Max teve a pior partida mas ainda foi a tempo de partir tudo

Vitórias, nem uma. Ainda assim, todos os sinais estavam lá. Apesar da desistência madrugadora logo na volta inicial do Grande Prémio dos Países Baixos, Max Verstappen ia mostrando uma nova faceta da Red Bull que nada tinha a ver com o carro que tinha iniciado a temporada – tanto que, nas últimas seis provas a contar a partir da saída de competição em Silverstone, o neerlandês foi ao pódio em cinco, fechando as duas últimas em Espanha e no Azerbaijão atrás dos Mercedes de Kimi Antonelli e George Russell. Agora, a oportunidade de dar o passo em frente era servida com a primeira pole position da época na Malásia. Seria suficiente?
Por uma décima se ganha, por uma décima se perde: George Russell vence GP do Azerbaijão
“É fantástico. Temos tentado conquistar a pole em muitos grandes prémios, por vezes mais perto do que noutras, mas finalmente conseguir, depois do ponto onde começámos a temporada, é incrível. Estou satisfeito com o dia de hoje [sábado] e, certamente, vou tentar vencer amanhã [domingo]. Quando se parte da primeira posição, esse é o objetivo. Em termos gerais, é um resultado incrível para nós, olhando para a forma como a temporada começou e para a progressão que fizemos. Em algumas pistas estivemos relativamente perto mas acho que este fim de semana foi muito positivo para nós”, destacara o ex-campeão mundial, passando ao lado das análises que apontavam para uma “poupança” dos adversários mais diretos.
“É sempre duro aqui. Está muito calor para nós mas também para os carros, para os travões e para os pneus. A corrida vai ser muito difícil. Estou confiante no que fiz. Se os outros fizerem sacrifícios maiores, boa sorte para eles mas estou preparado”, acrescentara o neerlandês perante condições que entretanto já tinham mudado por completo, com uma enorme chuvada que levou mesmo ao adiamento do início da prova: às 15h na Malásia (menos sete em Portugal), aquilo que se via eram os pilotos a andar de forma descontraída nas suas boxes. Na pista, o medical car ia fazendo testes perante toda a água acumulada na pista e não era propriamente fácil fazer as curvas com alguma velocidade. Não havia hipótese de uma “solução” rápida.
Max Verstappen conquista primeira pole position do ano no Grande Prémio do Bahrain
O ano de 2026 teve a Mercedes desde os primeiros instantes como principal destaque, contou depois com a “reação” de uma Ferrari que chegou a mostrar-se ao nível da equipa inglesa, teve de seguida uma McLaren a vencer por Lando Norris na Hungria e nos Países Baixos. Da Red Bull, apenas os tais “sinais”, com Max Verstappen a ocupar uma modesta sexta posição no Mundial apesar dos sete pódios em 2026 e Isack Hadjar a regressar em grande após lesão (foi substituído por Liam Lawson) com uma terceira posição em Baku. E como um mal nunca vem só, essa tentativa de retoma, que tinha como ponto em falta o primeiro triunfo da época, estava no mínimo condicionada perante a intempérie que se continuava a abater na Malásia, que estava a receber o Grande Prémio do Bahrain por decisão da Fórmula 1 por motivos de segurança.
Dez minutos após a hora inicialmente prevista, outro adiamento: a heavy rain não iria parar nos 20 minutos seguintes. Um ou outro piloto ainda ia passando pela pista, com Franco Colapinto sem medo da chuva e Lance Stroll de chapéu aberto sentado no chão na zona da meta, mas não havia previsão real para o início da corrida apesar da festa que se fazia nas bancadas lotadas do Circuito Internacional de Sepang. Se depois da qualificação havia a convicção em quase todas as equipas que a largada e a primeira volta teriam uma dose extra de confusão à mistura, agora o cenário seria tendencialmente pior e mais difícil para todos.
40 minutos depois, uma saída atrás do safety car e… o caos: Lewis Hamilton perdeu o controlo do carro, Lando Norris também, Isack Hadjar idem, Esteban Ocon aparecia depois parado e todos voltaram mesmo à zona das boxes sem que se percebesse ao certo se o Grande Prémio tinha ou não começado entre problemas de software que chegavam sobretudo aos carros que tinham motor da Ferrari (embora o primeiro a queixar-se tenha sido Verstappen). Às 16h locais, quando se devia estar na segunda metade da corrida, não se tinha ainda percebido sequer se a corrida tinha começado, se os pilotos que ficaram para trás iam perder posição ou se já existiam condições para começar. Tudo com uma “notícia” que chegava via rádio por Kimi Antonelli: “A pista está a secar de forma muito rápida”. O procedimento de arranque foi suspenso, o stress começava a aumentar entre todas as equipas perante a falta de informações sobre os passos seguintes.
Mais uns longooooooos minutos de espera, mais uma informação que todos aguardavam: o início passava a estar marcado para as 16h33 locais, mais de uma hora e meia após a hora inicial. E com grandes novidades nos pneus, com a Ferrari a apostar em macios para Lewis Hamilton e Charles Leclerc numa escolha que fez com que Pierre Gasly, que tomara a mesma opção, saísse de pista. “Temos de aguentar as primeiras voltas e depois vai valer a pena”, dizia a equipa italiana ao piloto britânico. Até lá, podia ser um problema (e essa parte não foi comunicada). E houve trocas de pneus de outras equipas antes da partida parada, que se seguiu a duas voltas iniciais atrás do safety car, como a Cadillac ou a McLaren mas com Oscar Piastri.
A partida, essa, teve pouco a ver com pneus: Kimi Antonelli saltou de pronto para a primeira posição, George Russell ganhou vários lugares para chegar a segundo, Max Verstappen ficou apenas a tentar defender esse terceiro posto que lhe restava de Liam Lawson, da Racing Bull, com Isack Hadjar em quinto. Os Ferraris acabaram por se afundar a pique na classificação, com Charles Leclerc a chegar a último antes de trocar de pneus e Hamilton a ir parar a 17.º. Também na McLaren, e mesmo passando pelas boxes, Piastri estava melhor do que Lando Norris, que caiu para 15.º com a opção pelos intermédios. Outra grande surpresa: os dois Williams subiram para sexto e sétimo no arranque, com Carlos Sainz à frente da dupla.
Só a partir da sexta volta começou a haver uma consolidação de ritmos, com Max Verstappen a atacar com sucesso George Russell para ficar em segundo e Hadjar a passar Liam Lawson para quarto. Os Red Bull já estavam a voar, com a entrada de safety car depois da saída de pista de Valtteri Bottas a adiar apenas a passagem do neerlandês para a liderança com Russell a aproveitar para ficar também à frente de Antonelli, com Hadjar em quarto, Lawson em quinto, o surpreendente Esteban Ocon em sexto e Arvid Lindblad em sétimo. Mais atrás, em busca de remediar o que estava “estragado”, os McLaren e os Ferrari andavam entre a oitava e a 14.ª posição, percebendo-se que era uma questão de tempo até entrarem no top 10 também depois de um pião de Carlos Sainz depois de um toque com Gabriel Bortoleto. Agora sim, havia corrida “a sério”.
Antonelli conseguiu depois devolver a ultrapassagem a Russell, com Verstappen a disparar na frente e Isack Hadjar a não ter andamento para se aproximar das posições de pódio, ficando com Lewis Hamilton cada vez mais perto já em quinto (deixando essa ideia de como teria sido um arranque sem slicks). Ainda antes do meio da prova, a Mercedes avisava para a possibilidade de um período de chuva curto uns minutos depois. Acabou por ser apenas uma ameaça, numa fase em que as passagens pelas boxes de Russell, Hadjar ou Lewis Hamilton deixavam os McLaren no top 5 e Leclerc em nono mas a fazer as voltas mais rápidas. Com os três primeiros lugares a estabilizar entre Verstappen, Antonelli e Russell, as atenções viravam-se para a luta pela quarta posição entre Hadjar e Hamilton até que Alexander Albon parou e houve safety car virtual.
Sendo o primeiro a ter de assumir uma decisão, Verstappen decidiu parar para trocar de pneus e Antonelli passou para a liderança, num risco assumido mesmo perante os avisos que a Mercedes tinha feito por causa dos pneus. Teria sido uma boa decisão da Red Bull? Sim, foi. E o próprio Antonelli parou de seguida, com o cenário a ficar igual entre paragens de todos os pilotos que estavam na frente. Ou seja: os três lugares do pódio pareciam “arrumados”. Pareciam, não estavam: Russell encostou sem que se percebesse ao certo o que se passou, Lando Norris também teve uma saída de pista e as atenções passavam a estar focadas nas posições do top 6, que tinha Verstappen, Antonelli, Hadjar, Hamilton, Leclerc e Piastri. O neerlandês ficou mesmo com a vitória, a primeira do ano, mas foi Antonelli quem mais ganhou, tendo em conta que, de uma forma inesperada, voltou a ganhar pontos a toda a concorrência mais próxima no Mundial. Já Hamilton ainda foi ao pódio, com outra surpresa pelo meio: Fernando Alonso terminou mesmo com o oitavo lugar.
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