De olho no sono: escola de médicos vai usar pulseiras para melhorar rotina de estudos
A empresa de educação médica IPM Educação enviará, em novembro de 2026, pulseiras Polar Loop, da fabricante finlandesa Polar, a alunos da Mentoria IPM 2027 para comparar sono, frequência cardíaca e estresse com desempenho acadêmico. A plataforma IPM Track estreia em 12 de janeiro de 2027, mas o projeto ainda não apresentou evidências de melhora nas notas ou na aprovação.
Dormir pouco, passar horas diante dos livros e ainda dar plantões em hospitais faz parte da rotina de muitos médicos que estudam para as provas de residência. Mas como saber quando o cansaço começa a atrapalhar o aprendizado? Uma empresa de educação médica quer usar uma pulseira para ajudar a responder essa pergunta.
O IPM Educação, de Goiânia, fechou uma parceria com a finlandesa Polar, fabricante de relógios e equipamentos que medem batimentos cardíacos e outros sinais do corpo. Pelo acordo, estudantes do curso preparatório para residência médica vão receber uma pulseira capaz de acompanhar o sono, a frequência cardíaca e sinais de estresse. Os dados serão comparados com as notas, o tempo de estudo e o número de questões resolvidas por cada aluno.
A novidade faz parte do IPM Track, sistema que será oferecido aos alunos da Mentoria IPM 2027. As pulseiras começam a ser enviadas em novembro de 2026, e a plataforma será liberada em 12 de janeiro de 2027. O lançamento ocorre em um ano no qual o IPM espera aumentar seu faturamento em mais de 80%, saindo de quase 112 milhões de reais em 2025 para até 205 milhões de reais em 2026.
"Será que aquele aluno que dorme entre sete e oito horas tem um rendimento melhor do que aquele que dorme entre cinco e seis? É uma dúvida que a gente quer sanar", diz Pedro Miranda, fundador e CEO do IPM Educação. A proposta é descobrir se mudanças no sono e em outros sinais do corpo aparecem também nos resultados das provas e nos hábitos de estudo.
Se a ferramenta funcionar como a empresa espera, a intenção é levá-la para outros cursos do grupo e, mais adiante, oferecê-la também a parceiros. Por enquanto, o projeto ficará restrito aos alunos da Mentoria IPM 2027. O IPM ainda não apresentou resultados que mostrem se o uso da pulseira melhora as notas ou aumenta as chances de aprovação.
Como a pulseira vai acompanhar os estudantes
O aparelho escolhido para o projeto é o Polar Loop, uma pulseira sem tela que pode ser usada durante o dia e enquanto a pessoa dorme.
Diferentemente de um relógio inteligente, o dispositivo não mostra mensagens ou notificações no pulso. Sua função é registrar informações sobre o corpo, como frequência cardíaca, atividade física, sono e recuperação após períodos de esforço.
Essas informações serão enviadas ao IPM Track, plataforma desenvolvida pelo grupo goiano para reunir os dados da pulseira com aqueles que o curso já coleta sobre cada aluno.
Na prática, a empresa poderá comparar a qualidade do sono de um estudante com seu desempenho no dia seguinte. Se ele passou uma noite dormindo mal, será possível verificar quantas horas estudou, quantas questões resolveu e como se saiu nas atividades.
A mesma comparação poderá ser feita após uma noite de sono melhor.
O IPM também quer observar grupos de alunos que disputam vagas em residência médica. A ideia é verificar, por exemplo, se aqueles que dormem entre sete e oito horas costumam ter resultados diferentes dos que dormem cinco ou seis horas.
Outra informação que entra nessa conta é a variação dos batimentos cardíacos, um dos sinais usados para acompanhar como o corpo reage ao estresse.
A empresa pretende criar um histórico para cada estudante. Assim, quando os dados de sono ou recuperação saírem do padrão daquela pessoa, a equipe poderá observar se houve alguma mudança em seus estudos.
"O que queremos é antecipar, e não remediar. Quando identificamos que um aluno está entrando em um período de queda de recuperação e isso se mantém por alguns dias, a equipe pode olhar para esse sinal dentro do contexto daquele estudante e oferecer o suporte adequado", afirma Miranda.
O compartilhamento dos dados será opcional. A integração dependerá da autorização do aluno, e as informações poderão ser acessadas pelo estudante e pela equipe responsável pelo seu acompanhamento. Segundo as empresas, o tratamento seguirá a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A pulseira não faz diagnósticos médicos. Seu papel será fornecer informações que ajudem a equipe do curso a avaliar a rotina dos estudantes.
Quem vai olhar os dados e o que poderá mudar na rotina dos alunos
O IPM já acompanhava o desempenho de seus alunos antes do acordo com a Polar.
Além de aulas e apostilas, o curso oferece planos de estudo que podem mudar conforme os resultados de cada estudante. A empresa acompanha quantas questões ele resolve, quais métodos utiliza e como se sai nas atividades.
Cada aluno tem um mentor, que faz uma reunião mensal para avaliar os resultados. Também recebe atendimento semanal de um profissional chamado internamente de "anjo", um psicólogo com formação voltada ao ambiente de trabalho que ajuda a organizar a rotina de estudos.
São esses profissionais que passarão a usar as informações da pulseira.
Embora os dados possam ser consultados ao longo do dia, o acompanhamento individual será feito semanalmente. O estudante não terá de interpretar sozinho os números registrados pelo aparelho.
A ideia é usar as informações para decidir quando mudar o plano de estudos.
Imagine uma médica que se prepara para a residência enquanto trabalha em plantões. Se ela começa a dormir pouco e seu desempenho nas atividades cai, a equipe poderá conversar sobre uma redução na carga de trabalho, levando em conta também sua situação financeira.
Em outro caso, se o estudante passa muitas horas diante dos livros, mas resolve poucas questões, o curso poderá reduzir o tempo de estudo ou trocar o método utilizado.
"Se o problema for o sono, vamos tentar adequar a rotina de descanso. Se o método de estudo não estiver funcionando, vamos mudar o método. Se a carga horária estiver excessiva, podemos reorganizá-la", diz Miranda.
O mesmo vale para a dificuldade das questões.
Uma aluna que acerta a maior parte dos exercícios pode passar a receber atividades mais difíceis. Já alguém com dificuldade em determinado assunto poderá ter o plano ajustado para revisar o conteúdo.
Miranda compara esse processo ao trabalho de um treinador de academia, que aumenta ou diminui a carga conforme o desempenho de cada pessoa.
O IPM também acompanha a frequência de acesso dos estudantes à plataforma. Hoje, quando um aluno fica três dias sem entrar no sistema, a equipe procura saber o que aconteceu.
Com os dados da pulseira, a empresa espera ter mais informações para entender se a ausência está ligada a problemas na rotina, ao cansaço ou a outros fatores que mereçam atenção.
Por que o IPM procurou a Polar
O projeto que deu origem ao IPM Track começou há cerca de dois anos.
Na época, o curso já perguntava aos alunos quantas horas dormiam, a que horas iam para a cama e quando acordavam. Mas dependia das respostas fornecidas pelos próprios estudantes.
Miranda queria substituir parte dessas informações por medições feitas ao longo do dia e da noite.
Em 2025, a equipe começou a pesquisar fabricantes de pulseiras e relógios capazes de acompanhar sinais do corpo. Foi assim que chegou à Polar.
"Nós fomos atrás da Polar. Somos muito chatos com qualidade. Não é, de longe, a mais barata", diz Miranda.
Fundada em 1977 na Finlândia, a Polar começou desenvolvendo equipamentos para medir a frequência cardíaca durante a prática de esportes.
Um de seus primeiros produtos era uma cinta colocada no peito que enviava informações sobre os batimentos cardíacos para um aparelho usado no pulso.
Com o passar dos anos, a empresa passou a vender relógios esportivos e dispositivos que registram atividade física, sono e recuperação.
O Polar Loop é um desses produtos. A pulseira acompanha o sono, os movimentos do dia a dia e os exercícios físicos.
Segundo André Bandeira, CEO da Polar no Brasil e na América Latina, mais de 15 mil estudos científicos foram realizados com dispositivos da marca.
O uso desses equipamentos também deixou de ficar restrito aos esportes.
A Polar já fornece tecnologias usadas por mineradoras para acompanhar sinais de cansaço entre trabalhadores. Há aplicações semelhantes em empresas de transporte e logística e no acompanhamento de pessoas que precisam monitorar a frequência cardíaca.
A parceria com o IPM leva os aparelhos a outro ambiente: os cursos preparatórios.
"Por que não fazer uma correlação entre a performance acadêmica, a performance profissional e a performance de saúde? Será que a qualidade das notas que eu tiro e os resultados que tenho nas provas podem ser melhores se eu tiver um sono melhor?", diz Bandeira.
Segundo o executivo, esta é a primeira parceria desse tipo feita pela Polar. A empresa acredita que o projeto possa ser inédito no ensino, mas ainda não confirmou se existe alguma iniciativa semelhante em outros países.
IPM prevê faturar até 205 milhões de reais em 2026
A parceria chega em um período de crescimento do IPM, fundado pelo médico radiologista Pedro Miranda em Goiânia.
O negócio começou com cursos preparatórios para médicos que buscam uma vaga na residência, período de formação em que o profissional trabalha e estuda em hospitais para se especializar em uma área da medicina.
Desde então, o grupo passou a oferecer também cursos de pós-graduação, preparação para provas de título e ferramentas de estudo.
Hoje, reúne mais de 20 produtos voltados à formação de médicos. Os cursos preparatórios são oferecidos pela internet para estudantes de todo o país. O grupo também tem unidades presenciais de pós-graduação em Goiânia, Brasília, São José do Rio Preto e São Paulo.
Em 2026, o IPM informa ter ultrapassado 4.500 aprovações em programas de residência médica, distribuídas pelos 26 estados e pelo Distrito Federal.
O crescimento acompanha o aumento do número de médicos formados no Brasil e a disputa pelas vagas de residência.
Segundo os dados da Demografia Médica no Brasil 2025 apresentados pela empresa, o país formou 32.611 médicos em 2023. No ano seguinte, 16.189 profissionais ingressaram no primeiro ano de programas de residência de acesso direto, modalidade que não exige uma especialização anterior.
Os números ajudam a mostrar o tamanho da disputa, embora comparem formandos de um ano com ingressantes de outro e não representem, por si só, a taxa de aprovação nas seleções.
O IPM busca atender parte desse público, incluindo médicos que já tentaram uma vaga e não conseguiram aprovação.
Em 2025, a empresa também foi reconhecida pelo ranking EXAME Negócios em Expansão na categoria de negócios com receita entre 30 milhões e 150 milhões de reais.
Para 2026, Miranda projeta um novo salto de faturamento.
"É um ano em que a gente vai quase dobrar de tamanho. A previsão de crescimento para este ano é acima dos 80%", diz.
Segundo o executivo, o grupo faturou quase 112 milhões de reais em 2025 e deve encerrar 2026 com 200 milhões de reais. A expectativa pessoal de Miranda é alcançar 205 milhões de reais.
Além de aumentar as vendas dos cursos, o IPM pretende usar o projeto com a Polar para ampliar a oferta de ferramentas de estudo.
"Nosso objetivo, dando tudo certo, é colocar isso como um produto educacional e disponibilizar para todos os nossos produtos e para os nossos parceiros", diz Miranda.
A primeira etapa, no entanto, será acompanhar os alunos que receberão o Polar Loop em novembro. Em janeiro, quando o IPM Track começar a funcionar, o curso passará a reunir as informações sobre o corpo dos estudantes com os resultados de seus estudos.
O que é o ranking Negócios em Expansão
O ranking EXAME Negócios em Expansão é uma iniciativa da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
O objetivo é encontrar as empresas emergentes brasileiras com as maiores taxas de crescimento de receita operacional líquida ao longo de 12 meses.
Em 2026, a pesquisa avaliou as empresas que mais conseguiram expandir receitas ao longo de 2025.
São 491 empresas que criam produtos e soluções inovadoras, conquistam mercados e empregam milhares de brasileiros.
'Perguntas frequentes'
Como a pulseira Polar Loop acompanhará os estudantes? +
A Polar Loop registrará frequência cardíaca, atividade física, sono e recuperação dos estudantes. O IPM Track comparará essas informações com notas, horas de estudo e número de questões resolvidas.
Quando o IPM Track começará a funcionar? +
As pulseiras começarão a ser enviadas aos alunos da Mentoria IPM 2027 em novembro de 2026. A plataforma IPM Track será liberada em 12 de janeiro de 2027.
Quem poderá acessar os dados coletados pela pulseira? +
O compartilhamento será opcional e dependerá da autorização do aluno. O estudante e a equipe responsável pelo acompanhamento poderão acessar as informações e, segundo o IPM Educação e a Polar, o tratamento seguirá a Lei Geral de Proteção de Dados.
Como os dados poderão mudar a rotina de estudos dos alunos? +
Mentores e profissionais chamados de “anjos” poderão usar os dados para ajustar o descanso, a carga horária, o método de estudo e a dificuldade das atividades. O acompanhamento individual ocorrerá semanalmente.
A pulseira melhora as notas ou as chances de aprovação? +
Ainda não há resultados que mostrem melhora nas notas ou aumento das chances de aprovação. A pulseira também não faz diagnósticos médicos e servirá como fonte de informações para a avaliação da rotina dos estudantes.
Quanto o IPM Educação prevê faturar em 2026? +
Segundo Pedro Miranda, fundador e CEO do IPM Educação, o grupo faturou quase R$ 112 milhões em 2025 e deve alcançar R$ 200 milhões em 2026. A expectativa pessoal do executivo é chegar a R$ 205 milhões.
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