Psicologia do protesto

Talvez o mais misterioso no meio destes acampamentos atribulados, das conchinhas em que se aninham humanos, quais Vénus de Botticellis, e dos polícias a jogar bilhar de cabeça, seja a facilidade com que damos por adquirido o sentido de tudo aquilo.
Porque a verdade é que protestar na rua pela habitação é absolutamente contra-intuitivo. Não é só absurdo, ou despropositado, daquela maneira que diverte sempre os que estão contra os protestos. Claro que é possível gozar com a situação, encontrar os abencerragens que correspondem aos estereótipos que esperamos ver nestas alcabelas, perguntar se será boa ideia mostrar tanto entusiasmo por dormir ao relento quando se luta por um tecto, e coisas deste género; mas há um lado que parece ainda mais incompreensível do que esse.
Basta andar na rua, falar com um leque de anónimos ao acaso, para perceber a repulsa que os protestos e os desacatos provocam nas pessoas. Gente capaz de concordar com as razões do protesto, mas que se apressa a ressalvar que “não concorda” com a maneira de lidar com a situação, com a maquilhagem do Dom Pedro, com a desobediência. Mesmo uma passagem pela basta literatura sobre o assunto que já apareceu nos últimos dias mostra que a contundência, a agressividade, as exibições mais despudoradas de radicalismo político são precisamente o que indigna quem se indigna com os protestos. Diante disso, a grande pergunta que surge é exactamente essa: para quê, então, os protestos? Não se vislumbra uma consequência directa que motivasse o protesto, mesmo contra a simpatia popular; não consta que cada cartaz com uma graçola anti-sistema valha também como cupão de desconto numa barraquinha da remax; ninguém vai conseguir casas por protestar, senão de uma maneira indirecta. Podemos dizer que o protesto alerta para o problema, que pode criar uma vaga de pressão que obrigue o governo a agir, sim; mas quando o povo manifestamente não gosta de manifestações (França que o diga, com a subida imediata do RN), para que é que servem estes protestos?
Ora, o que nos parece é que os protestos só fazem sentido dentro de uma lógica muito própria, que é talvez difícil de perceber. Ao homem comum não parece que os protestos favoreçam a causa da habitação, pode ser óbvio que havia maneiras melhores e mais eficazes de fazer as coisas e pode até parecer que a misturada de tintas, bandeiras, sangue e crustáceos afasta muita gente; mas o manifestante não é um homem comum. É um homem com uma psicologia diferente, e está interessado noutras coisas, coisas que só o protesto serve.
O protesto, enquanto tal, não serve a causa da habitação, nem das escolas melhores, nem do pretexto qualquer específico que aparecer na altura. A única coisa que pode beneficiar de protestos deste tipo é a extrema-esquerda, e esse benefício nem é eleitoral, é dentro de um quadro que só a extrema-esquerda valoriza.
O que estes protestos representam, para a extrema-esquerda, é a esperança de ver surgir alguém capaz de enfrentar o veneno que neutralizou a esquerda ao longo de todo o século XX, o veneno do conforto. A extrema-esquerda não foi derrotada pela direita, pelo fascismo, pelos exércitos americanos ou na corrida atómica; foi derrotada por frigoríficos e casas simpáticas, que neutralizaram o capital reivindicativo que a esquerda estava habituada a encontrar no povo. A esquerda surgiu numa posição fácil – lutar pelas liberdades, pela justiça social, por tudo o que nos parece imediatamente, e sem pensar muito, certo – mas tornou-se, ao longo do século XX, um sacrifício. O próprio Marx percebeu o problema: por muito que disséssemos que a mais-valia vinha do trabalho e que, portanto, um trabalhador do capitalismo, com carro e um bom ordenado, é mais explorado do que o pobre camponês dono dos seus meios de produção, a verdade é que o mundo não se importa de ser explorado em troca de um Audi.
Ser de esquerda tornou-se, no nosso tempo, contra-intuitivo e difícil: obriga a recusar o que parece imediatamente melhor, mais prático, mais confortável, pelo que a verdadeira esquerda vive da esperança nestes momentos: crises, mais ou menos graves, mais ou menos duradouras, que acordem o povo, que lhe mostrem que está na verdade a ser explorado, e que os sacrifícios valem mais do que o conforto, ou que esse conforto na verdade já não existe. É a crença de que de um desajolado sairá um esquerdista. Manifestações com polícia e violência são, assim, uma luz e uma esperança para esta esquerda: um sinal de que surge alguém capaz de abdicar do conforto. Estas manifestações não servem para captar a simpatia popular. Dessa, a esquerda sabe que já não pode esperar nada, pelo menos enquanto houver alguma coisa a que o homem se possa agarrar.
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