"Os Estados Unidos são cada vez menos um aliado de fiar"

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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, segunda edição do dia. É nosso convidado o historiador Bruno Cardoso Reis, no dia em que Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, determinou o encerramento dos acessos à Cisjordânia, na sequência de um ataque que feriu seis militares israelitas, disparos a partir de um veículo que feriram seis militares israelitas, alguns em estado grave. Bruno Cardoso Reis, boa tarde, bem-vindo à antena do Observador. O que significa este episódio, um aumentar do clima de tensão na Cisjordânia, há poucos dias das eleições em Israel também?
Sim, vai haver eleições dia 27, portanto, daqui a menos de uma semana. Os dois grandes blocos, o liderado por Netanyahu e o liderado por Lapid, portanto, a oposição, parecem estar basicamente empatados nas sondagens, geralmente com uma ligeira vantagem pra oposição, mas nada que chegue perto sequer dos 61 deputados que seriam necessários para ter uma maioria no Parlamento, no Knesset, tem 120. Sendo que estamos a falar uma maioria com uma coligação muito grande, porque quer o Likud, quer o partido do Lapid, as sondagens andam entre 21 e 23 deputados. Estamos a ver depois ainda o exercício de colagem que seria preciso. Portanto, realmente estamos no pico da campanha eleitoral. Obviamente, no caso de Israel, todas as questões de segurança das relações com os palestinianos são cruciais. O Netanyahu, como sabemos, defende sempre uma mão dura, a continuação da expansão dos colonatos, portanto, no fundo, a ocupação ilegal com a perspectiva à partida de uma anexação a prazo dos territórios ocupados. O Lapid promete congelar basicamente esses colonatos e tentar chegar a algum tipo de acordo. Eu diria que à partida, isto parece ser mais um exemplo do que se tem repetido ao longo destas décadas, que é uma espécie de aliança tácita entre a direita israelita mais radical, mais hostil à paz, e depois os grupos armados, os grupos terroristas palestinianos. Tivemos isso nos anos 90. Foi assim que Netanyahu apareceu e conseguiu contrariar até as sondagens e derrotar o Shimon Peres, sempre a seguir o assassinato de-
Yitzhak Rabin
...Yitzhak Rabin. E portanto, vamos ver se isto tem algum impacto desse tipo ou não.
Esta corrente mais securitária, esta mão mais pesada, esta manifestação de força beneficia de alguma forma Benjamin Netanyahu?
Eu acho que pode ir nos dois sentidos. Acho que realmente é extraordinário que os terroristas palestinianos não considerem que isto de alguma forma ajuda a sua causa. Enfim, mas isso também, obviamente, é uma expressão da enorme frustração com uma ocupação que se prolonga há muitas décadas. Mas em todo caso, pode ser visto como um sinal de que é preciso mão dura e, portanto, comprovar que no fundo é melhor. Netanyahu tem muitos defeitos e a maior parte dos israelitas reconhecem isso, mas há muitos que consideram que é uma espécie de mal necessário, naquela região também sempre muito perigosa, muito violenta. Pode dar argumentos à oposição que diz que esta receita securitária não tem resultado. O número crescente de ataques contra palestinianos na Cisjordânia não só é terrível pra imagem de Israel e justificadamente, justifica todo o tipo de críticas, mas só aumenta a desestabilização, portanto, só dá mais força a esses grupos mais violentos. Portanto, eu acho que pode ir nos dois sentidos. Provavelmente, depende de qual é já a preferência que a pessoa tem por uma narrativa ou por outra. Agora, em todo caso, o que isto mostra objetivamente é que realmente esta receita securitária não tem dado mais segurança nem a israelitas, nem a palestinianos. Realmente, o conflito tem se prolongado, apesar de medidas sempre mais duras da parte do governo israelita.
Ainda do Médio Oriente, a denúncia feita pelo regime iraniano de que há navios que continuam a ser atacados no Estreito de Ormuz, isto numa altura em que a cotação do barril de Brent, que serve de referência para Portugal e para boa parte da Europa, continua a subir. Estava há pouco a ser negociado a $114. Tem razão o Irão e há motivos para ficarmos preocupados com esta aparente incapacidade para garantir a navegabilidade de navios mercantes no Estreito de Ormuz?
Isto faz parte de uma guerra também de percepções e de informações pra tentar condicionar os mercados, pra tentar condicionar aqui a dinâmica política deste conflito. Está aqui uma espécie de paz podre, portanto, sem grandes ataques, mas que também não é realmente um verdadeiro cessar-fogo ou uma verdadeira paz. Acreditarmos nas notícias que vêm do lado iraniano, seria o maior número de navios atingidos, danificados desde o início do conflito, portanto, estes tais sete, entre minas e outros tipos de mísseis ou drones ou o que seja. Portanto, no fundo, isto é o Irão a passar a mensagem. Não é verdade aquilo que os americanos estão a dizer, que já resolveram o problema do estreito, que já é seguro passar. Em todo caso, o que é bastante evidente é que mesmo com mais navios a passarem no Estreito de Ormuz, na rota mais a sul, com alguma proteção militar americana, isso realmente não tem feito baixar os preços, porque apesar de tudo, estamos a falar de níveis ainda assim inferiores ao que era o nível normal antes da guerra e sobretudo, estamos a falar de custos muito superiores. Ou seja, os navios passam, mas obviamente fazem-se pagar pelo luxo de estarem ali a transportar petróleo numa zona de alto risco. E, portanto, os fretes, enfim, mesmo os seguros Continuam a valores muito elevados e isso obviamente reflete-se também no preço e sobretudo mantém-se a incerteza sobre se esta rota realmente é algo que é durável, se ao haver um reacender do conflito vai voltar a estar em risco. Portanto, quer a incerteza, quer os custos da navegação explicam que realmente em termos daquilo que mais interessa, que é o preço, as coisas não estejam melhor, pelo contrário, continuam de facto a preços em valores historicamente elevados.
Viajamos agora até ao leste da Europa para dar conta das declarações ontem feitas por Vladimir Putin. O presidente russo diz que o objetivo de eventuais negociações próximas será garantir a segurança da Ucrânia e da Rússia após os acordos de paz, de forma definitiva, e sugere também que é preciso garantir uma arquitetura que permita uma segurança duradoura no espaço europeu. Como é que interpretas estas declarações de Vladimir Putin? Para levar a sério?
É o tipo de conversa que Putin tem desde o início do conflito, portanto, o que mostra é que aparentemente Putin continua convencido que pode continuar a fazer exigências maximalistas. Isto traduzido para miúdos quer dizer que, mais uma vez fique evidente que é falsa esta ideia de que se está simplesmente a disputar uns pequenos pedaços de território em que supostamente muita da população até quereria ser russa, embora nós não temos nenhuma evidência disso. Aliás, muita da população fugiu dessas zonas e a que está lá obviamente está sob ocupação militar, portanto não pode propriamente exprimir-se de forma muito livre, mas em todo o caso, aquilo que Putin no fundo está aqui a exigir é uma satelização da Ucrânia, é o fim da Ucrânia como um Estado verdadeiramente independente, é a submissão da Ucrânia à Rússia, portanto ficar com um estatuto parecido provavelmente à Bielorrússia. Formalmente é independente, na prática deixa de ter margem para seguir a sua própria política externa, que sempre foi o problema de Putin. Eu recordo que esta crise começa a escalar e passa para um conflito violento, para uma ocupação armada em 2013, 2014, quando um presidente pró-russo, que tinha garantido que a Ucrânia não ia entrar na NATO, tentou assinar um acordo de associação com a União Europeia, mais uma vez não era de adesão, era simplesmente de associação, para intensificar relações comerciais. Depois de ter tido garantias da Rússia, dos próprios europeus terem tido garantias de Putin de que isso não era um problema, à última hora Putin muda de ideias, exige que o acordo não vá para diante, aparentemente também terá pago ao presidente ucraniano para isso, e depois isso gera uma enorme revolta popular, depois a retaliação russa vai ser a ocupação da Crimeia e com base nas bases que a Ucrânia tinha permitido à Rússia manter lá, com tropas, claro, e depois também na zona do Donbass. Mas portanto é submeter a Ucrânia e depois ainda é ter aqui uma espécie de estatuto hegemônico, portanto vir poder ditar qual é a arquitetura de segurança no resto da Europa. Inclusive condicionando a possibilidade dos países do leste e do norte, que têm um receio fundado, até com base na história e no comportamento recente de uma agressão russa, poder condicionar de alguma forma a resposta que eles dão, a forma como estão a responder a essa ameaça. Portanto, isto realmente mostra que não há aqui nenhuma forma de conseguir um compromisso razoável, uma paz razoável e que garanta também a segurança dos países vizinhos e da própria Ucrânia. Seria uma espécie de rendição, uma entrega aqui de um poder hegemônico à Rússia por parte dos Estados Unidos, mas vamos ver se os europeus conseguem resistir a isso e se os norte-americanos também percebem o que é que está realmente em jogo.
Não é a única preocupação por estes dias para o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky volta a dizer que há restrições na utilização do sistema Starshield, o sistema de comunicação militar por satélite Starshield da empresa Starlink de Elon Musk. Isto é de facto um grande problema para a Ucrânia, tendo em conta que não há uma alternativa a este sistema de comunicações. Esta é mais uma forma de pressão dos Estados Unidos para empurrar a Ucrânia para a mesa das negociações?
Sim, parece ser exatamente isso, uma forma de pressão que deve colocar questões muito sérias, por exemplo, aos europeus e a outros aliados dos Estados Unidos, porque inclusive o que está aqui em causa, por um lado, é a excessiva dependência de sistemas norte-americanos controlados, neste caso, por um empresário norte-americano ele próprio com grandes ideias sobre política externa, muitas vezes com pouca base, que é o Elon Musk, e depois eventualmente pelo presidente Trump. Supostamente é assim que funciona o Starshield. A partir da decisão deveria ser do próprio governo americano. Mas o que percebemos, ou melhor, o que não percebemos nestes últimos dias é exatamente quem é que decidiu o quê. O próprio Donald Trump ainda ontem recusou-se a ser claro, a dizer quem é que decidiu, se ele deu uma ordem, se não deu, se foi o Elon Musk que tomou a iniciativa, falou com ele para ter aqui algum tipo de cobertura. E sobretudo, o que temos é que depois do Donald Trump ter garantido que o sistema tinha voltado ao normal, temos do lado ucraniano queixas de que isso não é realmente assim. E portanto isto só acentua o descrédito, confirma esta ideia de que realmente cada vez menos os Estados Unidos são um aliado de fiar, se pode confiar nos norte-americanos. Isso tem obviamente grandes implicações para as opções estratégicas dos países europeus. Quer dizer, quando, por exemplo, Portugal está a pensar que tipo de caça é que vai comprar, acho que se calhar vale a pena perceber bem o que é que está aqui em questão. Se é só uma questão técnica, se vamos comprar o avião melhor ou se queremos comprar um avião que temos a garantia de poder usar quando precisamos. E não corrermos o risco de havendo aqui alguma birra do lado norte-americano, de repente passamos a ter problemas. E portanto acho que isto realmente é um alerta para todos os aliados dos Estados Unidos sobre o estado em que estamos e realmente é um estado bastante preocupante e lamentável, porque durante muitas décadas habituámo-nos a poder contar com os Estados Unidos, a poder depender deste tipo de sistemas norte-americanos, e isso tinha enormes vantagens para os Estados Unidos, ou seja, a Europa, apesar daquilo que diz o presidente Trump e os seus amigos sobre os europeus não valerem nada do ponto de vista militar, não gastarem nada em defesa, etc. Na verdade, os europeus são o maior cliente da indústria de armamento, a indústria de defesa norte-americana. Acho que se calhar tem de se pensar em realmente mudar isso e investir muito mais numa indústria própria europeia, que dê mais garantias de fiabilidade, até porque também estamos a ver problemas na questão, por exemplo, do fornecimento de munições aos sistemas norte-americanos, a questão dos famosos Patriot. Aí até eventualmente com mais justificação, no sentido que os norte-americanos dizem que precisam também dessas munições para o conflito com o Irão. Mas isso só também vem relembrar uma outra verdade, que obviamente havendo um conflito armado, o país que controla a produção de um determinado sistema de armamento, obviamente vai dar prioridade sempre às suas próprias necessidades e não à de outros. E portanto, isso é mais uma razão para realmente se acautelar esta questão da crescente autonomia estratégica da Europa em termos de indústria de defesa.
Interrogações e reflexões suscitadas pelas novas relações transatlânticas. Bruno Cardoso Reis, obrigado. Foi o nosso convidado, o historiador Bruno Cardoso Reis, desta segunda edição do dia de Gabinete de Guerra.
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