Por que liga de golfe pediu falência após gastar R$ 25 bilhões e qual o futuro do torneio
Após cinco anos de operação e aproximadamente US$ 5 bilhões (cerca de R$ 25,5 bilhões) investidos em contratações e infraestrutura, a verdadeira situação financeira da LIV Golf, o circuito dissidente que tentou rivalizar com o tradicional PGA Tour, foi revelada. Em uma tentativa de garantir sua sobrevivência a longo prazo, a organização de golfe protocolou pedido de recuperação judicial (Chapter 11) nos tribunais dos Estados Unidos.
Segundo reportagem do The Athletic, a liga busca utilizar o processo legal para reestruturar passivos acumulados e retornar às atividades em 2027 como uma empresa enxuta e viável.
Os documentos judiciais protocolados detalham o ritmo com que a organização consumiu o capital injetado por seu fundador e mantenedor, o Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita. A crise ganhou contornos definitivos em abril, quando o PIF anunciou a suspensão do financiamento além da temporada de 2026. Apenas a entidade britânica LIV Golf Ltd, que supervisiona operações fora dos Estados Unidos, reportou perdas de US$ 1,1 bilhão (R$ 5,6 bilhões) no final de 2024, montante que se aproxima da casa dos US$ 2 bilhões (R$ 10,2 bilhões) nas projeções para o fim de 2025.
O compromisso total de capital do fundo saudita entre o meio de 2021 e fevereiro de 2026 bateu a marca de US$ 5,3 bilhões (R$ 27 bilhões). Após interromper a injeção de ações, o PIF concedeu um empréstimo cujo saldo devedor atualiza em US$ 495 milhões (R$ 2,5 bilhões), colocando o próprio fundo saudita na posição de credor prioritário na fila de pagamentos. Sem o suporte irrestrito, a capacidade do circuito de honrar seus passivos — estimados em mais de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) — tornou-se insuficiente, segundo a reportagem do The Athletic.
A dívida milionária e o modelo 'LIV 2.0'
O processo de falência engatilha uma operação de reestruturação. A liga almeja seguir operando com o suporte financeiro da BC Partners, empresa de capital de investimentos com sede em Londres. O plano central da gestão é instituir o modelo provisoriamente chamado de "LIV 2.0". Sob essa estrutura, 52,5% das cotas da organização seriam repassadas aos atletas, 45% alocadas para novos investidores e 2,5% mantidas sob o controle gerencial.
Os custos com contratos de jogadores compõem a maior fatia das despesas operacionais da entidade. Para atrair os principais nomes do esporte e desestabilizar o PGA Tour, estima-se que a liga distribuiu pelo menos US$ 1,6 bilhão (R$ 8,1 bilhões) em acordos garantidos, além de US$ 1,36 bilhão (R$ 6,9 bilhões) em premiações. O pedido de recuperação judicial concede à liga a possibilidade legal de rejeitar e invalidar contratos vigentes considerados insustentáveis, forçando uma repactuação ou liberando os golfistas para assinarem com outros circuitos.
A lista de credores arrolados no processo explicita o peso das estrelas do esporte no desequilíbrio contábil. Sete dos principais credores sem garantias são jogadores, com valores pendentes referentes ao terceiro trimestre. O espanhol Jon Rahm figura no topo da lista com faturas pendentes de US$ 7,4 milhões (R$ 37,7 milhões), seguido por nomes como Bryson DeChambeau, Dustin Johnson e Cameron Smith.
A liberdade contratual dos atletas e as decisões judiciais iminentes prometem redesenhar o cenário do golfe internacional. Enquanto executivos da liga buscam finalizar termos com novos investidores para viabilizar temporadas expansivas a partir de 2027, atletas avaliam possibilidades de reintegração em outros circuitos, como o DP World Tour, mediante cumprimento de sanções.
O recuo do PIF neste projeto, segundo comunicados oficiais avaliados pelo The Athletic, decorre da ausência de sustentabilidade da iniciativa, sem indicar o fim dos investimentos estatais sauditas em grandes projetos esportivos. Clubes de futebol europeus financiados pela nação continuam com orçamentos ativos, indicando que o foco se deslocou do circuito independente de golfe para a organização estrutural de torneios de peso global dentro de suas próprias fronteiras.
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