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Tuesday, October 13, 2026

A guerra contada a partir de um buraco em Gaza

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Em uma das mudanças de cativeiro, Eli Sharabi e os outros reféns percebem que seus captores deixaram para trás uma garrafa de Fanta laranja. Escondem o refrigerante e esperam os homens dormirem. Só então dividem o pequeno tesouro.

"É algo doce para beber, no fundo do subterrâneo, de um túnel carregado de medo e ansiedade", escreve Sharabi. A alegria provocada por alguns goles de Fanta dá a medida do mundo descrito em "Refém", relato dos 491 dias que o israelense passou como prisioneiro do Hamas em Gaza.

Sharabi foi arrancado de sua casa no kibutz Be'eri em 7 de outubro de 2023, durante o ataque liderado pelo Hamas contra Israel. Deixou para trás a mulher, Lianne, e as filhas, Noiya e Yahel. O leitor sabe desde o início que as três foram mortas naquele dia. Sharabi, não.

O livro se passa dentro desse intervalo entre o que aconteceu e o que ele consegue saber. Da guerra travada sobre sua cabeça chegam apenas fragmentos: explosões, comentários dos captores, alguma informação esparsa.

Durante boa parte do cativeiro, esse universo são os túneis do Hamas. Há pouca ventilação, escuridão, cheiros insuportáveis e colchões finos. Os homens permanecem acorrentados pelas mãos e pelos pés. Comem principalmente pedaços de pão pita, às vezes sopa ou macarrão. Quando finalmente se vê num espelho, Sharabi não reconhece o homem refletido.

É na precisão desses detalhes que "Refém" ganha força. O livro é muito bem escrito e se lê com a urgência de quem também espera a abertura de uma porta ou uma notícia do lado de fora. No miolo, a tensão diminui por alguns capítulos. É difícil saber quanto disso é um problema da narrativa e quanto reproduz a própria monotonia do cativeiro, no qual um dia de fome, medo e espera começa a se parecer com o seguinte. O ritmo logo volta.

Quase sempre o mais velho entre os prisioneiros, Sharabi assume a responsabilidade de organizar a convivência, acalmar os mais frágeis e impedir que o desespero domine o grupo. Nem sempre consegue. Eles discutem pela divisão da comida e pelo espaço para dormir. Em determinado momento, quatro prisioneiros conseguem se separar em grupos rivais por um motivo fútil. "Formamos partidos", escreve. "É incrível como quatro pessoas presas em condições impossíveis ainda assim conseguem dividir-se em facções."

Há humor nessa constatação, mas não alívio. Os captores controlam a comida, os movimentos e a informação. Também obrigam os reféns a gravar vídeos e ler mensagens destinadas a Israel. Os maus-tratos, Sharabi percebe, têm um limite perverso: é preciso mantê-los vivos porque são moeda de troca.

Escrito pouco depois de sua libertação, "Refém" tem algo da urgência de quem precisa colocar a experiência no papel antes de conseguir deixá-la para trás. Sharabi já disse que escrever e falar sobre o que viveu acabaram funcionando também como uma espécie de terapia. Hoje tenta reconstruir uma vida que não pretende retomar no kibutz.

No túnel, porém, reconstruir a vida ainda não era uma opção. Era preciso primeiro sobreviver.

Sharabi admite ter pensado que a mulher e as filhas poderiam estar mortas. Mas não podia saber. Precisava sair de Gaza para descobrir.

Durante 491 dias, sobreviveu agarrado também a essa possibilidade. Quando finalmente foi libertado, em fevereiro de 2025, soube que Lianne, Noiya e Yahel haviam sido assassinadas no 7 de Outubro.

O leitor de "Refém" conhece essa verdade desde as primeiras páginas. Sharabi precisou sobreviver 491 dias para conhecê-la.

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A guerra contada a partir de um buraco em Gaza — KioskNews