Lídia Jorge une leitores portugueses e chineses

A tradutora chinesa de “Misericórdia“, Han Lili, considera que Lídia Jorge aborda temas que falam diretamente aos leitores na China, como o envelhecimento, e que a “mestria literária” da autora permite anular distâncias geográficas e culturais.
À noite, Han Lili voltava sempre ao texto, para o rever e polir. Queria preservar a força da escrita de Lídia Jorge – delicada, embora atravessada por “um toque afiado”. No processo de revisão de “Misericórdia” (D. Quixote, 2022), lembra agora a tradutora em entrevista à Lusa, foram várias as vezes que selecionou aquelas que considerava serem as melhores linhas da obra, para de novo transformá-las.
“Tentei transmitir na escrita esse toque afiado, dentro de um rio muito suave. Tentei, por vezes, picar os leitores”, nota a tradutora da versão chinesa do mais recente livro de Lídia Jorge, lançado em agosto, em Xangai, pela editora Century Wenjing.
A obra percorre o último ano de vida de Maria Alberta (ou dona Alberti) num lar de terceira idade, na sombra da Covid-19. Em estrutura de diário, o romance atende a um pedido da mãe da autora, que, internada numa instituição para idosos, lhe pediu que escrevesse um livro intitulado “Misericórdia“.
À primeira leitura, Han Lili sentiu-se “em sintonia” com a expressão literária da autora. Destaca também o poder reparador da narradora-protagonista – “não sou tão cínica como Alberti, mas um cinismo construtivo poderá ser uma cura para nos proteger”.
Toda a humanidade cabe dentro deste ‘Hotel Paraíso’, diz. Aí convergem as sete dezenas de habitantes temporários, aqueles que veem o tempo esgotar-se, e ainda os que aí trabalham, os cuidadores, muitos deles trabalhadores migrantes, e que vivem “em situação miserável“.
“É, aliás, uma voz feminista, com a qual me identifico”, assume Han.
Lídia Jorge trabalha temas que falam à sociedade chinesa. Han Lili diz que, apesar de Portugal e a China viverem contextos culturais distintos, nomeadamente no que diz respeito às expectativas familiares, ao dever dos descendentes e à forma como a sociedade lida com o envelhecimento, “existem pontes universais que sobrepõem essas diferenças”.
O ponto de união mais forte, observa, é a própria condição humana e a urgência do tema do envelhecimento. A terceira idade tornou-se “um debate central e premente na China”, explica a também professora da Universidade Politécnica de Macau.
“Se existe um ponto de afastamento ou de estranheza inicial, este residirá talvez nas diferentes matrizes socioculturais do acolhimento aos idosos. Na tradição chinesa, o conceito de piedade filial ainda carrega uma forte expectativa de recolhimento no seio familiar intergeracional”, completa, notando, porém, que hoje a situação está a mudar.
A “mestria literária” de Lídia Jorge tem a capacidade de “anular distâncias geográficas e culturais, permitindo que um leitor na China ou em Portugal se comova exatamente com as mesmas inquietações”, considera Han Lili, natural da província de Heilongjiang, nordeste chinês, e a viver em Macau há mais de 20 anos.
Mas a obra chegou às mãos da académica repleta de provações, algumas em forma de poesia, outras relacionadas com técnicas de tradução.
As passagens dedicadas às insónias da protagonista representaram um “desafio colossal”, lembra. No texto original, a autora recorre à personificação, referindo-se à “insónia” ou à “noite” através do pronome pessoal feminino “ela”. No entanto, em determinados momentos, a presença simultânea da filha de dona Alberti tornava difícil para o leitor perceber se o “ela” se referia à figura humana ou à entidade abstrata da noite/insónia.
“Vi-me na contingência de optar pela forma neutra [da terceira pessoa do singular; usada por exemplo para animais] ao longo de todo o romance — sacrificando, com algum pesar, a personificação feminina, embora continue convicta de que esta última seria a solução estilisticamente mais rica e bela para a tradução”, conta.
Um momento que marcou Han Lili foi quando a protagonista entra em greve de fome, num derradeiro ato de resistência, desencadeado por uma sequência de perdas. Numa época em que a privação alimentar está muitas vezes associada a objetivos estéticos, Han Lili considera que Lídia Jorge transforma a fome num gesto de dignidade — “o único território onde a idosa pode gritar a sua liberdade”.
Passar a obra e estas reflexões para o chinês, e para uma geografia tão distante, serviu vários propósitos, admite a académica, seja ao nível da capacidade vocabular como da própria forma de olhar para o ato de envelhecer.
“Ao testemunhar através do texto a resiliência intransigente de uma idosa de noventa anos, que mesmo no limite das suas forças recusa render-se (…), compreendi que todas as provações e tormentos que enfrentamos na vida não são em vão: servem como experiências de aprendizagem que nos temperam o espírito e nos permitem ascender ao sublime”, refere.
E é uma obra que vive, sim, de esperança. Um sentimento que talvez perpasse de forma mais óbvia na capa da versão chinesa, batizada com o título “Tão pequeno é o cuco, tão orgulhoso ao anunciar a chegada da primavera”.
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