'Descobri pelas redes sociais que ele estava morto': o duplo castigo aos condenados na Arábia Saudita, um dos países que mais aplicam a pena de morte

- Author, Hana Zeratsyon
- Role, Da BBC News na Etiópia
- Author, Swaminathan Natarajan
- Role, Do Serviço Mundial da BBC
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Tempo de leitura: 8 min
"Fazemos todas essas cerimônias para ajudar nossa família a encontrar alívio e aceitar que ele morreu. Mas eu não encontrarei consolo."
São as palavras de Kinfe Aregawi, um pai que chora a morte de seu filho, Kibrom.
"Isso significará uma vida inteira de pesar e dor para mim", lamenta.
Kibrom Kinfe Aregawi foi um dos cinco etíopes executados em junho deste ano por contrabandear maconha para a Arábia Saudita, um dos países que mais executam pessoas no mundo, atrás apenas da China e do Irã.
Um enterro religioso formal é um elemento essencial da fé de muitos cristãos ortodoxos etíopes: o corpo é envolto em uma mortalha cerimonial e colocado em um caixão de madeira.
Isso não pôde acontecer durante as cerimônias dedicadas ao jovem de 25 anos, já que seus restos mortais não foram repatriados.
Famílias sem respostas
A Arábia Saudita executou 116 pessoas até 27 de julho, segundo a Human Rights Watch (HRW).
"A recusa em devolver um corpo não é uma mera questão administrativa. Ela estende a punição à família da pessoa executada", afirma Duaa Dhainy, pesquisadora sênior da Organização Saudita Europeia para os Direitos Humanos (ESOHR) e consultora de casos da Reprieve MENA (Oriente Médio e Norte da África), uma organização beneficente que defende pessoas vítimas de graves violações dos direitos humanos.
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A relatora especial da ONU sobre liberdade de religião ou crença, Nazila Ghanea, classificou a suposta prática saudita de reter os corpos como "tortura e abuso".
Familiares afirmam que não foram avisados previamente sobre a execução dos cinco etíopes, realizada em 23 de junho no centro de detenção de Khamis Mushait, na província de Asir, no sul da Arábia Saudita.
Os pertences pessoais e as certidões de óbito de seus entes queridos também não foram entregues às famílias.

Crédito, Mebrahtom
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Kibrom Kinfe Aregawi viajou pela primeira vez para a Arábia Saudita em 2020 — sem um visto válido — acompanhado de seu pai, também chamado Kinfe.
Eles foram detidos, ficaram presos por 15 meses e posteriormente foram deportados.
No entanto, devido à guerra civil na Etiópia, Kibrom decidiu retornar à Arábia Saudita.
Ele atravessou o Mar Vermelho em uma embarcação lotada e atravessou o Iêmen a pé.
Kibrom foi novamente detido pelas autoridades sauditas enquanto atravessava a fronteira, em 2023, e acusado de tráfico de drogas.
Kinfe afirma que, depois de três meses na prisão, seu filho foi condenado à morte.
E, após passar três anos na prisão, foi executado repentinamente em junho.
"Ele nem sequer teve a oportunidade de falar conosco. Descobri pelas redes sociais que ele estava morto", disse o pai à BBC.
Kinfe acredita que seu filho era inocente e que foi condenado injustamente.
"Não há provas de que meu filho tenha participado do contrabando de haxixe", afirma.
E acrescenta: "Ninguém me entregou sua certidão de óbito, seus pertences ou seu corpo. Simplesmente choro e sofro em silêncio. O que mais posso fazer?"

Um funeral sem corpo
Naquele mesmo dia e na mesma prisão, Tsigabu Gebremariam também foi executado após ser condenado pelo mesmo crime.
O jovem, de 26 anos, era o mais velho de oito irmãos e vinha de uma área rural da região de Tigray Central, na Etiópia.
Ele deixou sua casa aos 18 anos para escapar da pobreza e da guerra civil, segundo seu pai, Hagos Gebremeskel.
"Não há muitas oportunidades de trabalho para os jovens na nossa região. Ele foi para a Arábia Saudita para me ajudar", diz Hagos.
Tsigabu foi condenado por contrabando de drogas e passou três anos e meio na prisão.
A última vez que falou com a família foi em fevereiro.
"Ele disse que voltaria para casa em breve e se casaria", contou Hagos à BBC.
Sua mãe, Letechristos Gebretsadik, procurava uma noiva adequada para ele, mas acabou organizando um funeral.
"Todas as minhas filhas são mulheres; ele era o único homem. Elas esperavam que o irmão voltasse para casa em breve. Estavam preparando músicas de casamento para ele. Agora, a dor delas é ainda maior do que a minha", afirma.

Ao saber da execução de Tsigabu por meio de familiares que vivem na Arábia Saudita, sua família — cristã ortodoxa — decidiu realizar um funeral simbólico e um serviço de oração na igreja local.
"Quero saber por que o corpo dele não voltou para casa", diz Letechristos, que cumpriu o tradicional período de luto de 40 dias.
"Isso torna nossa dor ainda mais pesada e parte nosso coração", lamenta.
Os pais de Tsigabu querem que as autoridades sauditas apresentem provas do crime cometido por seu filho e se perguntam se outras pessoas se aproveitaram dele.

Crédito, Arquivo pessoal
A pena de morte na Arábia Saudita
Um relatório da Anistia Internacional publicado no ano passado aponta que 75% das pessoas executadas por crimes relacionados às drogas eram estrangeiras.
Dhainy sugere que redes criminosas exploram pessoas vulneráveis.
"Em alguns casos envolvendo cidadãos etíopes, os detidos relataram que foram convencidos a transportar objetos em troca de ajuda para atravessar a fronteira; por outro lado, em casos envolvendo cidadãos paquistaneses, documentamos situações em que pessoas foram obrigadas a ingerir substâncias proibidas, às vezes sob coerção ou em troca de promessas de emprego", afirma Dhainy.

Crédito, Mebrahtom
Segundo estimativas da ESOHR, o número total de execuções na Arábia Saudita ultrapassou 2 mil desde que o rei Salman bin Abdulaziz Al Saud subiu ao trono, em 2015. 42% dos executados eram estrangeiros.
A organização calcula que a Arábia Saudita realizou 356 execuções em 2025, o maior número anual já registrado.
A legislação saudita permite que as autoridades repatriem o corpo por meio da embaixada, mas Dhainy afirma que isso nunca acontece.
"Não temos conhecimento de nenhum caso em que o corpo de um migrante executado tenha sido devolvido à família. O mesmo parece ocorrer nos casos de cidadãos sauditas que documentamos", afirma.
No passado, algumas famílias fizeram campanhas para exigir a repatriação dos corpos de detentos executados — entre eles, cidadãos turcos e jordanianos —, mas sem sucesso, acrescenta Dhainy.
"O atestado de óbito entregue à família jordaniana era extremamente breve. Não continha informações sobre onde o corpo havia sido enterrado nem sobre as circunstâncias da morte", comenta.

Crédito, Kinfe Aregawi
A postura oficial
A BBC solicitou uma resposta ao governo saudita por meio dos ministérios do Interior e das Relações Exteriores, bem como da embaixada em Londres, mas não recebeu resposta.
As autoridades da Arábia Saudita se referem aos crimes relacionados às drogas em termos contundentes.
Ao anunciar, em junho, a execução de um cidadão saudita também condenado por crimes relacionados à cannabis, um comunicado do Ministério do Interior citou versículos do Alcorão que falam em punições severas para aqueles que promovem a "corrupção na Terra".
O comunicado afirma que o governo está comprometido em "proteger a segurança dos cidadãos e residentes contra o flagelo das drogas e impor as penas mais severas previstas pela lei aos contrabandistas e traficantes, diante da perda de vidas inocentes e da grave corrupção provocadas pelas drogas".
Também foi solicitado um comentário à embaixada da Etiópia na Arábia Saudita.
A Arábia Saudita não divulga quantos detentos estão atualmente no corredor da morte, mas ativistas de direitos humanos estimam que possam ser centenas de pessoas.
"As execuções na Arábia Saudita realizadas em segredo ou sem aviso prévio violam o direito do detento e de seus familiares a terem tempo suficiente para se prepararem para a morte", afirma Joey Shea, pesquisadora da divisão de Oriente Médio e Norte da África da Human Rights Watch (HRW).

Rezando por um milagre
Um detento, cuja localização e identidade não podem ser reveladas por motivos de segurança, relatou à BBC as condições de sua prisão.
Ele foi detido em 2023 e confessou o crime de contrabando de drogas.
Conta que foi considerado culpado e condenado, mas espera obter um indulto.
Neste ano, viu 15 de seus companheiros de prisão serem executados e agora vive com o medo constante de ser executado.
"Cada vez que os guardas abrem as portas, nos perguntamos de quem será a vez."
Ele reza por um milagre — um adiamento da execução —, mas, se o pior acontecer, quer que seus restos mortais sejam repatriados.
"Tenho medo de que meus pais nem sequer possam ver meu corpo", afirma.
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