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Monday, October 19, 2026

Já ninguém sabe esperar - Intermédios

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Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Intermédios", num cenário diferente, provavelmente num som diferente. Eu estou a gravar num quarto de hotel enquanto me preparo para um trabalho. Já sabem, todas as segundas-feiras estes episódios. Quarta-feira temos um novo convidado. Acho que vão gostar muito da convidada desta semana. Está muito relacionado com estas canetas da moda, do Mounjaro, Ozempic, etc. Uma endocrinologista. Acho que é muito gira a conversa, vale a pena escutarem. E partilhem estas conversas, estas pequenas reflexões. O que eu gostava de refletir hoje convosco? Estava a falar no outro dia com a minha mulher e até serviu para texto na rádio, na RFM, em tom de gozo, mas é verdade: os putos hoje em dia, estas novas gerações, não sabem lidar com a expectativa, nem com a espera. Não sabem lidar com a espera, não sabem lidar com a expectativa e consequentemente, isto faz com que não saibam lidar com a frustração, porque tudo é feito hoje em dia para ser dado no momento. É tudo dado no momento. Nós, provavelmente, quando eu digo nós, a geração dos anos 80, 90 também, somos a última geração que teve que lidar e saber lidar com a espera, fazer esta gestão de expectativas. Porque primeiro de tudo, nós tínhamos dois canais, RTP1 e RTP2. Depois lá apareceram os outros dois, SIC e TVI. Mas nós somos do tempo em que quando alguém no dia a seguir chegava à escola e dizia: "Viste o filme?" Ninguém perguntava: "Qual?" Era sim ou não, porque só dava um filme. E se vocês não vissem o filme, só tinham duas hipóteses: ou esperavam que ele repetisse, que às vezes havia aquelas sessões que depois eles repetiam daí a X tempo, ou eventualmente vocês alugavam no videoclube. E alugar um filme no videoclube era outra gestão de expectativa e de espera. Hoje em dia vocês: "Quero ver o filme X", vai, streamings, internet, seja o que for. No nosso tempo: "Eu quero ver este filme". No meu caso, apanhar o autocarro, duas paragens, sair do autocarro, ir ao videoclube, esperar que o videoclube tivesse o filme, que nós até dizíamos: "Já chegou? Já chegou o 'Exterminador Implacável 2'?" Esperar pelo filme, esperar que tivesse o filme, porque depois às vezes eles tinham mais do que uma cópia e um gajo conseguia: "Ok, tenho aqui três cópias". Dava para um gajo alugar, levar o filme para casa, apanhar mais duas paragens de autocarro, ver o filme, voltar a rebobinar e voltar a entregar. Isto tudo para ver um filme. Isto se conseguíssemos ver o filme, se ele não tivesse alugado, se o videoclube tivesse aberto. E quantas vezes aconteceu isto, de eu querer alugar um filme e o gajo antes de mim alugar o filme primeiro? Hoje toda a gente faz as coisas de um momento para o outro. Os telefones a mesma coisa. Nós somos a última geração a ter um telefone em casa, em que o telefone não era uma propriedade individual. O telefone era um elemento família, em que vocês ligavam para a casa de outra pessoa e tanto podia atender a rapariga ou o rapaz de quem vocês gostavam, ou colega, como o pai, a mãe, etc. E quantas vezes eu liguei: "Posso falar com o Francisco?" "Quem fala?" "É o Tozé". Eu sou o Tozé. "Tozé. Ah, então Tozé, como é que tu estás? E a tua mãe? E os teus irmãos, estão bem? O teu pai tem ido à missa?" E o gajo ficava a falar uma data de tempo com a pessoa. "Espera aí, eu já vou chamar o Francisco". Até chegar o Francisco. Isto acontecia muitas vezes. E havia a frustração de quantas vezes nós combinávamos ir ao cinema, por exemplo. Hoje vocês, ir ao cinema, o que é que os putos fazem? Os putos e toda a gente faz. Ir ao cinema: marcar cinema, internet, comprar bilhetes. Pumba, está feito, bora ao cinema. Eu ligava para o cinema: "Tem bilhetes para a sessão das não sei quantas, na sala não sei o quê?" "Tem, sim, senhor." "Quero dois bilhetes mais para trás e centrado". Foda-se. E depois ficar na fila para receber os bilhetes. Isto quando um gajo conseguia ligar, que isto de ligar para um cinema já era muito moderno. Mas lá está, quando vocês combinavam com um amigo ir ao cinema, imagina, combinava com uma amiga ir ao cinema, se por alguma razão me desse uma merda qualquer ou tivesse que fazer qualquer coisa e eu não podia ir ao cinema, eu dizia: "Bom, lá vai a Carla sozinha ao cinema", porque não havia maneira de avisar esta pessoa que eu não podia ir ao cinema, se já fosse em cima da hora. Ou seja, todas estas pequenas coisas que nós tínhamos que lidar, acho que nos ajudou também a aprender a lidar com a frustração, com a espera, com a gestão de expectativa. Com estas pequenas coisas como coisas tão simples como, e já não era comum, mas um gajo fazia ainda isto, que era escrever cartas. Lembro-me de escrever cartas e ficar três, quatro semanas à espera de uma resposta, de uma carta. Quando eram interesses amorosos, que havia de um lado e de outro, um gajo ficava: "Será que ela vai responder?" Nós hoje em dia, se mandamos uma mensagem por WhatsApp e a mensagem dá como vista e ninguém responde nos momentos a seguir, um gajo fica passado da cabeça e começa a criar grandes filmes. "Por que ela não respondeu? Ela viu a mensagem e não respondeu. Por quê?" E entramos nesta cena psicótica que eu não me lembro de ter quando escrevia as cartas. Eu lembro de fantasiar. É engraçado, porque eu acho que nós fantasiávamos. Eu fantasiava com as respostas: "O que será que ela vai responder? Será que vai dizer que sim ou não se encontro no verão, não sei eu onde?" Caraças, era muito engraçado. Isto é a evolução dos tempos, normal. Isto faz parte, é o que é. As coisas evoluem e certamente o que se perde aqui, eu acho que se ganha noutras coisas. No quê? Ainda não sei, mas certeza que se ganha noutras coisas. Mas os putos hoje são contactáveis a toda hora, têm mais autocarros e meios de transporte do que nós tínhamos. Veem os filmes que quiserem. Eu já não me lembro. No outro dia, a frustração de uma delas porque estava a fazer o download. Quando eu digo de uma delas, eu acho que era uma das minhas filhas ou de uma amiga, já não me lembro. Porque estava a fazer o download de um filme e: "Estou a fazer o download e está a demorar dois minutos. Como é que é possível?" Eu demorei, eu não estou a gozar, eu demorei uma tarde inteira para fazer o meu e-mail em 1998 ou 1999 nos computadores da universidade. Eu estive uma tarde inteira para criar a minha conta de e-mail. Uma tarde inteira, porque ligar a internet era quê? Marcar e era aquilo que fazia o sonzinho do telefone como o Spectrum. Às vezes, cinco minutos a ligar. Só ligar à internet demorava mais tempo que o download, que esta se queixava agora. Ok, ligou-se à internet, depois cada página a carregar dava para um gajo ir beber um café e voltar. E agora a queixar-se porque um download de não sei quantos gigas demorou dois minutos. Eu acho que temos é que tentar, se calhar. Não sei. Eu estou aqui a tentar pensar como é que as minhas filhas e estes putos adolescentes, o que eles têm neste momento que os ajuda a lidar com a frustração ou com a gestão de expectativa. A gestão de expectativa hoje não existe. Até agora, vocês lembram-se, malta do meu tempo, nós comprávamos um álbum de uma banda por uma música. Nós ouvíamos um single, uma música, e era graças a essa música que nós íamos à Virgin ou a uma loja qualquer antes de aparecer FNAC, comprar um álbum inteiro. E a nossa expectativa estava: "Esta música é fixe, será que o resto é fixe também?" E às vezes era uma valente bosta. E um gajo: "Olha, aceitei as regras do jogo". Era isto, tu aceitavas as regras do jogo de não saber aquilo que ias encontrar. Aceitavas as regras do jogo de não saberes se ias ver um filme ou não, de mandares uma carta e não saberes quando é que vinha a resposta, de não saber se havia bilhetes do cinema, se havia cassetes do cinema, nem sequer as músicas que tu ouvias, até aqui tu aceitavas o risco de não gostar e de não saber. Eu acho que isso se transmite depois um bocadinho, por aquilo que eu vejo, pelos putos de hoje, para esta capacidade de sofrimento também. Isto também dá para um monte tema. Será que os putos hoje têm a capacidade de sofrimento que nós tínhamos? Têm a capacidade de sofrer e de esperar pelas coisas? Que é tudo para ontem. Tudo para ontem, dois minutos para fazer um download. Acho que esta também é uma boa questão. Será que os putos têm capacidade para sofrer? A ideia que me dá muitas vezes é que os putos não têm muito essa capacidade para sofrer, até por situações de trabalho. Eu não estou a dizer que os putos têm que se sujeitar hoje em dia àquilo que nós nos sujeitávamos. Por exemplo, eu fui estagiar, como toda a gente àquilo que a gente se sujeitava enquanto estagiários, de exploração, fazer tudo e mais alguma coisa, horas mais tarde. Eu acho que reivindicarem direitos e limites faz todo o sentido, mas, ao mesmo tempo, dá-me a ideia que não têm capacidade de sofrimento. Sofrimento, tipo ginástica mental, quando há um problema qualquer. Em vez de ficar: "Oh my God, o que é que se vai passar?" Tentar resolver a cena. Bora lá tentar resolver a cena. Mas atenção, isto pode ser só perspectiva minha, pode ser uma grande asneira que eu estou aqui a dizer, não sei. Mas isto dá um bom tema também para falarmos. Mas isto que eu estou a dizer, na realidade, eu acho que até é certo. Se nós formos comparar, hoje os putos não sabem gerir a expectativa como nós geríamos, e eu acho que isso tem muita influência do período que nós vivemos, em que nós literalmente tínhamos que esperar para as coisas acontecerem. Nós tínhamos que esperar para as coisas se desenvolverem e sem saber o que é que íamos encontrar. Eu acho que muito disso nós devíamos usar ainda nos dias de hoje. Portanto, malta que vai assistir isto ou ouvir no carro, tentem aplicar no dia de hoje esta capacidade de gerir as vossas expectativas e de lidar com a frustração. Se forem malta nova que está a assistir isto, pensem assim: "Há uma janela de oportunidade para eu aprender a lidar com a frustração, com a expectativa". Malta do meu tempo, se tiverem dificuldade de gerir a expectativa e a frustração, lembrem-se: eu já esperei três semanas para conseguir alugar o filme que queria num videoclube. Pior do que isso não fica. Obrigado, malta. Até para a semana. Espero que estejam a gostar destes intermédios. Continuem a acompanhar o "Somos Todos Malucos", partilhem e não se esqueçam. Olha, gestão de expectativa. Dia 7 de novembro é o meu último espetáculo "De Volte Já" em Lisboa. Partilhem esta mensagem e gostava de contar com vocês. Eu quero uma sala cheia, a sala é gigante. Estou com muita dificuldade em gerir a minha expectativa e a frustração de depois chegar lá e não encher. Por isso é que faço muitas vezes este apelo. Gostava de ter uma casa cheia. Nada me daria mais prazer saber que vocês estão do outro lado. Obrigado. E se estão fora de Lisboa, não se preocupem. Fora de Lisboa vai haver mais espetáculos para o ano, já estou a receber as datas todas. Muito obrigado e até para a semana.

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