A volta ao mundo do "figas"

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Bem-vindos. A empresa onde o nosso viajante trabalhava faliu e ele ficou sem chão. E foi aí que veio à memória um sonho antigo: dar a volta ao mundo de bicicleta. No dia 2 de junho do ano passado, pé no pedal, e aí foi ele rumo ao desconhecido. Chegou há uns dias, depois de 17 meses de viagem. Olá, Miguel Figueira.
Alô, viva.
Viva.
Obrigado pelo convite.
Miguel, também conhecido como Figas, não é?
É verdade, Figas de Bicla.
Muito bem. Fizeste muitas figas ao longo da viagem, Miguel?
Não fiz, mas sempre senti sorte. Se calhar, nem precisei de fazer.
Chegaste a Tavira há uns dias. Ainda te sentes meio a pairar nas nuvens?
É meio estranho. Agora tenho que arrumar as coisas todas, mas acho que ainda não percebi bem aquilo que aconteceu, mas, por outro lado, eu sinto que, de certa maneira, parece que nunca saí, que estou em casa. E estou mesmo, obviamente, mas parece que foi ontem que estive aqui.
Ok. Chegaste há uns dias, depois de 17 meses de viagem. Grande aventura essa. O que é que fazias, Miguel, antes de partires?
Eu era software developer, programador.
A empresa faliu, não foi? E foi aí que tu pensaste: "Bom, é agora que é", não é?
Sim, eu até já estava com aquela ideia de me demitir. Estava a pensar que era a altura certa, porque obviamente quanto mais tarde, mais responsabilidades uma pessoa tem, família, etc. E para já, ainda não tinha esse compromisso. Portanto, já tinha dito à minha mãe: "Eu gostava de fazer isto". Mas como uma pessoa está bem, está confortável, vai sempre adiando um bocado.
Vai adiando. Até que chegou então esse momento de partir. Saíste de Tavira no dia 2 de junho de 2025. O teu percurso foi Espanha, França, Itália, Croácia, Balcãs, Turquia, Geórgia, Cazaquistão, Ásia Central, depois saltaste aqueles países mais instáveis, Afeganistão, Irão e Paquistão, foi?
Sim, o meu plano inicial até era ter ido pelo Irão, porque tinha que atravessar o mar de alguma maneira e sempre ouvi histórias fantásticas do Irão, que as pessoas nos recebem com uma hospitalidade enorme, mas na altura havia notícias de uns bombardeamentos, de Israel, aquilo estava um bocado instável. E a mim também me disseram que era preciso guia, não sei se era bem, se não era, mas acabei por decidir não arriscar e apanhar o avião para saltar o mar.
Estás a falar do Mar Negro, é isso?
Mar Cáspio.
Mar Cáspio, sim, exatamente.
Sim. E depois, quando cheguei à outra ponta do Cazaquistão, já muito próximo da fronteira com a China, era a altura do inverno e eu não tinha o material de inverno. E eu não sou feito para o frio e decidi voar para o sul da China, para Macau. Também não tinha visto, portanto, só tinha um mês para estar na China. De qualquer maneira, nunca iria conseguir atravessar a China num mês, obviamente, teria que tratar disso. Foi o que fez mais sentido na altura, o mais fácil.
E portanto, quantas semanas passaste na China?
Eu aproveitei o máximo, quase o mês todo.
Ok.
Nós tínhamos aquela isenção de visto, e eu aproveitei.
Mas fizeste as quatro semanas na China sempre a pedalar até ao Vietname?
Sim, eu não fui logo direto, porque como tinha algumas semanas, o que fiz foi andar um bocadinho para norte e aquela zona é lindíssima. E depois, ao fim de duas semanas, voltei para trás para chegar a tempo de passar para o Vietname.
Muito bem. Esta viagem correspondeu às expectativas que tu tinhas, Miguel?
Sim, eu nem sabia muito bem o que esperar, para ser sincero. Obviamente, tinha uma ideia, mas eu nunca tinha viajado para a Ásia, nunca tinha feito viagens de bikepacking, que é basicamente levar a bicicleta e o material de campismo, isso tudo. Portanto, nem sequer tinha experiência disso, não sabia muito bem o que esperar. Mas sim, se tinha algumas expectativas, acho que foram correspondidas.
Muito bem. É muito duro ou foi muito duro, Miguel?
Nem todos os dias são duros. Alguns dias foram bastante duros, mas de certa maneira, esses dias até são os que mais marcam, às vezes.
São os mais desafiantes, não é?
Exato. As pessoas fazem Ironmans, alguns dias parecia que estava numa dessas, que passava 12 horas em cima da bicicleta a pedalar. Aqueles dias que fiz 200 km ou uma coisa assim, é mesmo porque também acho piada, às vezes, a esse tipo de desafio. Não está lá ninguém para me dar uma medalha nem nada, é só mesmo porque há um certo prazer depois de conquistar.
De tu impores os teus limites e atingi-los.
Sim, de estar ali mesmo o limite, exatamente.
Muito bem. Pedalaste todos os dias dos 17 meses ou não?
Não. Foram raras as semanas em que não estive pelo menos um dia sem pedalar. Pelo menos um dia tinha que descansar.
O corpo pede, não é?
Sim, ficava completamente desgastado. Com uma gestão de esforço é possível pedalar todos os dias, mas eu gosto de fazer esses 200 km e depois no dia a seguir, se for preciso descansar, ou daí a dois dias, do que estar a fazer 80 necessariamente. Quando me apetece pedalar forte, pedalo, quando apetece descansar, descanso. Também tive de fazer pausas para visitar a minha namorada ou ela para me visitar a mim.
Portanto, vieste a Portugal?
Não, ela é sul-africana . Foi lá que nos encontrámos.
Na África do Sul?
Sim. Fui lá duas vezes.
Ok, portanto fizeste uma pausa na viagem, foste à África do Sul matar saudades.
Sim, normalmente era na transição, por exemplo, a seguir ao Sudeste Asiático. Tinha de voar para a Austrália em vez de ir direto, ia até Cape Town e ficava lá um mês e depois é que continuava.
Muito bem. Então, Espanha, França, Itália, Croácia, os Balcãs, a Turquia, a Geórgia, antes de entrares depois na Ásia. Vamos falar aqui desta parte europeia. Eu estive a ver as tuas redes sociais, dá a ideia que ias cheio de power e cheio de força. Fizeste a Europa toda a correr. Sentiste isso, Miguel, ou não? Agora olhando para trás.
Sim, o que eu senti foi definitivamente esse power.
Sim.
Eu ainda tinha o gás todo quando comecei.
Estavas fresco.
É, obviamente olho para trás para os vídeos, exato, ou mesmo as memórias que tenho desses dias, a energia é completamente diferente ao fim de um ano. É muito desgastante uma viagem dessas. Aliás, às vezes as pessoas perguntam se eu recomendo e o que eu recomendo até seriam duas semanas esse tipo de viagem, não necessariamente um ano, um ano e meio, a não ser que gostem mesmo de pedalar.
Sim, mas em duas semanas não se dá a volta ao mundo de bicicleta.
Pois, exato. Às vezes é melhor escolher uma rota, por exemplo, fazer a Pamir Highway, essas rotas conhecidas entre os ciclistas, e desfrutar essas duas semanas e ao fim dessas duas semanas uma pessoa já está pronta para voltar a casa, eu acho.
Gostaste de pedalar na Europa, Miguel?
Gostei. É muito turístico. Eu fiz também o sul da Europa, o sul de França, cheio de trânsito, mas tem zonas muito bonitas. Foi completamente diferente, de certa maneira, até do resto da aventura, porque foi muito mais familiar. Obviamente, eu já tinha viajado na Europa, mas não tanto fora da Europa.
Ok. É outro mundo, não é? Depois, quando se passa ali da Turquia.
Muda, sim. Mas mesmo assim, eu adorei Espanha, eu acho que até se calhar é subvalorizada, está aqui ao nosso lado e é fantástico. Eles têm tudo. Um dos meus dias favoritos até foi no deserto do Gorafe, que não é muito longe daqui.
Já sei.
É lindíssimo aquilo.
Parece que estamos nos Colorados. Aliás, há lá uma zona chamada Los Colorados, não é? Sim, já lá estive também de bicicleta. É incrível, não é?
Também há no sul de França. Eles chamam o Colorado Provençal.
Passaste lá também?
Também, sim.
Ok, muito bem. Portanto, depois da Turquia seguiste para a Geórgia, depois aí sim, passaste o Mar Cáspio, não é? Fizeste os ãos todos.
Não fiz todos os ãos, mas fiz.
Quase todos, não é?
Mas fiz alguns.
Faltou-te o Turcomenistão, não foi?
Pois, se eu tivesse ido pelo Irão, tinha essa ideia de atravessar o Turcomenistão, que eu adoraria visitar esse país.
Por quê?
Obviamente, é um regime assim um bocado peculiar. Tem aqueles detalhes de ter só os carros brancos, tem aquelas mesquitas com aquele ditador que fez aquelas alterações. Tem esse tipo de detalhes, eles construíram algumas construções, também tinha umas histórias engraçadas, eu gostaria de ter visto e depois até acho que é engraçado partilhar essas coisas. Mas pronto, fica pra uma próxima.
Ok, fica pra uma próxima. Mas pedalar no registo em que tu vais a pedalar na Ásia Central não é a mesma coisa que pedalar, por exemplo, na Europa ou numa Ásia onde há mais pessoas, mais trânsito, mais densidade populacional, ou é, Miguel?
Não, não é. Mas nesse aspecto eu até prefiro.
Ah, é?
Eu prefiro, sim.
Gostas dos sítios vazios.
Sim, menos trânsito, para andar de bicicleta é melhor. Até não foi muito mau na Ásia Central para reabastecer, portanto, encontrar sítios para comer, porque volta e meia há sempre uma aldeia ou uma cidade ou um sítio onde tinha um minimercado, onde eu poderia abastecer. E depois para encontrar sítio para dormir é muito mais fácil, porque na Europa Eu tenho alguma dificuldade, porque penso sempre que se puser a tenda muito próximo das pessoas, que alguém vai aparecer, pode ser alguém estranho, pode ser a polícia, que se calhar aqui são um bocadinho mais estritos com esse aspecto. E no Uzbequistão, não há nada ali durante quilómetros e quilómetros, e eu parece que posso pedalar quando está a ficar de noite, paro e encontro um sítio para meter a tenda.
Dormias sempre em tenda, acampaste sempre todas as noites nesta viagem de volta ao mundo?
Lá está, na Europa, às vezes tentava ficar nos campismos, até para tomar banho. Mas depende muito. Na Ásia, por exemplo, na China, fiquei praticamente sempre em hotéis. Não me sentia tão confortável a acampar, mas também tem muita gente, mas também os hotéis são 10 € por noite, portanto conseguia ficar em hotel. Mas depois na Austrália e nos Estados Unidos, tinha que acampar todas as noites, praticamente.
Porque é muito caro isso.
Sim.
Olhando agora para trás para a tua viagem de volta ao mundo, qual foi aquele episódio que hoje tu contas a rir, mas que na altura não teve piada absolutamente nenhuma, Miguel?
Às vezes é difícil lembrar-me de um episódio. Tenho sempre dificuldade em escolher o melhor ou pior, ou o país que mais gostei, ou esse tipo de coisas. Tive episódios como perder o passaporte e coisa assim do gênero, mas acho que ainda hoje não me consigo rir disso, para ser sincero. Foi uma chatice.
Onde é que perdeste o passaporte?
Foi quando cheguei aos Estados Unidos, em Los Angeles, e como é um aeroporto internacional, temos que mudar ali de terminal, as chegadas, e depois é preciso ir para outro. Então eu cheguei, tive o passaporte carimbado, estava finalmente nos Estados Unidos, 30 minutos depois já não tinha o passaporte.
Ei.
E depois perdi o avião, depois perdi outro avião, que estava a tentar depois ir no próximo, porque ainda tinha mais um voo.
E pronto, o que fizeste?
Eu ia na altura ter de passar uma semana com a minha namorada em Baltimore, que é perto de Washington DC, que é onde tem a embaixada portuguesa. Lá consegui ir e pedir o novo passaporte. E ao fim de uma semana, já pude continuar a viagem.
Ok, mas tiveste grandes sustos ou não, Miguel, na tua viagem de 17 meses de bicicleta pelo mundo?
Não, eu não tive assim.
És um viajante com sorte, estou a ver.
Sou, as coisas correram bem, eu acho. Eu também sou cuidadoso, acho. Ou gosto de pensar que não é só sorte.
Dizem que a sorte dá muito trabalho.
Exatamente. Sou precavido.
Mas não tiveste problemas maiores com a bicicleta? Problemas grandes?
Não, tive problemas do gênero, partir aros ou raios-
Das rodas, sim
...furos se for perder a conta. Assim problemazinhos, mas nada que me tenha impedido de continuar até à próxima loja de bicicletas ou um sítio onde eu pudesse. Eu tinha sempre sorte, não sei. Houve uma altura que parti um raio e não havia loja de bicicletas nenhuma, mas lá consegui falar com as pessoas e encontrar uma oficina que tivesse peças para me ajudar e fazer umas reparações de bicicleta. Portanto, falando com as pessoas, há sempre alguém que ajuda.
E há sempre alguém que ajuda. Ficaste muitas vezes pendurado na estrada ou não?
Não. Aliás, agora até no Canadá, por exemplo, mais recentemente, um dia cheio de lama e a transmissão deixou de funcionar completamente e passou um guarda-florestal que me deu boleia para o parque de campismo, que era mesmo ali ao lado. Mesmo quando a coisa corre mal, não acontece nada.
Tu és o viajante sonho. Toda a gente gostaria de viajar contigo, porque a ti nada te acontece.
Assim de grave, não. Acho que não tive. Houve um episódio que foi quando estava no Uzbequistão, um dia estava muito frio. Estava um frio insuportável e eu pensei: "Vou procurar um hotel, não estou a aguentar". E estava a tentar encontrar um hotel numa vilazinha no meio do nada e um senhor ofereceu-se, disse" "podes ficar em minha casa", ofereceu o seu sofá. E eu: "Está bem". E depois o que aconteceu foi que ele tinha um problema com o álcool e eventualmente começou-me a pedir dinheiro e tirou-me algum dinheiro e depois até saiu para ir beber.
Te atroubou-te.
Basicamente, sim.
Basicamente.
Foram 20 €. Não foi nada de muito grave. Lá está, mas também nunca senti, em termos da minha segurança física, nunca senti que estivesse-
Ameaçado
...ameaçado, exatamente.
Ok, muito bem. Olha, Miguel, estamos aqui a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem Então guardas contigo ou trouxeste da tua viagem algum objeto que seja especial, Miguel Figas?
Eu não tenho nenhum objeto. Para já, não costumo trazer objetos, porque é peso extra. Mas o objeto que eu queria ter trazido era o passaporte que eu perdi, que tinha os carimbos todos da viagem. E representava um bocado, porque o carimbo relembra-me sempre aquele momento de passar a fronteira, que tem alguma ansiedade, alguma excitação, algum receio. Há sempre aquele receio de como é o próximo país, se é muito diferente. Tinha sido uma boa memória, mas não faz mal.
Não faz mal. Ele há de aparecer, se calhar, um dia.
Duvido. Mas não faz mal, as memórias estão cá.
Mais nada. E vamos continuar a falar delas na segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo". Esta semana com o Miguel Figueiredo, português que acaba de regressar de uma viagem de 17 meses de bicicleta pelo mundo. Fazemos aqui uma curta pausa. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo", esta semana com o português Miguel Figueira, Figas, como é conhecido. Ele acaba de regressar de uma viagem de 17 meses de volta ao mundo, de bicicleta. Fez a Europa toda, fez a Ásia Central, depois Sudeste Asiático, a Austrália de uma ponta à outra e os Estados Unidos. Miguel, qual foi a geografia mais difícil de pedalar, de ultrapassar, enfim, nesta longa viagem?
Para mim, os dias mais difíceis eu acho que foram em Laos.
Porquê?
A qualidade das estradas, é montanhoso também, muito calor, depois a terra batida e a dificuldade em encontrar, às vezes, comida. Havia às vezes aqueles minimercados com bolachas, mas ao fim de alguns dias perde um bocado a piada.
Pois. Como é que te alimentavas nesta viagem, Miguel?
Dependia muito do sítio. Laos foi dos mais difíceis por isso mesmo, mas depois passei a fronteira pra Tailândia e a Tailândia é um dos mais fáceis, que há 7-Eleven em todo lado, extremamente turístico, fácil de encontrar, abundância em todo lado. Mas depende, na Austrália havia, às vezes, quando estava a passar o outback, no deserto no centro da Austrália, eram 200, 300 km sem ver nada, várias vezes. Só havia abastecimento a cada 200 ou 300 km e tinha de levar comida.
E sem ver nada é mesmo sem ver nada. Não havia comida, não havia água, não havia nada.
Nada.
E havia rede telemóvel?
Também não.
Isso deve ser assustador, ou não, pedalar em circunstâncias assim.
Por questões de segurança, comprei um daqueles alertas de satélite, se acontecesse alguma coisa, uma queda. Mas não me sentia muito assustado. Provavelmente, era muito mais assustador pros meus pais do que pra mim, que não conseguiam saber notícias, mas até não era muito mau. E depois, relativamente à água, como de vez em quando passam caravanas, porque eles têm muito essa cultura de ir nessas caravanas e acampar e atravessar o deserto e isso tudo. Eu pedia água. Eles quase sempre não se importam.
Muito bem. Deduzo que tenha sido uma fase da viagem muito solitária, ou não, essa do outback australiano.
Foi.
Foi a mais solitária, Miguel?
Ali foi. Na maior parte da viagem eu até conseguia fazer chamadas com a minha namorada, com os meus pais ou até com amigos. E ali não tinha essa possibilidade, nem se via ninguém. Fiz download de uns livros, uns audiobooks, uns podcasts e assim aguentava até a próxima.
E conseguias pedalar no meio do deserto australiano, ouvir podcasts e audiolivros?
Sim. Fazia download.
Tecnicamente é possível. A pergunta é: conseguias ir ali concentrado naquilo e não ouvir o que estava à tua volta? Sei lá, eu, por exemplo, eu teria medo que me aparecesse um animal pelas costas a correr e eu não andava por ele.
Sim, medo não tenho, mas às vezes Houve certas alturas que eu até fico tão distraído a ouvir o podcast e depois penso: "Será que perdi aqui alguma coisa, algum animal?" Porque às vezes dizia: "Então viste algum dingo?" As pessoas perguntavam.
Por exemplo.
E eu dizia: "Não, não vi nada". Mas se calhar não vi porque estava distraído.
Exato.
Eu passei por montes de camelos, por exemplo, mas dingos não vi nenhum.
Ok, muito bem. Qual foi o sítio mais bonito que viste nesta viagem, Miguel?
Isso é difícil. Eu gosto do fato de as paisagens serem tão diferentes entre a Austrália, aquela terra vermelha, e depois, por exemplo, o Canadá com as montanhas ou a neve. Eu diria, se calhar, o sul da China foi dos que mais marcou nesse aspeto.
O que tem para ver o sul da China, Miguel?
Aquilo tem aquelas montanhas, as pessoas normalmente até se referem como montanha tipo avatar. Eu nem sei explicar.
Aquelas montanhas bicudas e cheias de mato. É isso?
Sim, bicudas, parece que saem da terra e depois os arrozais. É incrível. Não sei descrever muito melhor daqui.
Ainda estás a digerir a viagem, não é? É normal. Chegaste há poucos dias, estiveste 17 meses longe de casa. Tiveste muitas saudades, Miguel?
Tive muitas saudades.
Houve dias em que pensaste: "Já chega. Isto está feito. Volta para casa, Miguel, e segue a tua vida." Pensaste, houve muitos dias assim?
Sim, houve alguns, especialmente agora mais para o fim, quanto mais perto estava.
Porque tu estipulaste para ti mesmo um fim, foi?
Sim, obviamente, a viagem estava um bocadinho limitada pela questão do orçamento e pela questão também de não poder estar assim tão parado.
Não podia ser a vida toda, não é?
Exato.
Mas, por exemplo, quando partiste, estabeleceste para ti mesmo um prazo ou um objetivo?
Sim, não era nada de muito fixo, mas esta ideia de seguir sempre para este e eventualmente voltar a Portugal. Portanto, eu sabia que provavelmente os Estados Unidos seria o último país da viagem e que depois iria apanhar o voo para Lisboa e seria mesmo ali as últimas pedaladas.
Exato, porque as tuas últimas pedaladas foram mesmo em Portugal, não é? Pedalaste de Lisboa até Tavira, não foi? Via Sagres.
Sim, não cheguei a ir até Sagres, fui até ali à Praia da Luz.
À Praia da Luz, sim, no concelho de Lagos. É perto.
É.
É perto. Muito bem. Qual foi o dia, Miguel, aquele dia que tu foste abaixo e quase ias desistindo?
Durante a viagem não iria ter um dia que me faria querer desistir, acho eu, mas o que aconteceu mais foi agora, estando próximo do fim, já cansado fisicamente e psicologicamente. Estava a começar o inverno e começar a ficar bastante frio nos Estados Unidos e fiz uma passagem de montanha com neve, foi até agora dos últimos vídeos que postei, partilhei. E foi bastante duro, muito frio, tudo molhado, neve a bater na cara. E foi aí que comecei a pensar: "Vou pedalar agora só até o aeroporto mais próximo e está terminada a viagem, porque já não estou a desfrutar."
Vejo. Olha, são muitos meses fora de casa, em circunstâncias muito difíceis, sozinho, disponível para os outros, disponível para o mundo. O que é que mudou em ti, Miguel, depois desta volta ao mundo?
Boa questão.
O que sentiste? Estás em Portugal há poucos dias, o que achas que já mudou em ti? Quando te deitas à noite agora e pensas: "Agora sou uma pessoa diferente por isto, isto e isto." Já pensaste nisso?
Eu acho que ainda não tive tempo para pensar nisso. Eu agora quando deito à noite penso um bocado o que é que tenho amanhã para fazer. Tenho que arrumar isto e aquilo, tenho que ir à casa dos meus pais buscar aquela caixa. E acho que ainda não tive tempo para pensar nisso.
Ainda estás a ajeitar as ideias, não é?
Sim, eu espero. Aliás, se calhar a mudança até nem é algo muito consciente. Certamente ela aconteceu e eu senti que muitas ideias mudaram, seja por ter contactado com outras culturas ou ouvido as histórias de certos países.
Pois. Desfizeste mitos?
Não percebi.
Se desfizeste mitos, Miguel, ou ideias pré-concebidas que tinhas sobre lugares e pessoas.
Sim, uma das maiores aprendizagens que tive nesta viagem foi os danos Que o Ocidente causou. Eu acho que não é muito falado, nós não falamos muito disso e se calhar temos custo a admitir, mas também não é necessariamente nosso, a maior parte se calhar até guerras com os Estados Unidos ou o colonialismo na Austrália, eu nunca tinha pensado no povo nativo da Austrália, os aborígenes. Nunca me passou pela cabeça. E tem de há grande desigualdade e há alguns problemas.
Alguns resquícios de coisas do passado, não é?
Sim, nem são resquícios, aquilo é mesmo ainda muito vivo. E lá está, nós nem pensamos nisso. Nós não pensamos nas maldades.
Estamos aqui na nossa vida, no nosso cantinho. E o mundo é muito grande. É muito grande e é muito pequenino, e tu és a prova disso. Em cima da tua bicicleta, percorreste-o quase todo. Olha, África ficou de fora, por quê?
Ficou África e ficou a América do Sul também.
Tu voaste diretamente da Austrália para os Estados Unidos, não foi?
Sim, eu comecei depois a pedalar no Canadá, para fazer a Great Divide. Mas não fiz África nem a América do Sul por seguir esta ideia de ir sempre para Este, digamos assim, mais ou menos. Eu especialmente a América do Sul gostaria de ter feito.
Então? A vida não acaba agora.
Não dá para tudo.
Está nos planos ou não? Está nos planos?
Está, mas não para um futuro próximo, se calhar.
Um dia mais tarde, não é?
Sim, naquele modelo de ir em modo férias e fazer duas semanas e depois voltar, sem grandes compromissos, acho eu.
Muito bem.
Não mais de um mês.
Não mais de um mês. Venha de lá então essa viagem. Miguel, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer checkout?
Vamos.
Vamos lá. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...
Na minha mala vai sempre o mínimo possível, mas algo que não pode falhar é as toalhitas, porque às vezes é o que uso para tomar banho.
Pois. Qual foi o máximo de dias que passaste sem tomar banho nesta viagem, Miguel? Tomar banho, depreenda-se um ducha, água corrente pelo corpo.
Se calhar até foi uma semana.
Ui.
Sim, mas lavei-me se calhar ou numa ribeira ou coisa assim do gênero. Mas sem me lavar assim, provavelmente foi três ou quatro dias.
Três ou quatro dias.
Com toalhitas.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
Essa não consigo.
Foi esta de volta ao mundo, não é?
Sim. Foi lá que tive de ser, senão dá hipótese.
Pois, exato. E qual foi a maior peripécia?
É isso, tem uma data de pequenas interações, mas não tem nada.
Então vá, uma interação engraçada, gira.
Uma interação gira.
Não precisa de ser aquela história do tipo que vai a descer a 120 em cima da sua bicicleta e fura, ou perseguido por um leão ou por uma hiena. Não precisa de ser nada disso.
Não, porque às vezes as peripécias aconteciam muito, por exemplo, na Indonésia, era aquelas interações com as pessoas, de Portugal e Ronaldo, e os miúdos ficarem todos malucos. E eu uma vez passei numa aldeia na ilha da Sumatra, uma aldeia assim porra, uma aldeia um bocado pobre, mas os miúdos, era uma carrada de miúdos atrás de mim a gritar Ronaldo, todos malucos.
Porque tu também viajavas com a camisola da seleção portuguesa, não é?
Sim, às vezes.
Às vezes.
Essa camisola.
Um bom chamariz, esse.
Sim. E mesmo na China, às vezes nunca viam um branco e ficavam fascinados.
Uau.
E depois iam chamar os amigos e os miúdos, e às vezes, eu lembro uma vez que estava à porta do hotel e estava um monte de miúdos para tirar fotografia e eles seguiram-me até dentro do hotel. O elevador estava a fechar e era um mar de miúdos à frente do hotel e as portas a fechar. "Eu só quero descansar." É engraçado, mas às tantas eu tipo: "Eita, não consigo mais isso."
Isso é giro, estás a ver? Isso é uma história engraçada. Não há muita gente no mundo que tenha vivido isso. Aliás, há poucas pessoas. Olha, o carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?
Nós temos muita sorte com o nosso passaporte. O mais difícil foi provavelmente para o Uzbequistão, porque a fronteira estava fechada, a fronteira terrestre, e não dava para passar de bicicleta. Portanto, só era possível de comboio. E o que acontecia é que não havia bilhetes. Portanto, o método ali é ir para a estação todos os dias e insistir, e eles dizem: "Não". Até que ao fim de alguns dias, já nos viram várias vezes e dizem: "Ok".
Até os cansares. É isso?
Sim, eu pensei: "Cá pra mim, eles fazem isso de propósito pra nós passarmos ali umas noites", ali na terra. Na altura até estava com outro ciclista francês que conheci na viagem e eles disseram: "Vão falar com os militares que controlam a fronteira". E eles é que nos desenrascaram e meteram-nos dentro. Depois até nos meteram ao lado da zona onde carimbavam os passaportes, nós estávamos mesmo sentados com eles, não sei muito bem porquê. E o tratamento que nós tivemos depois foi quase como realeza. Nós sentimos que estávamos a ser muito bem tratados comparado com os outros. Até nos estávamos a sentir um bocado mal.
A recordação de viagem mais cara, qual foi?
Como assim?
Mais cara, ou seja, onde é que gastaste mais dinheiro?
Eu gastei mais dinheiro foi nos arranjos da bicicleta, provavelmente.
Tiveste muitas falhas mecânicas?
Sim, aros e coisas assim do gênero. Não tenho assim nada muito feliz para contar.
Ok. A refeição mais estranha, qual foi?
Eu acho que o ovo fertilizado no Vietname leva a medalha.
Ovo fertilizado?
Um ovo fertilizado.
Já sei, é aquele ovo que na verdade é um pinto.
É um embrião. Uma mistura. Mas aquilo é bom.
É bom?
Não é mau.
Pronto. Não me convides para almoçar. Olha, Miguel, gostavas de viajar com?
Em termos de companhia?
Por exemplo.
Eu gostava de viajar com um amigo ou com a minha namorada, mas eu acho que não a vou conseguir convencer. De bicicleta. Estou a falar de bicicleta. Mas não sei.
Muito bem. Já voltaste a pegar na bicicleta desde que chegaste?
Claro. Eu não me canso de andar de bicicleta.
Gostas. Qual é o prazer que tiras de andar de bicicleta?
É tudo. Aqui, por exemplo, na serra algarvia, adoro os cheiros e no meio da serra é incrível. E mesmo treinar e esforçar-me e até tirar algum prazer disso, do sofrimento.
Ok, pronto, muito bem. Olha, Miguel, chegamos ao fim. Qual foi a música que escolheste?
Eu escolhi António, "Variações do Além".
Boa, porquê esta música? Acompanhou-te na viagem ou não?
Ouvi-a algumas vezes, mas eu acho que é mais pela letra e reflete um bocado aquela sensação de "estou bem onde eu não estou". Às vezes estamos lá fora e temos saudades de casa, e depois estamos aqui e queremos ir viajar e nunca estamos bem. É essa sensação de ansiedade.
De ansiedade. Tu és um eterno insatisfeito, Miguel Figueira?
Sim, eu acho que somos todos um pouco. Espero não ser o único.
Há uns mais do que outros.
Eu acho que somos todos, um bocado.
Muito bem. Olha, Miguel, foi um gosto, muito obrigado. Venham de lá muitas viagens de bicicleta. Agenda lá isso. África e América do Sul, um mês de cada vez.
Tenho que fazer.
Tens que fazer. Mas agora descansa, porque foram 17 meses a pedalar, com algumas pausas pelo meio. Miguel, uma vez mais, muito obrigado.
Obrigado pelo convite.
António e "Variações" a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso todas as oito dias, já sabem. Sejam bons e boas viagens.
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