Operação contra Milton Leite tem 6 suspeitos de integrar o PCC entre 16 alvos de prisão
A Operação Vectura Corrupta, que foi deflagrada nesta quinta-feira (17) e mira a suspeita de infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) em empresas do transporte público na cidade de São Paulo e em campanhas políticas, tem ao menos seis pessoas suspeitas de integrar os quadros da facção entre seus 16 alvos de prisão.
Eles são citados como membros e integrantes da organização em informações repassadas por promotores Ministério Público de São Paulo à Justiça e na decisão da 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, que autorizou a operação.
Outros suspeitos têm conexões com a facção apontadas por promotores do Ministério Público, mas não são citados como integrantes dos quadros internos do PCC.
O ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que teve sete mandatos na Câmara Municipal de São Paulo e foi o mais longevo presidente da Casa, é um dos alvos de mandado de prisão.
O ex-vereador não foi encontrado em casa e, por telefone, afirmou na manhã desta quinta que estava fora de São Paulo e que iria se entregar. Ele negou veementemente qualquer tipo de vínculo com o PCC.
Decisão judicial de primeira instância havia negado o pedido de prisão contra 13 dos 16 alvos da operação. Essas prisões, inclusive a de Milton, só foram decretadas após promotores do Ministério Público de São Paulo recorrerem à 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo.
Fundado há mais de 30 anos dentro do sistema penitenciário paulista, o PCC mantém cadastros de seus integrantes "batizados" (aqueles que juram obediência às regras disciplinares internas da facção).
Nos últimos anos, no entanto, investigações têm apontado que criminosos de fora dos quadros têm assumido papel cada vez mais importante nos negócios da facção, na condição de associados ou colaboradores —levando o PCC a integrar uma rede de organizações criminosas, segundo promotores de Justiça.
Três advogados, dois sócios de uma empresa de ônibus e um homem suspeito de servir como operador financeiro do PCC são considerados membros da facção pelos promotores. Há menção a outros faccionados, por terem mantido algum tipo de relação com os investigados, mas que não foram alvos de mandado de prisão.
A reportagem tentou contato com as defesas dos suspeitos por email e aplicativos de mensagem ao longo da tarde desta quinta-feira (18), mas não obteve resposta até a publicação deste texto de nenhum advogado que se apresentasse como representante deles.
Abaixo, o que se sabe sobre os alvos de mandado de prisão apontados como integrantes do PCC.
André Cassali, 46
É apontado pela Polícia Civil como operador financeiro da facção criminosa. Documentos da investigação apontam que ele atua no controle da logística da droga traficada pelo PCC na fronteira com a Bolívia e que tem como destino a Baixada Santista.
A investigação aponta que ele também coordenou uma receptação de valores por meio de supostas empresas de fachada.
Foram encontradas conversas em aplicativos de mensagem em que ele cobra de um advogado e de um sócio de empresa de ônibus a devolução de dinheiro. Essa devolução "seria através de contas de doleiros, restando evidente que André Cassali, vulgo Tiago, faz parte da OrCrim [organização criminosa], atuando como 'tesoureiro'", diz documento da investigação.
Ele teve contato direto com José Daniel Satilite, principal alvo da operação, que é sócio de uma empresa de ônibus de Cubatão que tentava obter um contrato na cidade de São Paulo.
Cassali também tem dois registros policiais por suspeita de homicídio. Ele está entre aqueles que já tinham tido a prisão autorizada em primeira instância.
Cícero José dos Santos Filho, 51
Advogado, é suspeito de se envolver em negócios do PCC. Segundo a decisão judicial que autorizou a operação ele teria "ultrapassado os limites da atuação profissional" e oferecido seu escritório como sede de reunião com integrantes da facção.
A conta bancária de seu escritório também teria sido usada para recebimento de valores das empresas investigadas, segundo a polícia.
Além disso, Cícero teria intermediado a aquisição de uma distribuidora de derivados de petróleo pelo valor de R$ 40 milhões por um grupo de suspeitos de integrar o PCC. Nesse contexto, teria sugerido que a facção ameaçasse o filho do antigo proprietário da refinaria para obter sucesso no negócio.
Há suspeitas de que ele também teria participado de tratativas para substituir a UPBus, empresa de ônibus alvo da Operação Fim da Linha que foi retirada da operação de linhas municipais pela Prefeitura de São Paulo.
Claudionor Aparecido Sabino Toma, 56
Conhecido como Cláudio Negão, é sócio da empresa Translider Transportes e suspeito de tráfico de armas. A investigação encontrou fotos de um revólver e de fuzis em conversas de WhatsApp das quais ele participava, inclusive informando os valores dos armamentos.
A polícia suspeita que ele seja um "laranja" na empresa de ônibus, ou seja, que tenha emprestado seu nome para ocultar a participação dos verdadeiros sócios. O inquérito também aponta que ele teria se envolvido numa venda clandestina da frota de ônibus de Cubatão.
Eduardo Medeiros, 61
Conhecido como Galo, é advogado e identificado como proprietário de empresas de transporte. Foi advogado pessoal de José Daniel Satilite, cujo celular apreendido foi a origem das principais descobertas da investigação.
Há a suspeita de que ele tenha ações da Otrantur Transporte e Turismo, que a investigação aponta como uma empresa controlada pelo PCC. O ex-diretor administrativo da companhia foi preso na Operação Sharks do Ministério Público de São Paulo, em 2020.
Promotores afirmam que Galo teve participação numa tentativa de influenciar uma licitação em Itanhaém em benefício do grupo ligado a Satilite.
José Daniel Satilite, 50
Principal investigado da operação, José Daniel Satilite é sócio da empresa de ônibus Translider, de Cubatão (SP). Documento da Polícia Civil afirma que ele exerceria a função de "disciplina" no PCC, ou seja, seria responsável por garantir o cumprimento das regras da facção em determinado território.
A investigação aponta que ele atuou como uma espécie de interlocutor entre integrantes da cúpula da facção, empresários, advogados, doleiros e agentes políticos. Em seu telefone celular, a polícia encontrou desde discussões sobre a compra de uma refinaria por supostos integrantes do PCC até indícios de tráfico de armas.
Há suspeita de que ele também teve papel na circulação de dinheiro do crime por meio de contas de empresas de fachada.
Milton Mello Milreu, 83
Advogado, é apontado como autor de pagamentos periódicos a Satilite. "Atuaria na captação de empresas para que a organização criminosa assuma o controle", diz documento do Ministério Público de São Paulo, citando como exemplo a compra de refinarias por supostos integrantes do PCC.
Informações encontradas nas conversas por aplicativo dos investigados sugerem que ele teria guardado cerca de R$ 500 mil do PCC, o que gerou cobranças para que o valor fosse distribuído a integrantes da facção. Isso teria sido feito via contas bancárias de doleiros, segundo a investigação.
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