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Wednesday, October 14, 2026

Salvador Sobral: "Ser apolítico é virar a cara"

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Esteve afastado dos palcos e do estúdio de gravações, mas por tempo limitado. Afinal, cantar é a única coisa que sabe fazer, diz-nos. Depois de meses na estrada com a espanhola Silvia Pérez Cruz e do álbum Timbre, lançado em 2023, Salvador Sobral mudou-se para a Catalunha, com a filha Aïda e a mulher, Jenna Thiam — que prefere chamar de namorada. Vive em Barcelona, a cidade com que sempre sonhou, desde 2024, sem perder de vista o país onde nasceu e outras latitudes mais tropicais — as mesmas que informam o novo disco, A Flor do Recomeço, a editar esta sexta-feira, dia 16 de outubro.

Salvador dá voz a onze temas compostos e gravados no Brasil, que torna seus e cuja identidade procurou equilibrar entre os dois lados do oceano. Esquivando-se dos “vocês”, que transforma em “tus”, protagoniza uma viagem pelos sons transatlânticos, tingida pelo jazz. Do catálogo de gigantes da Música Popular Brasileira, onde já tinha ido requisitar o nome de Caetano Veloso, recrutou Ney Matogrosso — que colabora com o português na canção Bam Bam.

Mais caseiro e afeiçoado à rotina desde que é pai — a filha, Aïda Thiam, nasceu em 2022 —, Salvador continua a construir pontes entre geografias diferentes. Evidência é a digressão que arranca em Bilbau (Espanha) e atravessa a Europa de norte a sul, e ainda a América Latina. A conversa com o Observador decorreu por intermédio de dois ecrãs, o que não impediu que o músico fizesse justiça à fama de tipo relaxado e extrovertido, que goza desde 2017, o ano em que venceu a Eurovisão e em que tudo mudou — em que tudo começou. Antes das perguntas, já o cantor disparava questões de volta, invertendo a lógica habitual da entrevista.

A partir de Barcelona (as fotografias foram feitas em Lisboa), Salvador falou das novas canções, da sua experiência no cinema com João Nicolau (em A Providência e a Guitarra) e da vida familiar. E não se esquivou dos assuntos políticos que, nos últimos meses, têm sido notícia. A saída e posterior regresso à plataforma de streaming Spotify, o boicote ao festival a partir do qual lançou a carreira e o ativismo militante face à questão palestiniana estão no centro dos seus pensamentos quotidianos. Apesar disso, admite, já foi mais radical.

[o vídeo de “A Flor do Recomeço”, primeiro single do novo álbum, com o mesmo nome:]

Em fevereiro, retirou as suas canções do Spotify, uma decisão revogada no início de setembro. Quando regressou à plataforma admitiu: “Fui com tudo e quando olhei para trás não havia ninguém”. Estava à espera de dar início a um movimento de boicote mais generalizado?
Entretanto, recebi mensagens de outros artistas, por exemplo da emmy curl, que é uma ativista fortíssima no boicote ao Spotify. Ela disse-me: “Eu estava lá, não olhaste bem para trás porque eu estava lá”. Mas músicos com nome na indústria, sem contar com ela, não pôde vir ninguém e eu entendo, não é? Eu próprio também voltei. Era preciso o boicote ser total, irmos todos juntos e tirarmos a música no mesmo dia, que foi o que tentámos fazer aqui na Catalunha. Só que não teve assim tanta expressão, porque a maioria dos artistas envolvidos não tinha muitos streams, do grupo catalão eu sou quem tem mais ouvintes — e nem sou fortíssimo no Spotify.

A dada altura, comecei a sentir que as pessoas já não ouviam a minha música. É curioso, porque o single A Flor do Recomeço foi o primeiro, desde que ganhei a Eurovisão, que não passou na rádio. A venda de bilhetes para os concertos também começou a descer e eu tenho, primeiro que tudo, de alimentar a minha família — ou a minha filha, que a minha mulher ganha o dinheiro dela. Era mais importante para mim chegar às pessoas e vender bilhetes, para continuar a fazer aquilo de que gosto, e participar no boicote enquanto utilizador, porque como músico tornou-se incomportável.

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É difícil, enquanto figura pública, voltar atrás com uma decisão desta natureza, que divulgou nas redes sociais?
Sim. E pensei muito antes de avançar, mas estava a sofrer imensa pressão por parte da indústria e dos promotores de concertos. Quando publiquei o vídeo [a anunciar o regresso à plataforma] no Instagram, aconteceu uma coisa muito estranha, porque ganhei 2.000 seguidores do nada. Como se a Meta percebesse, “ele já voltou ao Spotify, podemos devolver-lhe uns likes, ele está de volta”. Senti-me de regresso aos braços do inimigo, comecei logo a ganhar engajamento nas redes, é uma coisa muito perversa. Também recebi carinho das pessoas, que me disseram “Ora, não foi em vão, eu e a minha família fizemos boicote, agora usamos outra plataforma”. Depois houve, claro, o hate, mas também já estou um bocadinho habituado, já tenho algumas — como dizem os espanhóis — tablas.

Acredita que os artistas ou pessoas com uma plataforma considerável têm algum dever cívico acrescentado? Devem usar a sua influência para fins ativistas?
Em 2026, sim. Não é só um dever cívico, têm um dever político, porque os valores humanos estão em crise e estão em perigo. Alguém que tenha uma plataforma tem a obrigação política, cívica, social e humana de defender os direitos básicos e os direitos humanos. Já não existe isso de ser apolítico, a história do Ed Sheeran é absolutamente ridícula. Ser apolítico é ser político, porque é virar a cara.

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Mas será que os músicos e artistas preferem manter o silêncio sobre temas divisivos porque não têm noção da própria influência que têm junto do público?
Eu percebo, mas acho que é muito inocente pensar isso. Acho que artistas [como o Ed Sheeran] sabem o efeito que têm, mas estão muito confortáveis na sua posição. Eu próprio estou confortável na minha posição. Quando percebi que ia perder trabalho, tive de voltar, não é? Ainda se nos uníssemos todos… Mas é muito difícil, a gente nem se consegue sindicalizar! Hoje em dia, em 2026, temos de ter essa missão e apelar aos valores básicos da humanidade. Agora, no Brasil, todos os artistas que conheço usam a sua voz para apelar ao voto Lula. É o que se pode fazer e isso mobiliza as pessoas, está à vista.

Este ano, o Salvador apelou ao boicote à Eurovisão. É curioso como, com o passar do tempo, e já lá vão quase dez anos, se foi distanciando do festival que lhe serviu de plataforma de lançamento. Apesar da vitória, nunca se identificou plenamente com os valores do certame internacional?
A própria estética do festival não tem muito a ver comigo e foi por isso que ganhei, porque era estranho ali, era uma coisa muito diferente. Fui ao Jornal da Noite consciencializar as pessoas para o boicote ao festival. Porquê? Porque ganhei a Eurovisão e, a partir desse lugar, posso criticar o facto de não deixarem participar a Rússia, mas terem uma abordagem diferente em relação a Israel. Da mesma maneira que não aplicam tantas sanções a Israel como à Rússia. A nível da Eurovisão e a nível político — é igual.

Não o preocupam as consequências dessas tomadas de posição? Corre o risco de hostilizar uma fatia do público.
Fico feliz que o público sionista boicote o meu trabalho. Aliás, na minha última tournée, cantei uma canção palestiniana em todos os países e nunca recebi críticas. O meu público é humanista e politizado, minimamente consciente… Só na Lituânia é que a receção foi menos satisfatória, mas percebi que é porque estão muito mais preocupados com a guerra na Ucrânia.

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