'Socialista champagne' é a nova esperança da esquerda para eleição na França
A maioria dos políticos lança suas campanhas de um púlpito. Raphaël Glucksmann começou sua candidatura à Presidência da França escalando uma turbina eólica de 80 metros. "Não tenho medo, mal posso esperar para chegar ao topo", disse o candidato, vestido com capacete e arnês. De volta ao solo, ele prometeu uma "revolução ambiental de cem dias" caso seja eleito em 2027 para combater as mudanças climáticas e livrar a França dos combustíveis fósseis.
Depois de um dos verões mais quentes já registrados na França e de incêndios florestais devastadores, a questão o coloca na linha de frente dos debates públicos. Mas sua candidatura ao Eliseu enfrenta obstáculos formidáveis: a esquerda francesa não chega ao segundo turno das eleições presidenciais desde 2012.
Com Marine Le Pen, da ultradireita, praticamente certa em uma das duas vagas no segundo turno em maio do próximo ano, Glucksmann também será espremido pela esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon, que vem ganhando terreno nas pesquisas, e pelos herdeiros centristas de Emmanuel Macron.
Glucksmann, 46, escritor e ativista que se tornou eurodeputado, lançou seu próprio partido, o Place Publique, em 2018, e ganhou projeção nacional ao liderar uma lista conjunta com os Socialistas, que ficou em terceiro lugar nas eleições europeias de dois anos atrás.
Embora às vezes pareça desajeitado —o anúncio de sua candidatura em horário nobre soou muito ensaiado—, seus apoiadores dizem que suas convicções transparecem.
"Eu não venho do molde político usual", disse Glucksmann à TF1 News. "Eu não fui assessor parlamentar aos 20 anos nem funcionário de um partido político, eu estava ao lado de pessoas que haviam escapado do genocídio em Ruanda, e de opositores do imperialismo russo na Geórgia e na Ucrânia."
"Muitos franceses não acreditam mais na política porque ela não é sincera. É bom ter um recomeço com alguém sincero", disse o aliado próximo Nicolas Mayer-Rossignol, prefeito socialista de Rouen. No entanto, uma formação elitista e intelectual pode nem sempre jogar a seu favor, e algumas posições irritam eleitores de esquerda, que o acusam de ser excessivamente pró-Israel, excessivamente pró-energia nuclear e não suficientemente radical na economia.
Ele forma um "casal poderoso" com sua companheira Léa Salamé, uma das jornalistas de televisão mais conhecidas da França, que deixou de apresentar seu programa de notícias de horário nobre durante o período de sua candidatura. A revista Paris Match estampou fotografias do casal na praia da Córsega na capa em agosto, logo abaixo de imagens de Emmanuel Macron em um jet ski.
Glucksmann tem um leve ar de "socialista champanhe" que pode prejudicá-lo, disse Daniel Boy, do Sciences Po.
O candidato nasceu nos arredores de Paris, filho de pais ativistas e intelectuais. Seu falecido pai, André Glucksmann, foi um filósofo conhecido que rompeu com seus primeiros devaneios comunistas para se tornar um esquerdista antimaoísta durante a maior parte de sua vida, assim como sua esposa, Françoise, também ativista e roteirista.
A casa dos Glucksmann recebia um elenco rotativo de ativistas e párias políticos. Sua falecida mãe, a quem ele chamava de "Fanfan", já descreveu como, aos cinco anos, Raphaël se deitava no chão com o pai para discutir a inexistência de Deus.
As críticas contundentes de Glucksmann à Rússia vêm de experiências formativas em Kiev, durante a Revolução Laranja de 2004, e na Geórgia, onde assessorou o então presidente Mikheil Saakashvili após a invasão russa de 2008.
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Seus alertas precoces à UE sobre a interferência russa e sua defesa da minoria uigur da China são exemplos de suas visões firmes, dizem seus apoiadores. "Ele é alguém tenaz, determinado. Quando ele se dedica a um assunto —mesmo que não esteja na moda, mesmo que ninguém se importe— ele estará certo", disse Aurore Lalucq, membro do Parlamento Europeu pelo Place Publique.
As primeiras pesquisas mostram que a campanha de Glucksmann tem um longo caminho pela frente. Uma pesquisa desta semana o colocou em quarto lugar, com 11% das intenções de voto no primeiro turno, atrás de Le Pen, Mélenchon e do ex-primeiro-ministro de Macron, Édouard Philippe. No entanto, em um hipotético segundo turno contra Le Pen, ele teve um desempenho substancialmente melhor do que Mélenchon.
"O que é diferente desta vez é que a Reunião Nacional não está apenas com um pé na porta, eles têm nove dedos e meio dentro do Eliseu", disse Mayer-Rossignol. "A esquerda precisa se perguntar se quer vencer. Não tenho interesse em ser o cadáver mais bonito do cemitério."
O primeiro teste de Glucksmann será uma prévia em outubro contra outros candidatos socialistas pela indicação da centro-esquerda. Mas sua maior tarefa é diminuir a distância em relação a Mélenchon, convencendo os eleitores de esquerda de que ele oferece a melhor chance de chegar ao segundo turno, disse Mathieu Gallard, do Ipsos.
Glucksmann ainda não é conhecido como um político de âmbito nacional, e sua mensagem está menos alinhada às prioridades tradicionais dos eleitores, como o custo de vida, acrescentou.
Em uma conferência organizada pela principal entidade patronal do país, Glucksmann arrancou aplausos por seus ataques frontais à tentativa de Le Pen de restringir a imigração para reduzir a dívida da França. Mas ele também destacou sua luta contra "a religião do livre comércio" e prometeu criar uma sociedade de "trabalhadores, não de rentistas e herdeiros", especialmente por meio de um novo imposto sobre heranças acima de € 2 milhões (cerca de R$ 12 milhões).
Durante a pandemia de Covid-19, Glucksmann defendeu o cancelamento da dívida soberana da zona do euro detida pelo Banco Central Europeu, embora agora se oponha à tentativa de Mélenchon de reviver uma ideia semelhante. "Ainda há algumas arestas ásperas em seu programa", disse um executivo.
Glucksmann está determinado a superar as adversidades. "A ilusão da aldeia global, na qual a Europa é motivo de piada, acabou", disse ele a líderes empresariais. "Somos um país vasto, com um destino gigantesco que ainda não terminou; não vamos ceder ao derrotismo."
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