas palavras ocupam o pensamento de Araki.
O duelo central deste filme será entre esses dois homens —um que comanda guerreiros e outro que dispõe apenas da palavra. E aqui as palavras ardem muito mais do que lanças e espadas.
Para ficar num exemplo evidente, o hábito de Araki de não executar seus prisioneiros pode fazer com que seja visto como um samurai covarde. E talvez seja o caso de lembrar que os protagonistas de Kiyoshi Kurosawa são, com frequência, pessoas que desejam escapar a um destino predeterminado. E Araki a toda hora está desafiando e quebrando as normas de uma cultura baseada nisso.
Mas ele não é um primor de pacifista e menos ainda um covarde. Sabe, no entanto, que certas atitudes violentas podem fazer a balança de poder se inclinar para o lado de seus inimigos. O filme fala, então, do perigo da guerra —o que nos remete ao tempo presente, em que a palavra é tão mais dominante quando falsa. Pois, quando falsa, a fala é capaz de forjar situações ou crenças pelo mero fato de mentir. É na névoa de palavras que Araki, em boa medida, se afunda e arrisca seu domínio.
Esta talvez esteja longe de ser a única questão proposta pelo cineasta. Como ele também parece disposto a fugir de convenções, optou por buscar como modelo os filmes de samurai dos anos 1950. Com efeito, Kurosawa em momento algum trabalha trejeitos um tanto maneiristas que costumam edulcorar longas modernos do gênero. Também não há razão para esperar fabulosos duelos de espadas. Eles são raros.
Da mesma forma, são razoavelmente raros os enquadramentos ao ar livre. Toda a ênfase das imagens está nas situações de clausura, em especial as que envolvem as duas incógnitas da história —Kanbei e Chiyoho, a mulher de Araki.
É como se a principal preocupação do diretor fosse cuidar da fluência dos diálogos, permitir que a palavra enfeitice os seres e os ambientes. É desse contágio pelo verbo que parece sair a coloração pastel, assim como a cenografia austera do castelo. Manter em equilíbrio os muitos elementos de "O Samurai e o Prisioneiro" talvez seja a maior evidência da arte de Kiyoshi Kurosawa.
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