Análise: pior que cair (de novo) é ver que o futuro da Ponte Preta assusta mais que o presente

Você sabe o que significa estandarte desfraldado? É o ato de abrir uma bandeira, soltá-la e fazê-la balançar ao vento. Esse foi o termo escolhido brilhantemente por Renato Silva para abrir o hino da Ponte Preta.

Ponte Preta é rebaixada para a Série C do Brasileiro
A bandeira da Ponte hoje está em meio-mastro.
Bandeira da Ponte no Majestoso — Foto: Marcos Ribolli
Aquela Ponte inflamante, que proporciona emoção e mostra raça, foi ferida por quem deveria protegê-la.
E o torcedor? Esse permanece com o mesmo amor.
Afinal, seja na Série A, na Série B, na Série C ou em qualquer que seja a circunstância, o amor verdadeiro escolhe ficar. Sempre, sempre, sempre. Na derrota ou na vitória.
Mas a dor inegavelmente se intensifica a cada instante. A Ponte segue amada, continua sendo o orgulho dos seus e de quem sempre decidiu acreditar.
Mas hoje o clube paga uma consequência de quem decidiu fazê-la muito mais Ponte de guerra do que de paz.
E a pergunta mais comum é: como o clube chegou a este ponto?
Marco Antônio Eberlin comemora vitória em eleição de 2021 — Foto: Diego Almeida/ PontePress
Para responder, é preciso voltar ao dia 20 de novembro de 2021.
O mais claro deles partiu do então goleiro Ivan Quaresma, depois da partida:
- Estou de passagem, não sei se vou ficar o resto da minha carreira aqui. Mas a torcida fica, o clube fica. Então fica o recado também. Foi um ano muito difícil para a gente, de muita guerra, principalmente fora. Só tenho a dar os parabéns aos jogadores, que nunca deixaram de se esforçar. Que sirva de lição, de reflexão. A gente fez nossa parte, se entregou. Agora o pessoal de fora precisa se unir para fazer uma Ponte mais forte.

Ivan faz desabafo sobre problemas internos da Ponte Preta: "Foi um ano muito difícil"
Ivan não falou aos ventos. Ele tinha motivos. Mas parece que ninguém o ouviu.
A Ponte já dava indícios de que a vaidade e o orgulho da política eram males que continuavam rondando o Moisés Lucarelli. E eles ficaram cada vez mais intensos.
A partir daquele momento, começava a Era Eberlin. E já de forma tumultuada.

Novo presidente Marco Antônio Eberlin comanda a Ponte Preta pelos próximos quatro anos
Ex-diretor e braço direito do próprio Sérgio Carnielli, Eberlin chegava à presidência da diretoria executiva sob a premissa de que outros candidatos, como Gustavo Valio e Luiz Torrano, não poderiam assumir aquela responsabilidade naquele momento.
Desde aquele 20 de novembro, a Ponte desandou completamente.
Dores das quedas prevalecem sobre as alegrias dos títulos
Mesmo que tenha comemorado os títulos da Série A2 de 2023 e da Série C de 2025, esses momentos só foram possíveis por causa de outros capítulos de dor.
Torcedor da Ponte chora durante derrota — Foto: Reprodução Premiere
Foram quatro rebaixamentos em quatro anos: Paulistão de 2022, Série B de 2024, Paulistão de 2026 e Série B de 2026.
No ano em que se optou por renovar o ciclo da atual diretoria, agora presidida por Luiz Torrano, mas ainda com Eberlin no comando do futebol, a Macaca mergulhou no pior ano de seus 126 anos.
Os números são vergonhosos.

Ponte Preta completa 126 anos em meio à maior crise de sua história
Rebaixada no Campeonato Paulista na última colocação, com apenas um ponto conquistado, a Ponte agora cai para a Série C com sete rodadas de antecedência. A queda iguala o recorde de antecipação da competição na era dos pontos corridos, estabelecido pelo Duque de Caxias em 2011.
No meio de tudo isso, foram 22 jogos sem vencer na Série B - outro recorde negativo na história - e duas goleadas por 6 a 0.
A Macaca colecionou marcas negativas ao longo de uma campanha que só tinha um desfecho possível: o rebaixamento, sacramentado no último sábado, com a derrota por 2 a 0 para o Cuiabá.
Cuiabá x Ponte Preta; Série B — Foto: AssCom Dourado
O futuro assusta tanto o presente
A Ponte cai com justiça, embora ser levado a essa situação seja uma injustiça com o torcedor. Mas não existiria outra consequência diante do que foi construído, principalmente fora de campo, com atrasos salariais recorrentes desde 2025, fazendo com que funcionários passem por dificuldades no dia a dia.
Desde novembro de 2021, dirigentes da Ponte culpam o passado pela própria falta de competência, enquanto o passado faz questão de continuar presente e também atrapalhar.
Luiz Torrano, presidente da Ponte, ao lado do vice Eberlin — Foto: Marcos Ribolli
Afinal, o que vale mais: a vaidade ou o amor ao clube?
Onde está a Ponte de paz? Até aqui, só se viu Ponte de guerra.
Uma guerra intensificada a cada reunião do Conselho Deliberativo, quando se grita muito e se dialoga pouco. Ou, então, diante do panorama, pelo silêncio de quem poderia defender o clube e não o faz.

Reunião na Ponte sobre SAF tem clima tenso e confusões
O torcedor tenta desfraldar o escudo de uma das paixões mais antiga do Brasil. Mas é impedido pela sequência de decepções.
O torcedor mal conseguiu chorar a queda no sábado. Afinal, as lágrimas foram secando ao longo de toda a competição, a cada derrota em campo e também fora, com os desmandos de uma diretoria marcada por promessas vazias. Era só uma questão de tempo para a matemática atestar o inevitável.
Só que existe algo ainda mais desesperador: o torcedor olha para 2027 e não vê perspectiva alguma. Pelo contrário: a impressão é que a situação pode piorar ainda mais.
Pode ser justamente o contrário.
Porque, se continuar sendo uma Ponte de guerra, 2027 pode ser pior do que o mais trágico dos anos da história do clube até aqui.
E talvez seja essa a maior dor de todas: não saber quando a bandeira voltará a ser desfraldada com orgulho.
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