Após 1º turno, nomes da esquerda inflamam debate com alegações imprecisas
Desde que Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com mais votos do que Lula (PT), alguns nomes influentes da esquerda brasileira partiram para a ofensiva. Parte apelou para o catastrofismo e outros distorcem fatos, surfando em temas sensíveis na sociedade brasileira, como autismo, Pix e o Sistema Único de Saúde.
Entenda abaixo detalhes e contextos do que foi dito sobre os três temas:
SUS
O ex-deputado Jean Wyllys, que concorreu nestas eleições pelo PT em São Paulo, mas não foi eleito, postou que sua diversão no Instagram está sendo "mandar a real a pobre fodido de direita eleitor de Flávio Bolsonaro". Segundo ele, trata-se da "pedagogia do choque" para produzir um curto-circuito que reverta a lavagem cerebral.
"Teve uma que fez hemodiálise todo dia no SUS que, depois de insultar Lula, disse que é Flávio até o fim. Eu respondi: ‘Parabéns, seu fim está próximo, já que ele vai acabar com o SUS. Às portas do inferno, lembre-se disto’", postou o ex-deputado.
A Folha tentou contato com Jean Wyllys, mas não obteve resposta.
Um evento em setembro reuniu os conselheiros de Flávio e Lula para a Saúde —o médico Cláudio Lottenberg, cotado para integrar eventual governo do PL, e Alexandre Padilha (PT), ministro da Saúde do petista. Ambos apresentaram ideias semelhantes para o SUS.
O indicado de Flávio ao ministério disse que o SUS é uma "estrutura vitoriosa" que precisa ser melhorada ou aperfeiçoada, sem exigir uma reforma.
PIX
Outro caso foi o da historiadora Lilia Schwarcz, que tem 683 mil seguidores no Instagram. Ela postou um vídeo afirmando que Flávio Bolsonaro vai acabar com o Pix, caso eleito.
"Não sei vocês, mas eu vou usar o Pix o máximo que eu puder agora. Por que se por acaso o Flávio Bolsonaro ganhar, ele vai acabar com o Pix. A mando de quem? A mando do [Donald] Trump, que já avisou que não gosta nada de Pix e que não confia. Gente, corre lá para fazer bastante Pix, porque daqui a pouco, acabou", disse.
À Folha ela diz que não se trata da extinção do serviço de pagamento, mas de possíveis medidas que podem ir minando o funcionamento, comprometendo a eficiência do Pix.
"Trump várias vezes se pronunciou contra o Pix. Então assumo que, se Flávio Bolsonaro vencer, ele vai se submeter aos desígnios do presidente norte-americano e a chance é grande. Foi isso que disse", afirmou.
O candidato do PL tem repetido seguidamente que vai manter o sistema de pagamentos se for eleito. Em julho, enviou um dossiê ao governo americano oferecendo vantagens comerciais e cita o Pix como um dos marcos da gestão Jair Bolsonaro.
Eletrochoque
Outro episódio do tipo envolveu o influenciador Felipe Neto, que afirmou que o governo Bolsonaro propôs eletrochoque para crianças autistas. O vídeo é de 2022, mas voltou a circular nas redes recentemente, impulsionado por apoiadores e críticos. A peça foi também repostada pelo 342 artes, movimento liderado pela empresária Paula Lavigne.
"É verdade que o governo Bolsonaro propôs eletrochoque em crianças autistas?", pergunta o influenciador no vídeo. "É, é verdade", responde Felipe a si mesmo.
O governo Bolsonaro não fez essa recomendação oficial. Em um documento preliminar, que foi posteriormente enviado para consulta pública, mencionou a existência da técnica da eletroconvulsoterapia (ECT). O material foi elaborado por especialistas da área da saúde e representantes do Ministério da Saúde, que se reuniram em 2021, no âmbito da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde, a Conitec.
O grupo responsável por conduzir a atualização no caso do comportamento agressivo no TEA (Transtorno do Espectro do Autismo) foi o Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
À Folha a professora de ciências farmacêuticas da Unifesp Daniela de Oliveira Melo diz que "não houve interferência política no desenvolvimento do PCDT [Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas] em questão".
Felipe Neto no vídeo diz que a "Conitec surpreendeu o mundo inteiro ao emitir uma planilha, uma cartilha, recomendando, dentre várias coisas, o tratamento de autistas severos com eletrochoque".
O documento a que ele se refere é uma atualização do protocolo para Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo.
Em março daquele ano, Afzal Javed, então presidente da Associação Mundial de Psiquiatria, e Antônio Geraldo Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, escreveram um texto publicado na Folha no qual defendiam a eletroconvulsoterapia como "uma das técnicas mais eficazes e seguras" para o tratamento de alguns transtornos psiquiátricos.
A ECT foi citada no texto preliminar de 2021 do Ministério da Saúde após ser afirmado que uma parcela considerável de indivíduos que apresentam comportamento agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo não responde a intervenções farmacológicas.
O texto preliminar deixou claro que não havia recomendação oficial. Afirmou também que a técnica é reservada a casos graves e deve ser avaliada por uma equipe especializada, "não sendo recomendada por este protocolo".
A reunião inicial, em março de 2021, contou com a participação de especialistas e representantes de associação de pacientes e técnicos do ministério.
Posteriormente, a atualização foi avaliada por uma subcomissão técnica do ministério. Em seguida, foi discutida na 103ª Reunião da Conitec, em novembro daquele mesmo ano.
Segundo Daniela Oliveira de Melo, professora da Unifesp, presente na reunião da Conitec, a inclusão de informações sobre ECT foi feita a pedido dos especialistas presentes na reunião inicial, destacando que a intervenção não era recomendada no PCDT, "só pra deixar claro que essas opções existem na literatura [médica]", afirmou a professora na reunião.
O médico Thiago Castro, que tem 1,8 milhão de seguidores no Instagram, postou um vídeo com críticas ao influenciador, associando-o a ignorância e fake news. No vídeo, Castro contesta a afirmação de que Bolsonaro defendeu a técnica e diz que Felipe Neto causou pânico.
Felipe Neto respondeu chamando-o de bolsonarista e o conteúdo de "videozinho mentiroso".
Depois da reunião de 2021, o tema foi encaminhado para consulta pública, e mais de 50 entidades publicaram uma nota de protesto.
Procurado pelo UOL na época, o Ministério da Saúde afirmou que se tratava de um documento preliminar demandado para avaliação da Conitec. "A consulta pública é uma importante etapa de revisão externa dos PCDT e as contribuições da sociedade serão consideradas para elaboração da proposta final", disse o ministério, em nota.
A Folha procurou Felipe Neto, mas sua equipe afirmou que ele já havia se manifestado nas redes.
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