Lula terá dificuldades no Congresso em 2027 com maioria de centro-direita, diz estudo
RESUMO +
O presidente Lula (PT), reeleito para um quarto mandato, terá de negociar com um Congresso de maioria de direita e centro-direita a partir de 2027. Segundo estudo da ARX Investimentos, esses campos reunirão 56,9% dos deputados e 63% dos senadores. Para o economista-chefe Gabriel Barros, as divergências na agenda econômica poderão dificultar a relação entre o governo e o Legislativo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito para um quarto mandato, terá pela frente um Congresso Nacional de maioria de direita e centro-direita a partir de 2027, cenário que poderá dificultar a aprovação de propostas do governo e ampliar a necessidade de negociações políticas.
Segundo levantamento da ARX Investimentos, esses dois campos ideológicos terão 292 dos 513 deputados federais, o equivalente a 56,9% da Câmara, e 51 dos 81 senadores, ou 63% do Senado.
O estudo mostra que o PL, partido de Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno, terá a maior bancada nas duas Casas, com 121 deputados e 29 senadores. O PT elegeu 70 deputados e deverá contar com dez senadores, segundo atualização divulgada pelo Senado.
Na Câmara, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, somará 88 cadeiras, ou 17,2% do total.
Para Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, a nova composição parlamentar tende a tornar mais complexa a relação entre o governo e o Legislativo, especialmente nas discussões econômicas.
“Com a composição mais orientada para partidos de centro e centro-direita, a relação com o governo promete ser tensa pela já conhecida incongruência de pauta econômica, pelo menos”, afirma.
A análise integra o estudo “Presidencialismo de Coalizão: o novo Congresso e a formação de maiorias”, elaborado por Barros, Cléo Olimpio, Matheus Caliano e Eric Fernandes.
O levantamento considera a distribuição partidária após as eleições, a composição ideológica das bancadas e os votos necessários para aprovar propostas no Congresso.
Governo Lula dependerá de alianças com partidos de centro
A distribuição ideológica apresentada pela ARX mostra que a esquerda terá 95 deputados, o equivalente a 18,5% da Câmara, enquanto a centro-esquerda contará com 31 parlamentares, ou 6%. O centro reunirá outros 95 deputados, e a centro-direita e a direita terão, respectivamente, 155 e 137 representantes.
Mesmo que esquerda, centro-esquerda e centro votassem juntos, alcançariam 221 deputados, número inferior aos 257 necessários para formar maioria absoluta na Câmara.
No Senado, a diferença também é significativa. Esquerda e centro-esquerda somarão 15 parlamentares, enquanto o centro terá outros 15. Juntos, os três campos alcançariam 30 votos, abaixo dos 41 exigidos para a maioria absoluta.
Os dados indicam a necessidade de acordos com legendas classificadas como de centro-direita ou direita para alcançar determinados quóruns, mas não significam que esses partidos atuarão automaticamente como oposição ao governo.
Na Câmara, os 292 deputados de direita e centro-direita também não serão suficientes, isoladamente, para aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC), que exige 308 votos em dois turnos. No Senado, os 51 parlamentares desses campos superariam o quórum de 49 votos.
A composição ideológica é uma classificação adotada pelos autores do estudo e não representa necessariamente o comportamento dos parlamentares em cada votação.
PL terá maior bancada e fragmentação partidária diminuirá
O resultado das eleições de 2026 consolidou o PL como a maior legenda individual do Congresso. Na Câmara, seus 121 deputados representarão 23,6% das cadeiras, seguidos pelo PT, com 70 (13,6%), União Brasil, com 46 (9%), PSD, com 43 (8,4%), e Republicanos e PP, ambos com 41 (8%).
No Senado, o PL concentrará 29 das 81 cadeiras, o equivalente a 35,8% do total. O resultado amplia o peso da legenda nas negociações e votações parlamentares.
O estudo também aponta uma redução da fragmentação partidária, indicador que considera a distribuição proporcional de cadeiras entre partidos e federações.
Na Câmara, o número efetivo de bancadas e federações passou de 7,78, em 2022, para 7,25, após as eleições de 2026. No Senado, o indicador caiu de 8,21 para 5,74.
A participação da maior bancada no Senado aumentou de 19,8% para 35,8%, enquanto o peso das três maiores passou de 48,1% para 56,8%.
Na Câmara, a concentração das três maiores bancadas ou federações subiu de 55,4% para 57,7%.
Embora o número de grupos partidários representados tenha aumentado nas duas Casas, os indicadores mostram uma concentração maior de cadeiras nas principais forças políticas.
Força dos partidos no Nordeste pode facilitar negociações de Lula
A distribuição regional das bancadas pode ser um fator favorável ao presidente Lula nas negociações com o novo Congresso. Segundo o estudo da ARX, o Nordeste concentra parte expressiva dos deputados de partidos de centro e centro-direita, incluindo legendas que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial.
Na Câmara, a região reúne 41,9% dos deputados do PSD, 36,6% dos representantes do PP, 36,1% da bancada do MDB e 34,8% dos parlamentares do União Brasil. No PSB, a concentração chega a 66,7%.
O peso regional dessas bancadas pode abrir espaço para acordos com parlamentares de partidos que não integram formalmente a base governista. Durante a campanha presidencial, as divisões internas dessas legendas mostraram que os alinhamentos políticos nacionais nem sempre se repetem nos estados.
O exemplo mais evidente foi o MDB. Embora 17 diretórios estaduais tenham apoiado Flávio Bolsonaro no segundo turno, outros dez, localizados no Norte e no Nordeste, declararam apoio à reeleição de Lula. Entre eles estavam os diretórios da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, de Alagoas e do Maranhão.
A divisão do MDB mostra que o apoio de uma legenda à oposição na disputa presidencial não significa necessariamente alinhamento de todos os seus parlamentares contra o governo no Congresso.
A capacidade de transformar essas relações regionais em votos dependerá, porém, das negociações com as lideranças partidárias e da posição dos parlamentares em cada proposta. O apoio eleitoral de um diretório estadual não garante adesão automática à agenda do Executivo.
Economista vê riscos de tensão na relação entre Executivo e Legislativo
Para Gabriel Barros, a nova composição do Congresso representa um desafio para a condução da agenda econômica e para a articulação política do governo Lula.
O economista também associa esse cenário às tensões institucionais observadas nos últimos anos e durante o período eleitoral.
“É preciso restaurar as instituições e a harmonia econômica, mas a expectativa de que isso seja feito é baixa”, afirma.
Barros avalia que a composição parlamentar, por si só, não garante uma atuação coordenada dos partidos que ampliaram sua representação.
“O que me parece que pode impactar a diretriz da agenda dos partidos vencedores no Congresso Nacional é a falta de clareza, estratégia e erros de execução”, diz.
O economista também menciona o risco de fisiologismo, prática caracterizada pela troca de apoio político por cargos, recursos ou benefícios, em detrimento de compromissos programáticos.
Sobre a eventual ausência do país do candidato derrotado na eleição presidencial, Barros avalia que essa circunstância não impediria a articulação da oposição, embora pudesse tornar as negociações menos fluidas.
A nova composição parlamentar evidencia o desafio do chamado presidencialismo de coalizão, modelo em que o presidente precisa negociar com diferentes partidos para formar maiorias legislativas.
Para Lula, a aprovação de propostas no quarto mandato dependerá não apenas do apoio das legendas de esquerda e centro-esquerda, mas também da construção de acordos com partidos de centro e de outros campos políticos.
Perguntas frequentes
Por que Lula poderá enfrentar dificuldades no Congresso em 2027? +
Segundo estudo da ARX Investimentos, direita e centro-direita terão 292 deputados (56,9% da Câmara) e 51 senadores (63% do Senado). Essa composição poderá exigir do governo Lula negociações mais amplas para aprovar propostas, especialmente na agenda econômica.
Qual partido terá a maior bancada no Congresso em 2027? +
O PL terá a maior bancada individual nas duas Casas, com 121 deputados federais, equivalentes a 23,6% da Câmara, e 29 senadores, ou 35,8% do Senado.
Quantos deputados o PT terá em 2027? +
O PT elegeu 70 deputados federais. Somados aos 11 do PCdoB e aos sete do PV, partidos que integram a Federação Brasil da Esperança, serão 88 parlamentares, equivalentes a 17,2% da Câmara.
Direita e centro-direita poderão aprovar uma PEC sozinhas? +
Na Câmara, os dois campos somam 292 deputados, 16 a menos que os 308 necessários para aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC). No Senado, os 51 parlamentares superam o quórum de 49 votos. Esses cálculos pressupõem que todos votem de maneira alinhada.
O que é presidencialismo de coalizão? +
É a dinâmica política em que o presidente da República precisa negociar alianças com diferentes partidos para formar maiorias no Congresso e aprovar propostas. No Brasil, essas negociações envolvem partidos que nem sempre compartilham as mesmas posições políticas e econômicas.
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