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Friday, October 9, 2026

Entre o stress e o desprezo: ninguém quer ser professor

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Há anos que escrevo que o problema da escola pública portuguesa não é falta de diagnóstico. O Education at a Glance 2026 chega agora com a chancela da OCDE e diz, em números, o que quem dá aulas repete há muito tempo. Mas um diagnóstico só vale se levar a decisões, e por isso deixo no fim algumas propostas.

Começo pelo respeito. Em junho escrevi que a desvalorização do professor não é apenas salarial, é simbólica e quotidiana, e fez da autoridade pedagógica algo que qualquer um pode contestar (A escola pública não precisa de pena. Precisa de respeito). O relatório mede isso. Só 9% dos professores portugueses concordam que a profissão é valorizada pela sociedade, quando a média da OCDE é 22%. Estamos entre os países com valores mais baixos, ao lado da França (4%) e da Eslovénia (7%). No 3.º ciclo, a satisfação com o salário é de 13% e a satisfação com as condições de emprego é de 39%. A OCDE interpreta estes dois números como sinal de um descontentamento mais amplo com a profissão, e acrescenta que quem se sente valorizado pela sociedade tem bastante menos intenção de abandonar o ensino.

Depois, a indisciplina. Chamei-lhe o elefante na sala de aula. Segundo o relatório, 91% dos professores portugueses dizem que têm de acalmar alunos disruptivos com frequência ou sempre, contra 72% na média. É um dos valores mais altos entre todos os países, e a OCDE regista que, na média, estes episódios aumentaram desde 2018 (eram 64%). Escrevi na CNN Portugal sobre o Estatuto do Aluno e a perda de autoridade pedagógica («A escola como tribunal»). Este número é a medida do problema de que falava, quando nove em cada dez professores têm de gerir comportamento com regularidade, o que se perde é tempo de aprendizagem para todos os alunos, incluindo os que querem aprender.

Depois, a burocracia. Em junho citei os 79% de docentes que apontam o excesso de carga administrativa como obstáculo real. O relatório tem 79,3% para Portugal, medido como fonte de stress «bastante» ou «muito», contra 51,7% na média da OCDE. Só a Comunidade Flamenga da Bélgica (75,5%) fica perto. Há ainda a correção de trabalhos, que mais de 70% dos professores portugueses indicam como fonte de stress, quando a média é 40%. São horas retiradas ao ensino e pagas em desgaste.

A carreira também tem de entrar nesta conversa. Defendi tabelas salariais que reflitam a complexidade da profissão e uma avaliação docente que sirva para melhorar e não para sancionar. O relatório descreve uma carreira desenhada de forma particular. Os salários efetivos dos professores portugueses chegam a superar os dos outros diplomados, mas a média esconde o problema, porque pesam sobretudo os professores mais velhos. O salário estatutário inicial, em termos reais, desceu 10% ou mais entre 2015 e 2025, e o salário relativo dos professores do 3.º ciclo caiu mais de 5 pontos percentuais. O salário máximo é mais de 60% superior ao de quem tem 15 anos de experiência, uma das maiores distâncias da OCDE, e quase ninguém lá chega. A carreira promete muito no fim e dá pouco durante o percurso. É por isso que as quotas de acesso a escalões pesam tanto, e foi por isso que saudei o compromisso de as eliminar.

O resultado está à vista. Em Portugal, só 6% dos professores do básico e secundário têm menos de 35 anos, contra 22% na média da OCDE. Já 37% têm 55 anos ou mais (a média é 23%), e entre os professores do secundário a proporção é 38%, contra 22% entre os trabalhadores com mestrado. Portugal aparece no relatório entre os países onde o envelhecimento avançou mais depressa. Há ainda a precariedade, 67% de emprego permanente no 3.º ciclo, quando a média é 81%, e 21% dos professores com contratos de um ano letivo ou menos. A OCDE avisa que períodos longos nesta condição atrasam a estabilização da carreira e enfraquecem a ligação à escola. Quem prepara uma geração de professores para este caminho não deve surpreender-se com a ausência de jovens na profissão, nem com o vazio que as reformas dos próximos anos vão deixar.

E os professores? No artigo sobre o PISA (O PISA 2025 e vinte anos de política educativa em Portugal) mostrei que, segundo os próprios alunos, os professores continuam a fazer mais do que os colegas da OCDE, e que eles «não são o elo que falhou». O relatório aponta no mesmo sentido, 73% dos professores da OCDE fizeram formação no último ano, e em Portugal a diferença face a outros diplomados é de 20 pontos percentuais, uma das maiores. Fazem tudo isto a trabalhar sob stress, com pouco reconhecimento e pouca margem para decidir.

Sobre essa margem. Em abril defendi que a autonomia real devia passar do Ministério para quem está nas escolas, com contratos claros e escrutínio público (Da escola do Estado à escola dos Professores). O relatório não mede a autonomia escolar portuguesa, mas inclui a autonomia profissional, a liderança de apoio e o reconhecimento público entre os fatores que tornam a profissão atrativa, para além do salário e do horário. Os 9% e os 13% mostram o que acontece quando faltam.

O que fazer com isto? Os números portugueses apontam, quase todos, para o mesmo lado, autoridade, respeito, carga administrativa, estabilidade e carreira. Dizem-me que isto custa dinheiro. Custa, mas pode ser feito por fases e dirigido a quem mais falta faz. Proponho cinco medidas, com o salário em primeiro lugar:

  • Subir o salário de entrada por fases. Recuperar, ao longo de três a quatro anos, a perda real registada desde 2015, começando pelos primeiros escalões. É aí que está o problema e onde o custo é menor, porque são poucos os professores abrangidos.
  • Encurtar o caminho até ao topo. Fim das quotas e escalões intermédios com progressão regular, para que o salário cresça de forma visível na primeira metade da carreira e não apenas no fim. Se o topo está 60% acima de quem tem 15 anos de experiência, é essa distância que tem de ser reduzida.
  • Pagar mais onde falta mais. Suplementos de fixação em disciplinas carenciadas e em zonas onde a habitação torna inviável aceitar uma colocação, em vez de aumentos iguais para todos, o que dá mais resultado por cada euro gasto.
  • Estabilidade e menos papel. Limite à sucessão de contratos anuais, com vinculação ao fim de um período claro, e fim dos pedidos duplicados de dados às escolas, com um técnico administrativo nos agrupamentos onde a carga burocrática é maior.
  • Mentoria entre gerações. Professores perto da reforma reduzem parte da componente letiva para acompanhar colegas em início de carreira, que por sua vez têm um primeiro ano com menos horas letivas.

Junto duas medidas que quase nada custam. A primeira é um relatório anual público sobre a profissão docente, com idade média, contratos precários e valorização percebida, para que o país acompanhe o problema em vez de o redescobrir de cada vez que sai um relatório internacional. A segunda é um mecanismo permanente de auscultação de quem está no terreno. Um painel de professores, rotativo e escolhido por sorteio entre as escolas, que seja obrigatoriamente ouvido, com parecer público, antes de qualquer alteração a estatutos, currículos, regras de avaliação ou cargas administrativas. Quando o Ministério decide contra esse parecer, tem de explicar por escrito porquê. Hoje, demasiadas decisões que mudam a vida das escolas são tomadas por quem nunca teve de as aplicar numa turma de trinta alunos, nunca pagou o preço de um erro e, quando a medida falha, passa à seguinte sem prestar contas. Quem decide sem a pele no jogo raramente aprende com as consequências, porque as consequências ficam sempre do outro lado da porta da sala de aula.

A OCDE diz que os sistemas educativos valem o que valem os seus professores. Vale a pena que quem decide leia o relatório até ao fim e ouça quem está na sala de aula.

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