Negociar com a PSP não chegou para evitar segunda carga

A polícia avançou depois. Mesmo com um grupo de deputados do Livre e o deputado único do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, posicionados entre polícia e manifestantes, ter deixado um apelo final ainda captado pela comunicação social para que alguma entidade governamental agisse contra o que estava prestes a acontecer. Isabel Mendes Lopes, do Livre, chegou a referir que certamente o próprio Presidente da República estaria acordado perante o desenvolvimento dos acontecimentos no Rossio.
Depois o caos. À medida que a polícia de intervenção avançava em direção aos manifestantes foram lançados pelo menos cinco petardos. Já em contacto físico com os manifestantes, os agentes da PSP usaram a força do corpo e bastonadas para os forçar a sair da Praça Dom Pedro IV. Ainda nesse local, o Observador assistiu a três detenções.
Marta estava na fila da frente do cordão humano. Levou um “soco no olho através da viseira aberta do capacete”
“A primeira coisa que um polícia fez foi dar-me um soco no olho através da viseira aberta do capacete”, relata ao Observador Marta, lembrando o momento do avanço policial que tinha enfrentado há poucos minutos. Era uma das pessoas na primeira fila do cordão humano e também uma das 19 que ficaram feridas na madrugada deste domingo, segundo dados da organização da Acampada de Lisboa. Segundo a mesma fonte, três feridos foram hospitalizados, não sendo conhecido a esta hora o seu estado.
Enquanto fala ao Observador, Marta segura um saco de gelo que lhe entregou a equipa de “cuidados”, composta por profissionais de saúde voluntários na Acampada. “Já não está frio”, diz enquanto pressiona o gelo medicinal contra um hematoma na cara. É avisada para a possibilidade de ter uma contusão, precisa de estar vigilante nos próximos dias para sintomas como vómitos ou confusão.
“Estávamos pacíficos, ninguém estava a atacar, estávamos só a manter a proteção. Eles deram pontapés, empurraram, deram-me uma bastonada na barriga e bateram-me no capacete”, relata, lamentando que tudo tenha sido uma “raiva completa”, mas agradecendo por ter levado o capacete, antevendo que as agressões sem o equipamento de proteção poderiam ter resultado em ferimentos bem mais graves.
A jovem na casa dos 30 anos fala ao Observador na Mouraria, um ponto mais alto do centro de Lisboa, para onde um grande grupo de manifestantes foi empurrado e onde permaneceram até regressar a casa. Antes disso ainda houve muita tensão na Praça da Figueira — manifestantes pegaram em bancos de madeira dentro de uma tenda já montada para o mercado natalício e começaram a virá-los e atirá-los. Gritava-se que estavam a montar uma “barricada”. “O que é que estão a fazer?”, questionou num tom irritado o porta-voz da Acampada, João Veloso, aos manifestantes, apelando a que parassem.
Um grupo de manifestantes pegou depois nas barreiras metálicas que estavam no local e “fechou a rua” entre manifestantes e polícia de intervenção. Novamente alinhados, vários agentes da PSP avançaram sobre os manifestantes que ainda se encontravam ali, empurrando-os ainda mais, em direção ao Martim Moniz e à Mouraria.
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