Em Serralves: das pedras até ao céu, com Lee Ufan

A experiência do visitante assume ainda outros contornos diante de obras que combinam pedra, luz e sombra, ou mesmo o som dos nossos passos sobre placas de xisto entre paredes, numa tentativa de dotar o espaço de algo primitivo, como acontece com a obra “Relatum — Dwelling” (2026). Entretanto, lá fora, joga-se com elementos visuais do edifício, mas também com a natureza, do chão relvado às árvores tendentes para o céu, esse que surge refletido numa das obras e se torna parte dela. Chama-se “Relatum — The Sky Road” e é uma espécie de passadeira espelhada que se estende pela relva, em diálogo com duas pedras, cada uma pesando mais de uma tonelada. Os visitantes são convidados a percorrer esse trajeto, como se caminhassem no céu, por isso, já se adivinha o seu potencial enquanto “íman do Instagram”, comenta Philippe Vergne. Mas é, sobretudo, um exemplo de como a obra de Lee Ufan conjuga elementos naturais e industriais, ou seja, o que já existe e o que a humanidade se encarrega de transformar. A propósito, o que parece um espelho é, na verdade, aço inoxidável, material bem presente nas obras deste que é “um dos mais celebrados nomes da arte contemporânea das últimas seis décadas” (só neste ano, tem obras patentes em Nova Iorque e Veneza, além do Porto).
“Somos um pequeno fragmento do infinito”
Philippe Vergne, citado em comunicado, considera que “trabalhar com Lee Ufan é um privilégio e uma aprendizagem. Uma aprendizagem de rigor filosófico e estético intransigente. A sua utilização dos materiais, a sua linguagem, a sua sintaxe, tornaram-se cada vez mais profundas, precisas e exigentes ao longo dos anos”. Não duvida: “As suas pinturas e esculturas fazem-nos ver aquilo que é impercetível: a natureza do espaço, da luz, do tempo. Convida-nos a valorizar e a proteger aquilo que é efémero, aquilo que é mais vulnerável. Estar perante a obra de Lee Ufan é uma lição de humildade, pois recorda-nos que somos, no espaço e no tempo, um pequeno fragmento do infinito”.
A exposição engloba quatro pinturas da série “Response” (2023, 2025), “cada uma composta por uma tela branca com campos cromáticos em gradiente que passam do preto ao branco através de vermelhos e azuis luminosos”, descreve o mesmo comunicado. “Criadas durante o surgimento do movimento de pintura coreano Dansaekhwa [Pintura Monocromática], na década de 1970, estas obras recorrem a pinceladas mínimas, muitas vezes únicas, sobre superfícies amplas e meticulosamente preparadas, explorando a respiração, o tempo, o vazio e a presença. Estes gestos estabelecem um diálogo sereno entre a marca deixada pelo pincel e a perceção do vazio, convidando a uma contemplação pausada e silenciosa.”
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