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Wednesday, October 14, 2026

Em defesa do bom debate

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O debate público de ideias anda pelas ruas da amargura, não pela falta de debatentes ou de temas interessantes, mas sobretudo pela falta de disposição para aceitar que o outro pode estar certo e que nós podemos estar errados.

Esta disposição implica, naturalmente, um espírito de leveza que os tempos pesados e os modos bruscos da discussão pública contemporânea não favorecem. Também não ajuda que nos levemos – e à santidade das nossas ideias – tão a sério.

Vem este tema a propósito do artigo publicado anteontem por João Pedro Marques (JPM) no Observador, onde este se afirma disposto a debater – uma muito recomendável disposição -, mas rejeita formatos competitivos, em que seja o público a determinar o vencedor, por considerar que privilegiam a capacidade de persuasão dos participantes em detrimento da qualidade dos argumentos e do conhecimento sobre os temas em discussão.

Ora, vindo esta justificação a propósito da sua recusa em participar num evento do Debatível, projeto que criei juntamente com os meus companheiros Leonor Caldeira e José Maria Pimentel, sinto que é bom o ensejo de acrescentar debate ao debate sobre o debate.

Em abril de 2026, organizámos em Lisboa o primeiro Debatível, um evento onde duas equipas, uma a favor e outra contra, discutem uma moção concreta em frente a uma audiência ao vivo que vota, antes e depois, no lado com o qual concorda mais. O objetivo do debate é simples: convencer a audiência de que o seu lado, e não o outro, tem razão.

Cada membro de cada equipa apresenta, à vez, e durante um tempo curto e igual para todos (no nosso caso, 7 minutos), a sua versão do melhor argumento a favor ou contra a moção. Depois, os participantes discutem entre si, com perguntas e respostas, e terminam com um curto apelo final à audiência, reforçando os pontos mais importantes.

Este formato centenário, popularizado pela sociedade de debates da Universidade de Oxford, tem, como outros formatos, virtudes e defeitos. Nos tempos que correm, contudo, é um formato particularmente adequado a cortar a direito por entre a espuma dos dias, a gritaria, o whataboutism e outros rodeios.

Nos três primeiros eventos do Debatível discutimos se a Inteligência Artificial nos vai tirar o trabalho; se devemos acabar com o sistema prisional; e se o Estado deve financiar o jornalismo. Em todos eles a distribuição de opinião da audiência alterou-se, nalguns casos significativamente, entre a primeira votação, antes do debate, e a segunda votação, depois do debate. Independentemente da opinião de cada um sobre cada tema, lemos essas flutuações como uma vitória deste modelo: na nossa opinião, a ambição última de um debate é persuadir o outro de que temos razão.

Daí que os tempos, como dizia no princípio, não estejam para bons debates, porque estes são os tempos do “eu”, não são os tempos do “outro”.

JPM foi convidado pelo Debatível para discutir se deve o Estado Português proceder a reparações às ex-colónias, convite que também endereçámos a João Moreira da Silva. Neste tema, os pergaminhos académicos e as posições públicas e opostas destes dois historiadores adequam-se perfeitamente ao formato, que foi criado precisamente para confrontar ideias contrárias em vez de as rodear frouxamente. Ficámos naturalmente desapontados com a recusa de JPM, mas respeitamos e compreendemos inteiramente a sua oposição ao formato, que é mais do que legítima e foi por ele fundamentada em privado.

Contudo, tendo sido esses fundamentos tornados públicos, e estando eles no coração deste nosso projeto, aproveito a oportunidade para discordar deles também publicamente.

Diz JPM que o modelo deste debate não avalia “mérito ou demérito das ideias, das teorias e interpretações de cada um, mas sim a capacidade de as publicitar e de persuadir uma audiência”. Julgo que JPM não poderia estar mais enganado. O mérito de uma ideia não é uma propriedade intrínseca dessa ideia, como é o peso ou a densidade de um objeto físico. O mérito de uma ideia é aquilo que ela vale quando posta à prova, contestada e avaliada por quem a ouve. É por isso que se publica ciência depois de uma revisão por pares e de aceitação por um painel de editores; e que se defendem doutoramentos com arguentes e júris: porque é nessa dinâmica, do contraditório do oponente e da persuasão da audiência, que se testa o valor – não a verdade – de uma ideia.

Como Sócrates a Górgias, também JPM nos sugere que a retórica e as técnicas da persuasão são elementos alheios ao conhecimento, artifícios que distraem do substrato ou falta dele; que distorcem, quiçá poluem, o debate das ideias. É um argumento com bagagem clássica, mas que considero fundamentalmente equivocado, porque as ideias só existem quando materializadas em linguagem. E se é certo que não nos faltam casos de aldrabões com boa lábia, eu ainda assim questiono: qual é a melhor defesa quando a boa linguagem é utilizada para mascarar ideias mal sustentadas? Não vejo muitas melhores do que um contraditório direto, e poucos formatos mais empenhados em promovê-lo do que aquele que usamos no Debatível.

JPM queixa-se que o formato “não avalia o nível dos conhecimentos dos debatentes, mas o seu merecimento como propagandistas.”

Mas o principal objetivo de um debate nunca é, nem neste nem noutros formatos, avaliar o nível de conhecimento de um debatente, mas sim o valor das suas ideias quando confrontadas com outras de sinal contrário. No fundo, JPM não aprova o formato do Debatível porque sente que este premeia quem melhor defende as suas ideias, e não quem defende as melhores ideias. Mas como é que se sabe quais são as melhores ideias? Faz-se um exame ao sangue? Resolve-se uma equação matemática? Como se apura essa superioridade se não pela simples troca pública de argumentos?

A crítica de JPM fica, assim, presa num terrível paradoxo: a única forma de premiar a melhor ideia sem a ouvir debatida contra a sua melhor oposição é a audiência já saber, a priori, qual é a melhor ideia. Ou seja: para o debate ser justo, ele tem também de ser inútil.

Quando JPM fala em “merecimento como propagandistas”, confunde propaganda e retórica. O formato do Debatível pode até valorizar quem melhor expõe os seus argumentos; mas não permite, pela sua própria estrutura – e ao contrário do que assistimos frequentemente em televisão – que os participantes enveredem pelo verdadeiro discurso propagandista que é, por definição, unilateral e sem direito de resposta.

A retórica e a capacidade de persuasão são os instrumentos civilizados do confronto de ideias – não consigo aceitar que sejam usados para desmerecer um debate. Como escreveu Isócrates em Antidosis: “[Porque] nos foi implantado o poder de nos persuadirmos mutuamente e de esclarecermos aos outros os nossos desejos, escapámos não só à vida de animais selvagens, mas juntámo-nos e fundámos cidades e fizemos leis e inventámos artes; de forma geral, não há instituição humana que não tenha sido estabelecida com a ajuda do poder da palavra”.

JPM acrescenta aos ingredientes do seu debate ideal este decorrer “num estúdio de um dos principais canais televisivos” ou “face a uma audiência equilibrada, isto é, bem dividida entre as duas posições em confronto”. “Se tudo isso puder ser previamente assegurado”, contem com JPM. Portanto: o debate ideal é um debate ou sem audiência física – na televisão – ou numa sala onde se garanta, à partida, que metade da audiência concorda consigo. Não parece afinal desagradar a JPM tanto o formato do Debatível, mas mais a possibilidade de, no final do debate, poder vir a descobrir que a audiência não gostou dos seus argumentos. O desejo de debater para uma plateia cuidadosamente selecionada pelas suas opiniões parece-nos particularmente artificial. A sociedade está viva, confusa, contraditória e polarizada. É preciso debater com a audiência que existe, e não com a audiência que gostávamos que existisse.

Finalmente, JPM recusa participar de um debate “que se estruture como espectáculo”, e “do qual se apura um vencedor”. É uma recusa inteiramente legítima: o formato do Debatível não é, nem tem de ser, do agrado de toda a gente. Mas um debate público, se for bom, é já necessariamente um espectáculo: porque, como numa peça de teatro, ou num bailado, ou num concerto, é preciso talento e estudo e trabalho e coragem para subir ao palco e, com vulnerabilidade, expormos a uma audiência o produto final dessa mistura – as nossas ideias, os nossos argumentos, as nossas conclusões – sabendo que do outro lado estão pessoas que podem não concordar connosco, podem não gostar de nós, e que no final nos vão julgar.

É muito compreensível não estar disponível para isto; é menos compreensível a falta de interesse em medir o impacto do debate. Diz JPM que “a História não equivale a uma campanha eleitoral.” JPM talvez não saiba, porque nunca viu um Debatível, mas não vence um Debatível quem tem a opinião mais popular; vence quem muda a opinião de mais gente. Uma sala cheia de pessoas que discordam de nós é o terreno mais fértil para as nossas ideias. Se JPM entrasse numa sala para debater João Moreira da Silva e 100% dos presentes começasse o debate a discordar dele, uma coisa era certa: a vitória do seu oponente seria impossível.

Felizmente, até à data, as salas do Debatível têm-se revelado bastante equilibradas à partida, e extraordinariamente abertas à mudança de opinião à chegada. Esperemos que continue a ser assim nos próximos debates, dois deles em Lisboa, já esgotados (“Todo o discurso de ódio deve ser crime?”, a 24 de outubro, e “O trabalho sexual deve ser legalizado?”, a 21 de novembro), e outros dois cuja bilheteira ainda está aberta (“A inteligência artificial vai tirar-nos o trabalho?”, no Auditório Francisco de Assis, a 14 de novembro, no Porto, e “Portugal deve ter centrais nucleares?”, a 5 de dezembro, no Teatro Maria Matos em Lisboa).

Desafio os leitores, onde incluo JPM, a vir testar o modelo ao vivo. Na pior das hipóteses, descobrem que tenho razão; na melhor das hipóteses, explicam-me porque é que estou errado. Vamos a isso?

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