Lisboa, a melhor Disneyland possível

Há uma obsessão particularmente romântica com a autenticidade das cidades históricas e Lisboa tem de continuar a ser Lisboa. Os bairros têm de preservar a sua identidade, as ruas têm de manter a sua alma, o comércio tradicional tem de sobreviver e os habitantes têm de permanecer nos lugares onde sempre viveram. Tudo isto parece razoável até colocarmos uma pergunta incómoda. A que preço?
A ideia de que uma cidade pode preservar indefinidamente a sua autenticidade, mantendo intactas as condições sociais, económicas e urbanísticas que a produziram, é uma fantasia. Uma cidade não é um museu, mas um organismo vivo, económico, social e cultural, sujeito à transformação permanente. Aquilo a que chamamos hoje autenticidade é, em grande medida, o resultado de circunstâncias históricas que não foram necessariamente desejáveis para quem as viveu.
Uma parte que escapa ao debate sobre Lisboa é que para manter um centro histórico absolutamente autêntico, existem, na prática, apenas duas soluções, a pobreza ou a Disneyland.
A primeira consiste em preservar as condições materiais que produziram a cidade antiga. Manter edifícios envelhecidos, habitação degradada e sem salubridade (só quem nunca entrou num edifício de Alfama em 2015 pode achar que era um bom sitio para viver), comércio de baixa rentabilidade, rendimentos modestos e uma população sem capacidade económica para transformar o lugar onde vive.
A segunda consiste em preservar a aparência da cidade, convertendo-a num cenário cuidadosamente encenado para consumo turístico. Uma conserva a pobreza, a outra comercializa a memória da pobreza.
Feliz ou infelizmente não existe uma fórmula mágica que permita congelar uma cidade no tempo, conservar intactas todas as suas características e, simultaneamente, garantir habitação digna, rendimentos elevados, edifícios reabilitados, serviços modernos e uma economia dinâmica.
A experiência em Salvador da Bahia é particularmente elucidativa. No seu centro histórico, encontrei aquilo que tantos parecem desejar para Lisboa. Uma cidade antiga, com uma presença humana real, onde as pessoas vivem efetivamente nos edifícios históricos e a vida quotidiana não foi inteiramente substituída pelo turismo. É autêntico. É também terrivelmente pobre e insalubre de uma forma difícil de ignorar e bastante perigoso. A autenticidade não é um conceito estético, mas uma condição material.
É evidente que a pobreza não é uma condição necessária da autenticidade, nem a degradação uma consequência inevitável da preservação. Convém, no entanto, reconhecer que, em muitos centros históricos, aquilo que hoje se celebra como património, foi conservado, em parte, porque os seus habitantes não tiveram os recursos para o transformar. O que para o visitante é uma janela pitoresca, para quem lá vive pode ser uma casa sem conforto, sem isolamento, sem condições sanitárias ou sem qualquer perspetiva de valorização.
É extraordinário que, em nome da autenticidade, se possa chegar ao ponto de romantizar estas condições, como se a permanência de uma população com poucos recursos fosse uma espécie de serviço cultural prestado à humanidade. Como se os habitantes dos bairros históricos tivessem a obrigação moral de continuar pobres para que os visitantes possam experimentar uma cidade genuína.
A alternativa não pode ser, evidentemente, a transformação dos centros históricos em parques temáticos. A Disneyland é uma caricatura, mas uma caricatura que nos diz que quando uma cidade decide preservar a sua aparência acima de tudo, corre o risco de transformar a vida urbana numa representação daquilo que já foi.
O problema não está em receber turistas, reabilitar edifícios ou criar uma economia de serviços orientada para visitantes. Está em fazê-lo sem uma estratégia que proteja a qualidade de vida dos residentes, diversifique a atividade económica e mantenha a cidade funcional. Lisboa é hoje, uma cidade sem estratégia.
Um centro histórico que vive exclusivamente do turismo pode conservar fachadas, mas perde a complexidade que lhe dava vida. O bairro transforma-se num produto, os habitantes tornam-se figurantes e o quotidiano passa a ser encenado para quem chega.
Se queremos centros históricos vivos, temos de aceitar que a sua preservação implica investimento, reabilitação e transformação. Temos de aceitar que os edifícios precisam de ser adaptados às exigências contemporâneas, que o comércio tem de responder à procura e que a cidade não pode ficar refém de uma imagem idealizada de si própria. Temos, sobretudo, de reconhecer que a qualidade de vida dos habitantes deve estar no centro de qualquer política urbana.
Isto significa permitir a reabilitação profunda do edificado actualizando as regras kafkianas da CM de Lisboa, melhorar as infraestruturas, investir fortemente em transportes públicos de qualidade, modernizar os espaços públicos, melhorar a limpeza e criar condições para que os centros históricos sejam lugares desejáveis para viver, trabalhar e investir. Significa também reconhecer que nem todos os edifícios podem permanecer intocados e que a preservação patrimonial tem de conviver com a necessidade de construir uma cidade funcional.
Significa igualmente abandonar a ideia de que qualquer transformação económica constitui uma ameaça à identidade local. A identidade não é um conjunto de fachadas, nem um inventário de lojas antigas, mas uma construção viva, feita de pessoas, atividades, hábitos e relações em constante mudança. Uma cidade que não se transforma não preserva a sua identidade e limita-se a reproduzir a sua imagem.
A melhor Disneyland possível não é uma cidade de fachadas falsas e habitantes contratados para representar uma tradição. É uma cidade que compreende o valor económico e cultural do seu património, investe na sua conservação e o integra numa realidade contemporânea. Uma cidade onde o visitante encontra beleza, história e identidade, mas onde o residente encontra também conforto, oportunidades e qualidade de vida.
Não precisamos de fingir que a pobreza é autêntica, nem de transformar a cidade num cenário para consumo turístico. Precisamos de aceitar que a autenticidade não é um estado imóvel, mas uma consequência da vida. Aceitar que uma cidade só permanece verdadeiramente viva quando os seus habitantes podem escolher nela o seu futuro, em vez de serem obrigados a representar o seu passado.
Lisboa não tem de escolher entre ser pobre e ser Disneyland. Para encontrar uma alternativa, tem primeiro de deixar de confundir a preservação da cidade com a preservação da pobreza.
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