Masp atualiza exposição sobre a história da América Latina com obras dos países da região
São Paulo O Masp renova, a partir desta sexta-feira (4) e até janeiro de 2027, a exposição que faz parte do ciclo sobre a história da América Latina. Em cinco andares do edifício Pietro Maria Bardi, todos os países da região estão representados, com trabalhos de artistas que discutem como povos diferentes atravessaram problemas históricos semelhantes.
Na prática, os quadros, colagens, tapeçarias e esculturas mostram aspectos em comum entre os países, a fim de abordar colonização, racismo, escravidão e extrativismo. Por vezes, as criações fazem isso usando símbolos parecidos.
Pensando nisso, tanto o período quanto o local onde as obras foram produzidas não interferem na organização da exposição. O que importa é colocar peças mexicanas, cubanas ou porto-riquenhas próximas umas das outras para contar que o passado de problemas similares resultou em um presente com as mesmas dificuldades.
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Nesse espectro, o visitante percebe, por exemplo, que as telas "Okê Oxóssi" (Brasil, 1970), de Abdias Nascimento, e "Cementerio Indígena Bajo el Agua Hasta Hoy en la Central Hidroeléctrica Ralco" (Chile, 2023), de Seba Calfuqueo, usam elementos parecidos para representar povos marginalizados e questionar a ideia oficial de território.
O simbolismo aparece de forma explícita na obra de Nascimento, que usa cores da bandeira do Brasil e coloca referências à cultura e à religiosidade afro-brasileira. A grande seta no centro do quadro remete a Oxóssi, orixá associado à mata e à caça. Enquanto Calfuqueo parte de outra disputa: a cor azul indica que o território ficou alagado depois da construção da hidrelétrica chilena de Ralco; os objetos abaixo são as sobras de um cemitério indígena submerso pela água da usina.
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As duas obras mostram que a formação do Brasil e do Chile também podem ser contadas pelos povos negros e indígenas, mesmo quando eles foram reprimidos ou tiveram seus territórios tomados.
Para abordar a forma com que projetos de urbanização e industrialização construíram a história latino-americana do século 20, a exposição montou o núcleo "Retórica do Progresso". No espaço há destaque, em especial, a mapas e artigos de cartografia. A obra "Nuremberg Map of Tenochtitlán", da mexicana Mariana Castillo Deball, ocupa um trecho do núcleo, no 5º andar do edifício.
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Na instalação, o visitante pode ver um mapa de Tenochtitlán, publicado em 1524 junto com os relatos de Hernán Cortés ao imperador Carlos 5º. O mapa foi uma das primeiras e mais disseminadas imagens da capital asteca vista na Europa.
A pintura "El Mundo al Revés 1", da artista peruana Sandra Gamarra Heshiki, parte de um painel ilustrado para condensar informações sobre território, natureza, população e economia do Peru colonial.
Gamarra usa a estrutura do mapa —feita em óxido de ferro— e adiciona elementos brancos e pretos que aparecem espalhados na tela: são pallares, um tipo de feijão achatado, usado como oráculo por povos da região andina. Na obra, os grãos representam outras formas de entender o território além da divisão econômica. Assim, as duas criações colocam lado a lado formas europeias e indígenas de entender o território.
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Na mesma sala, há também algumas fotografias de pedestres nas ruas de São Paulo feitas por Claudia Andujar. "As obras se complementam porque vêm de lugares diferentes e tempos distintos", afirma Julieta González, curadora-adjunta do Masp.
Para Curtir SP
Receba no seu email um guia com a programação cultural da capital paulistaNo andar, a organização resolveu manter a janela aberta —é a única visão de dentro para fora nas áreas expositivas do prédio que não está tampada— para criar uma comparação direta entre o mapa e a Paulista.
"O mapa de Tenochtitlán confronta a vista da avenida Paulista, pela janela aberta do edifício, e as fotos das pessoas em São Paulo. Isso causa um atrito entre o local e o continental, o que faz a exposição encontrar o seu sentido", diz a curadora.
Também há, ao lado dos mapas, fotos, plantas do projeto e pinturas da construção de Brasília. Esses itens entram na exposição do Masp para discutir questões sobre urbanismo e a ideia de progresso. São obras de Clara Ianni, Dora Longo Bahia e Detanixo e Lain, além de fotos de Marcel Gautherot e Peter Scheier, que associam o lema "50 anos em 5" —criado por Juscelino Kubitschek para a construção da capital, planejada e moderna— ao processo de formação de desigualdade que o projeto resultou aos candangos.
Histórias Latino-Americanas
Edifício Pietro Maria Bardi, Masp - av. Paulista, 1510, Bela Vista, região central. Ter. das 10h às 20h; qua., qui., sáb. e dom., das 10h às 18h; sex., das 10h às 21h. De 4/9 a 31/1. A partir de R$ 85
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