A personagem de Hayden Panettiere em ‘Nashville’ ajudou a expor o lado sombrio da música country

Como Juliette Barnes, Panettiere trouxe à tona alguns dos segredos mais mal guardados da indústria e influenciou uma geração de artistas mulheres a não se calarem mais
Rolling Stone
Quando a personagem de Hayden Panettiere, Juliette Barnes, se opôs às investidas indesejadas de um DJ durante a segunda temporada de Nashville, a perturbadora realidade de quantas mulheres sofrem assédio sexual no mundo do rádio country veio à tona, embora ainda seja um segredo amplamente ignorado. A experiência de Barnes com o radialista assediador foi um ponto central da trama da temporada, que ilustrou como as mulheres são frequentemente pressionadas a se submeterem, a tolerarem investidas ou coisas piores na esperança de terem suas músicas tocadas — e ainda assim acabam competindo com outras artistas femininas pela cobiçada vaga na programação.
Panettiere, que faleceu ontem, 16, conduziu a trajetória da personagem com maestria e cuidado. Em um episódio intitulado “She’s GotYou”, exibido pela primeira vez em 13 de novembro de 2013, Juliette tem um encontro com o DJ Bobby — conhecido como “Papai Noel” na indústria, devido à sua mania de esperar que jovens artistas femininas se sentem em seu colo — e resiste às suas investidas. Quando Bobby tenta tocá-la pela cintura, ela se impõe. “Por favor, tire as mãos de mim”, diz ela, após o que o DJ se aproxima de uma artista promissora, Layla Grant, e a puxa para seus braços enquanto faz uma piada sobre o tamanho de seu microfone.
Juliette finalmente consegue que o DJ seja demitido, mas não sem consequências: ele difama o nome dela nas redes sociais. Pior ainda, quando ela tenta ajudar Layla (“Se alguém te tratar como uma prostituta, venha me contar”, ela diz), Juliette percebe que o conselho é indesejado — e o quão profundamente enraizada a misoginia e a competição entre as mulheres verdadeiramente é.
Foi uma representação impactante tanto para artistas country iniciantes quanto para as já consagradas em Nashville. “A série era conhecida por seus enredos dramáticos, mas qualquer pessoa que tenha estado tão próxima da indústria da música country sabe que ela se assemelhava muito a eventos reais que acontecem todos os dias”, diz a artista Kalie Shorr, que ajudou a liderar o movimento #TimesUp em Nashville. “Sua coragem em assumir uma personagem que iria confrontar tantas verdades desagradáveis sobre a indústria merece ser lembrada. Ela mostrou um espelho para a cidade de Nashville, e eu realmente acredito que isso forçou a indústria a se tornar um lugar mais seguro para as mulheres. Séries e filmes roteirizados têm uma oportunidade rara de fazer isso porque podem contar uma história sem citar nomes, mas toda garota em Nashville — e tenho certeza que a própria Hayden — sabia quais eram os nomes.”
A criadora da série, Callie Khouri, teve a intenção de fazer de Nashville uma plataforma para discussões tão importantes, que vão muito além do entretenimento. “Queríamos mostrar como é de verdade para jovens artistas que se lançam no mundo onde se espera algo deles. Se você quer que sua música toque nas rádios, é isso que você faz”, disse Khouri à Rolling Stone. “As pessoas não falam sobre isso e não querem citar nomes.”
Antes de Taylor Swift revelar suas experiências e o movimento #MeToo dar início a uma onda de protestos, a representação que Panettiere fez das realidades enfrentadas pelas mulheres no rádio country abriu caminho para discussões que já deveriam ter acontecido há muito tempo. Juliette era uma personagem complexa, que havia internalizado profundamente e, a princípio, tolerado a competição acirrada e as expectativas sórdidas que acompanham a busca pelo sucesso em Nashville. O relacionamento de Juliette com Rayna James, interpretada por Connie Britton, ilustrava o impacto do preconceito de idade e a forma como as artistas femininas são forçadas a competir por uma indústria que há muito as vê como “tomates na salada masculina”. “Às vezes era difícil interpretar isso, essa competitividade, onde estávamos em oposição e umas contra as outras”, disse Panettiere à revista People no ano passado.
Isso causou impacto na artista Meghan Linsey, que havia recebido ameaças de morte depois de revelar sua história de agressão sexual durante uma turnê de rádio com sua banda, Steel Magnolia, em 2010.
“Hayden nunca teve medo de falar sobre assuntos difíceis, e acho que essa mesma coragem transparecia nas personagens que ela interpretava”, diz Linsey. “Lembro-me do episódio de Nashville e de como ele era cru e real. Me tocou profundamente porque é algo que eu, e tantas outras mulheres neste ramo, vivenciamos de uma forma ou de outra. Numa época em que muitas dessas conversas ainda aconteciam a portas fechadas, ver isso retratado com tanta honestidade numa série centrada na nossa indústria foi incrivelmente significativo. Hayden tinha uma maneira de trazer verdade e vulnerabilidade a assuntos difíceis, tanto no seu trabalho quanto na sua vida pessoal, e acho que isso fazia as pessoas se sentirem menos sozinhas.”
Panettiere também foi franca em sua vida pessoal sobre o assédio e abuso sexual desenfreados na indústria do entretenimento, detalhando um episódio horrível em sua autobiografia This Is Me: A Reckoning, onde afirma que um ator vencedor do Oscar se expôs para ela. Ela também detalha um incidente em que alega que outra estrela famosa tentou coagí-la a fazer sexo com a ajuda de outra mulher. Como JulietteBarnes, ela trouxe à tona essas questões que afligem as mulheres da música country e de outros setores de maneiras significativas e duradouras.
“O trabalho dela em Nashville influenciou toda uma geração de artistas mulheres”, diz Shorr, “e nos mostrou o que significa coragem, vulnerabilidade e defender a nós mesmas.”
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