30 anos depois, o que falta explicar sobre a morte de Tupac?

Com a intensificação das hostilidades, ambas as editoras começaram a mobilizar gangues rivais, que atuavam na Califórnia. A Death Row tinha a proteção dos Mob Piru Bloods e a Bad Boy dos South Side Compton Crips, que promoviam a segurança dos respetivos rappers e produtores sempre que viajavam para a costa “inimiga”. Duane Davis era membro do segundo gangue.
Morte de Tupac e a condenação de Davis
No dia 7 de setembro, os dois lados da disputa marcaram presença no mesmo evento, em Las Vegas: um combate entre os lutadores de boxe Mike Tyson e Bruce Seldon. Segundo declarações prestadas por Davis, Tupac e Suge Knight espancaram o seu sobrinho, Orlando Anderson, no dia anterior — o que foi comprovado em tribunal através das imagens de videovigilância do local.
“O facto de terem atacado o meu sobrinho, deu-nos luz verde para dar cabo deles. O [Tu]Pac meteu-se no jogo errado”, escreveu Davis no livro de memórias Compton Street Legend (2019), no qual relata este e outros episódios relacionados com as lutas entre gangues e a oposição entre as costas Este e Oeste. O The New York Times dá conta de que Davis adquiriu uma pistola Glock e juntou um grupo de gangsters com o objetivo de “ensinar uma lição” a Tupac e ao seu produtor.
O confronto fatal aconteceu quando o par da Death Row esperava pela mudança de luz de um semáforo na Las Vegas Strip, uma das principais avenidas da cidade. Dentro de um Cadillac branco — que nunca foi descoberto pelas autoridades, assim como a arma do crime —, Davis e outros três membros dos Compton Crips encostaram ao BMW preto que transportava Tupac e Knight. Uma rajada de balas proveniente dos bancos de trás atingiu a dupla, sendo que quatro dos projéteis ficaram incrustados no corpo do rapper — imediatamente transportado para os cuidados intensivos do University Medical Center, onde acabou por morrer de insuficiência respiratória e paragem cardíaca seis dias depois.
NY Daily News via Getty Images
Dos quatro ocupantes do Cadillac, nenhum está vivo à exceção de Davis. Segundo declarações que o condenado prestou à polícia, foi o seu sobrinho, Orlando Anderson, quem abriu fogo contra o BMW, apesar de este sempre ter negado o envolvimento no crime até à data da sua morte, em 1998, num tiroteio entre gangues não relacionado. Outros testemunhos sugerem que foi um segundo homem, Deandrae Smith, também ele passageiro do veículo, quem disparou os tiros fatais.
Com base nas provas apresentadas no tribunal, o juiz Carli Kierny declarou Davis culpado de ordenar o atentado em Las Vegas e de providenciar a arma de fogo utilizada. Após a condenação desta segunda-feira, segue-se a decisão da justiça sobre a sentença a aplicar (agendada para dia 13 de outubro), que, de acordo com a legislação em vigor no Nevada para homicídio qualificado, pode oscilar entre os 40 anos e a prisão perpétua. Num estado onde a pena capital é permitida, a possibilidade foi excluída pelos procuradores encarregados do caso, que também abandonaram voluntariamente a iniciativa de agravar a pena de Davis por pertencer a um gangue.
Após 30 anos de investigação, todos os caminhos conduzem a Duane Davis
Pode dizer-se que Duane Davis cavou a própria sepultura. Segundo o procurador Marc di Giacomo, envolvido no processo e citado pelo The New York Times, “se ele nunca tivesse decidido pegar no dinheiro, dirigir-se à BET [editora da Black Entertainment Television] e falar sobre a sua situação, se ele nunca tivesse decidido escrever o livro, provavelmente jamais teria sido acusado do crime“.
Mas os investigadores começaram a suspeitar de Davis muito antes do lançamento de Compton Street Legend, em 2019. Em 2008, o sujeito agora condenado foi interrogado pela polícia na sequência de um caso de tráfico de droga, pelo qual podia receber prisão perpétua. Na altura, o gangster fez um acordo com as autoridades e tornou-se informador da polícia, a fim de se esquivar de subsequentes acusações criminais — à época, Davis já tinha um cadastro preenchido e uma vasta experiência no cárcere.
Nessa circunstância, contou aos investigadores que o homicídio de Tupac não resultou de um mero conflito entre gangues, mas de um pedido explícito de Sean Combs, conhecido como Diddy, que rejeitou completa e terminantemente as acusações. “O mal-entendido existe porque, como somos jovens e negros, lidamos com estes assuntos de forma diferente”, disse Combs numa entrevista de televisão que deu em 1998.
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