Lula ganhou a eleição e agora precisa reconquistar a classe C
Há 25 anos ganho a vida escutando os brasileiros. Em cada eleição, aprendo alguma coisa que não cabe no questionário. A deste domingo me lembrou uma lição antiga: é possível reclamar do governo, desejar mudanças e, diante da alternativa, decidir continuar com o presidente. Foi o que fez uma fatia decisiva da classe C. Sem entusiasmo, somando a rejeição ao adversário à segurança de quem já sabe o que tem em casa.
Escutei muita impaciência com Lula. O preço da feira não voltou ao que era, a dívida não desapareceu e o medo de andar na rua continua. Nada disso sumiu na cabine de votação. Mudou a comparação. No primeiro turno, quando Flávio terminou na frente, bastava ao eleitor descontente manifestar a insatisfação, e o bolsonarismo era o endereço mais à mão. No segundo, ele precisava decidir quem colocaria no lugar de Lula.
E aqui os três mandatos fizeram diferença. Quem votou em Lula sabia, com qualidades e defeitos, como ele governa. De Flávio, muita gente conhecia apenas o sobrenome. O candidato foi aparecendo depois, nos debates e na campanha, com seu preparo, suas propostas e suas contradições. Parte de quem ainda estava decidindo gostou do que viu. Parte não gostou. Para esses, o antipetismo deixou de ser resposta suficiente.
Classe média, no Brasil, nunca foi um bloco. Imagine a Neide, manicure no Jardim Elvira, em Osasco. Mulher da classe C que se formou na periferia com trabalho e crédito. Agenda as clientes pelo WhatsApp, reclama da conta de luz e depende do Farmácia Popular para o remédio da mãe. Neide não está encantada com Brasília. Mas, quando Flávio promete manter esse programa, o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, surge uma pergunta doméstica: se a ideia é preservar o que já funciona, por que arriscar a troca? Neide não virou petista no caminho da urna. Só concluiu que, para trocar, precisava de um motivo melhor do que a raiva.
Mas o meio da pirâmide não é todo igual. Nem todo mundo fez essa conta. Quem queria rompimento ouviu continuidade demais. Quem desconfiava de Flávio se perguntou se as promessas resistiriam ao discurso de cortes. No fim, por margem estreita, a maioria preferiu o que já conhecia. Conhecido, aqui, não quer dizer perfeito. Quer dizer saber como é a entrega e o que se coloca em jogo na troca. Cautela também é uma forma de inteligência.
Nas pesquisas qualitativas que realizamos no Instituto Locomotiva durante os debates, esse raciocínio apareceu em algumas avaliações. Mesmo cansado, Lula conseguia falar de trabalho, renda e situações reconhecíveis na vida das famílias. Flávio teve bons momentos, mas vários participantes se perguntavam se dava para confiar em alguém que muda tanto de opinião.
A mobilização também contou. O "Exército do Lula", canal de WhatsApp organizado por André Janones, distribuía tarefas e passou de 10 milhões de seguidores. A ideia era transformar apoiador desanimado em cabo eleitoral, gente disposta a procurar o parente indeciso, o vizinho que não ia votar e o idoso que precisava de um empurrão. O curioso é que, numa eleição cheia de algoritmo, o trabalho que pesou foi o de gente conversando com gente.
Segundo o TSE, quase 3 milhões de eleitores a mais compareceram no segundo turno. Houve mobilização dos dois lados. Mais gente participando é uma boa notícia para a democracia, desde que vencedores e derrotados respeitem o resultado.
Na noite da vitória, Lula prometeu mudar o jeito de governar: "Esse mandato vai ser o mandato em que eu mais vou ouvir o povo brasileiro". Vale levar a promessa a sério. Escutar não é apenas falar direto pelo celular. É deixar que as pessoas digam o que precisa mudar e transformar essa conversa em decisão.
Minha hipótese é que Lula ganhou porque, diante de Flávio, pareceu a escolha mais segura. O erro seria confundir isso com satisfação, ou ler o resultado como divórcio entre esses eleitores e o raio de influência do bolsonarismo. Os três primeiros mandatos deram a esse eleitor motivo para não trocar o certo pelo duvidoso. O quarto precisa oferecer algo melhor do que a opção menos arriscada.
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