Por que o brasileiro quer empreender
Entendo perfeitamente por que o brasileiro sonha em empreender, mesmo num país que parece empenhado em fazê-lo desistir. Juros altos, burocracia, corrupção e um emaranhado de regras tributárias desanimam até o mais otimista.
Ainda assim, na pesquisa GEM 2025, do Sebrae e da Anegepe, ter o próprio negócio aparece como o segundo maior sonho dos brasileiros, citado por 40% dos adultos. Parece uma contradição, mas tem uma lógica.
A carteira assinada protege, mas o dinheiro que sobra nem sempre acompanha o esforço de quem trabalha. Entre o custo da contratação e o valor disponível ao trabalhador há encargos, impostos e descontos. Até quem ganha bem e sobe na carreira, assumindo mais responsabilidades, pode continuar longe da liberdade que imaginava.
Na contratação, a empresa põe na conta salário, encargos, FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e 13º. Parte desse pacote de remuneração só chega ao trabalhador em datas determinadas ou fica sujeita a regras de saque. São direitos, mas não viram dinheiro disponível a cada mês.
Acho legítimo discutir esse modelo sem tratar o trabalhador como incapaz de administrar os próprios recursos.
A aposentadoria impõe outro limite: o teto do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), em 2026, é de R$ 8.475,55. Quem ganha mais precisa poupar por fora para preservar seu padrão de vida. Essa poupança também reduz o poder de compra de hoje.
O que sobra ainda enfrentará os impostos embutidos no consumo. Segundo a Receita Federal, bens e serviços responderam por 43,49% da arrecadação tributária de 2024. E quando o serviço público falha, e não é pouco comum, parte da classe média paga escola, saúde e segurança privadas.
O Estado recebe, mas o indivíduo precisa contratar de novo com outro fornecedor. O salário vai embora antes que os planos da família saiam do lugar, e o plano B possível passa a ser sobreviver a cada mês.
C-Level
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É nessa conta que vejo parte da explicação para o desejo de empreender. Quem trabalha sem perspectiva de melhorar de vida procura uma saída, ainda que arriscada. Conheço essa frustração.
Comecei do zero, na periferia do Rio de Janeiro, e passava mais de 5 horas e 30 minutos por dia em ônibus lotados. O empreendedorismo me libertou daquela rotina. Minha história não promete resultados a ninguém, mas me faz compreender a angústia de quem não enxerga perspectiva, aliado ao desejo legítimo de dar uma vida melhor à família.
Criar um negócio oferece autonomia e a possibilidade de participar do valor que se constrói. Mas o risco é real: segundo o IBGE, seis em cada dez empresas abertas em 2012 encerraram as atividades nos cinco anos seguintes. Na outra ponta, seis dos dez maiores bilionários brasileiros de 2026 construíram suas fortunas, segundo a Forbes. Isso não mede a chance de enriquecer, mas explica a atração por ir além do salário.
Isso exige se desprender da linha de montagem da sociedade e suportar críticas, às vezes de familiares e amigos. Mas sair da fila não basta. Aprendi que empreender exige visão para identificar uma necessidade pela qual alguém pagará, coragem para decidir sem garantias e competência para vender, controlar o caixa e entregar valor ao cliente. Sem coragem, a visão não sai do papel. Sem competência, a coragem sozinha enche o cemitério empresarial.
Vejo um certo grau de heroísmo em quem assume esses riscos e cria oportunidades para outros brasileiros. Esse empresário merece espaço para prosperar. Quando seu negócio cresce, ele gera mais empregos, paga impostos e abre perspectivas para muitas famílias. É uma forma de melhorar o Brasil que dispensa palanque e se mede na riqueza criada e nos empregos que sustenta.
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