O que está acontecendo na França? Protestos terminam em saques e 1.800 prisões
A França amanheceu neste domingo, 18, com ruas destruídas, lojas saqueadas e carros incendiados após uma onda de protestos contra o alto custo de vida. Os distúrbios ocorreram em Paris e em outras cidades do país, como Marselha, Bordeaux, Nice e Estrasburgo, e resultaram em pelo menos 1.800 detenções, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
Os confrontos aumentaram a pressão sobre o presidente francês, Emmanuel Macron, que enfrenta uma série de manifestações sociais e estudantis. O governo prometeu identificar e punir os responsáveis pelos atos de vandalismo.
Aucune place pour la violence dans notre République.
Ceux qui ont cassé, attaqué les préfectures comme les commerces, pillé jusqu’à nos mairies, seront poursuivis et punis.
Aux forces de l’ordre, garantes du droit à manifester, je dis le soutien de la Nation.
Nous ferons tous bloc face aux semeurs de chaos, qui ne cherchent qu’à abattre nos institutions et empêchent ceux qui expriment pacifiquement leurs revendications de le faire.
— Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) October 17, 2026
Por que há protestos na França?
As manifestações foram convocadas sob o lema "Amarelos e Jovens", em referência ao movimento dos coletes amarelos, que mobilizou o país em 2018 e 2019 contra o aumento previsto de um imposto sobre combustíveis.
O protesto deste sábado, 17, reuniu entre 550 mil e 800 mil pessoas, segundo estimativas das autoridades francesas e da principal central sindical do país, a CGT, respectivamente.
A principal reivindicação é a alta do custo de vida, impulsionada, entre outros fatores, pelo encarecimento dos combustíveis e pela inflação. O movimento reuniu diferentes grupos, incluindo jovens, agricultores, professores, aposentados, ativistas climáticos e integrantes dos coletes amarelos.

Policiais patrulham diante de loja com vitrine quebrada em Lyon, na França: protestos contra o alto custo de vida terminam em saques e confrontos (JEFF PACHOUD / AFP)
O que aconteceu nos protestos?
Embora parte das manifestações tenha ocorrido pacificamente, grupos de jovens entraram em confronto com a polícia, incendiaram veículos e saquearam estabelecimentos comerciais.
Em Paris, lojas foram invadidas e vitrines destruídas. As autoridades também registraram danos em edifícios públicos e barricadas incendiadas. Na cidade de Limoges, no centro-oeste francês, um incêndio destruiu a prefeitura, um prédio histórico do século XIX.
Segundo a Federação de Comércio e Distribuição, pelo menos 1.500 estabelecimentos comerciais foram danificados em todo o país.
A violência também deixou feridos. De acordo com o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, 150 policiais e gendarmes ficaram feridos. Em Saint-Étienne, um jovem de 17 anos perdeu uma das mãos após a explosão de uma granada lançada pelas forças de segurança.

Destroços de veículo incendiado diante da prefeitura de Limoges, na França: prédio histórico foi atingido por incêndio durante onda de violência após protestos contra o alto custo de vida (PASCAL LACHENAUD / AFP)
Quantas pessoas foram presas na França?
Pelo menos 1.800 pessoas foram detidas em todo o país, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. Em Paris, a polícia registrou 855 detenções, um número recorde, de acordo com as autoridades.
Na capital, mais de 500 pessoas continuavam detidas neste domingo, incluindo 171 menores de idade, segundo a Promotoria local. Em Lyon, a terceira cidade mais populosa da França, foram registradas 160 detenções.
As autoridades afirmaram que as investigações continuam para identificar os responsáveis pelos atos de violência e levá-los à Justiça.

Prefeito de Nice, Eric Ciotti, passa diante de loja danificada na avenida Jean-Médecin: protestos contra o alto custo de vida provocaram saques e depredações na França (Valery HACHE / AFP)
O que dizem Macron e os partidos políticos?
Macron condenou os ataques e afirmou que os responsáveis pela destruição de edifícios públicos e estabelecimentos comerciais serão identificados e punidos.
O governo e a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, atribuíram a violência a grupos de extrema esquerda. O partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), que apoiou as mobilizações, negou responsabilidade pelos saques e criticou a atuação policial.
A vice-prefeita socialista de Paris, Lamia El Aaraje, por sua vez, acusou o partido de Le Pen de explorar as tensões para fortalecer suas ambições eleitorais.
A crise ocorre a seis meses das eleições presidenciais francesas, em um contexto de pressão sobre o governo e de disputa política em torno das reivindicações sociais.

Vitrine de loja destruída em Lyon, na França: onda de protestos contra o alto custo de vida termina em saques, incêndios e confrontos com a polícia (JEFF PACHOUD / AFP)
O que Trump disse sobre a França?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, associou os distúrbios à imigração e pediu que o governo francês endureça as regras migratórias.
Em publicação na plataforma Truth Social neste domingo, 18, Trump afirmou que a França estava "em chamas" e atribuiu a violência à chegada de imigrantes. Ele também pediu o fechamento das fronteiras e a retomada do controle migratório pelo país.
As declarações foram feitas enquanto as autoridades francesas avaliavam os danos causados pelos confrontos e os trabalhos de limpeza avançavam nas áreas atingidas.

Inscrição contra a polícia em loja da Dior em Paris: protestos contra o alto custo de vida terminam em confrontos na França (Matthieu RONDEL / AFP)
Qual é o impacto dos protestos para a França?
Além dos danos a estabelecimentos comerciais e prédios públicos, a violência ameaça afetar a imagem do país como destino turístico.

Funcionários municipais limpam ruas de Paris após protestos contra o alto custo de vida: manifestações terminaram em saques, incêndios e confrontos na França (Matthieu RONDEL / AFP)
Em Paris, moradores e comerciantes relataram medo durante os confrontos. Na manhã deste domingo, ruas próximas à praça da République ainda apresentavam vestígios de gás lacrimogêneo, vitrines quebradas, lixo e veículos carbonizados.
O episódio também amplia a pressão política sobre Macron, que precisa lidar com as reivindicações relacionadas ao custo de vida e com os efeitos da violência em meio à preparação do orçamento francês de 2027.
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