Flávio Bolsonaro sobrevive a escândalos e se alavanca no STF em eleição para vingar o pai
Escalado para vingar o pai, Jair Bolsonaro (PL), nas urnas e na Justiça, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45, chega ao primeiro turno neste domingo (4) empatado tecnicamente com o presidente Lula (PT) após ter sobrevivido, ao menos por ora, a escândalos passados e recentes, como sua relação com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
A escolha de Flávio, feita para manter o poder político dentro do clã, foi recebida com descrédito na direita e no centrão. O PT chegou a ver vantagem em disputar com o "filho 01" por acreditar que ele não seria competitivo. Hoje, porém, aliados do senador celebram o que veem como resiliência, ainda que admitam que boa parte de sua força é reflexo do antipetismo.
Para o candidato do PL, o adversário nesta eleição não era apenas Lula, mas seus "amigos no Judiciário", em referência sobretudo aos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, acusados pelo bolsonarismo de rasgar o direito para beneficiar o petismo.
Se, por um lado, decisões judiciais foram apontadas por Flávio como prejudiciais, como no debate cancelado pela TV Globo, por outro, a crise ética sem precedentes que eclodiu no STF, com Moraes e outros ministros acusados de envolvimento com Vorcaro, serviu para alavancar seu discurso antissistema e tirá-lo das cordas pelo caso "Dark Horse".
A eleição agravou a divisão interna do STF. Em relação à ala que seus aliados consideram lulista, Flávio não escondeu seu objetivo de eleger maioria no Senado para promover impeachment. Ao mesmo tempo, ignorou a ligação de Vorcaro com ele próprio e com os escolhidos pelo seu pai para a corte: Kassio Nunes e André Mendonça.
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No seu programa eleitoral, Flávio afirmou que Lula "decidiu governar ao lado de uma parte do Supremo Tribunal Federal que descumpriu a lei".
Na quinta-feira (1º), seguindo a estratégia de voto útil na reta final, pediu: "Me dê seu voto de revolta. Com todo respeito aos outros concorrentes, somente Flávio Bolsonaro tem condições de vencer o Lula já no primeiro turno".
Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado mostra o senador empatado tecnicamente com Lula. O atual presidente registra 45% das intenções de votos válidos, ante 42% de Flávio. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou menos.
A candidatura de Flávio foi selada em dezembro de 2025 dentro da prisão na Polícia Federal, onde o ex-presidente começava a cumprir sua pena por tentativa de golpe de Estado após a derrota de 2022.
A partir daí, Flávio insistiu na figura do "Bolsonaro moderado", num difícil equilíbrio entre se livrar da rejeição do pai sem perder a mobilização da direita radical. Na mesma semana em que anunciou ter sido escolhido candidato, o senador se definiu como o "Bolsonaro vacinado", em oposição ao ex-presidente negacionista da pandemia de Covid-19.
Na tentativa de se firmar como um democrata, Flávio também aprimorou a tática bolsonarista de descredibilizar o Supremo, desta vez fustigando ministros específicos, em vez da instituição, e associando sua ruína moral a Lula.
Apesar de tentar apontar diferenças com Bolsonaro, Flávio buscou se colocar como seu principal herdeiro político e recorreu a marcas deixadas por ele, como a estética verde e amarela, as lives semanais e as motociatas.
Na campanha, levantou dúvidas sobre as urnas, negou o aquecimento global e deu seguimento à subserviência do pai em relação aos Estados Unidos de Donald Trump, enquanto cresce o receio de intervenção americana na eleição.
A plataforma política do grupo também foi exposta nas promessas de Flávio de conceder perdão aos condenados pelo ataque golpista de 8 de Janeiro, em especial a seu pai, e "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo".
Integrantes da campanha apontam o boato em torno da retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida como um baque tão duro quanto o escândalo do filme "Dark Horse" em homenagem a Bolsonaro.
Em maio, a revelação pelo site The Intercept de que Flávio pediu a Vorcaro dinheiro para bancar a produção americana atingiu o senador quando sua pré-campanha ainda estava desacreditada, isolada e sob alvo de fogo amigo.
A suspeita da Polícia Federal de que essa verba tenha sido desviada para financiar a vida do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA levou a operações contra os envolvidos no filme e pôs Flávio, que chamava Vorcaro de irmão, na condição de investigado em inquérito no STF.
A revelação interrompeu a trajetória de alta de Flávio nas pesquisas e transformou a convenção do PL, em julho, em uma linha de chegada diante da ameaça de que sua candidatura não resistisse.
A decisão de Bolsonaro, inelegível, de escolher o filho para substituí-lo em vez de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ou Michelle Bolsonaro (PL) voltou a ser questionada. Em reação, o governador e ex-primeira-dama se restringiram a um apoio protocolar a Flávio.
O senador passou a campanha assombrado pelo rumor de que viriam à tona imagens íntimas e por antigas acusações, como a denúncia de rachadinha operada por Fabrício Queiroz, a compra de imóveis com dinheiro vivo e a homenagem ao miliciano Adriano da Nóbrega.
Michelle ainda expôs os conflitos familiares e políticos do bolsonarismo ao dizer que havia sido maltratada e desrespeitada pelo enteado. Para tentar diminuir a rejeição do eleitorado feminino, agravada pela madrasta, Flávio precisou reforçar o papel da mulher, Fernanda Bolsonaro, e o dele próprio como "pai de menina".
A campanha de Flávio também buscou durante meses uma candidata a vice mulher para minimizar a acusação de machismo.
Os partidos do centrão, porém, rejeitaram se coligar com o PL e restou a Flávio uma chapa isolada com o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice —escolhido de última hora pelo papel de "justiceiro" contra a farra de descontos ilegais no INSS e pelas acusações contra Lulinha.
Flávio também se propôs a falar do "Brasil real" para criticar o governo federal não só pela segurança pública, mas também pelo endividamento das famílias —sem explicar o que ele próprio fará com as bets, em caso de vitória.
A rejeição do governo Lula 3 favoreceu o bolsonarista, que atrelou sua campanha ao novo e à mudança. Mas, para além de palavras de ordem, há dúvidas sobre como seria um governo Flávio. O candidato se limitou ao que a população queria ouvir: linha dura contra bandidos e nenhum detalhe sobre quais benefícios ou serviços serão afetados pelo prometido tesouraço à moda do argentino Javier Milei.
Olhar para trás em busca dessas respostas também não ajuda. Em quatro mandatos como deputado estadual e um como senador, Flávio não aprovou projetos ou teve marcas relevantes, apesar de usar sua atuação na Comissão de Segurança como vitrine.
Já como candidato, ele propôs uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) para acabar com a reeleição a presidente, em um aceno a Tarcísio na disputa de 2030. O projeto mantém o mandato de quatro anos, mas abre brecha para que o Congresso, onde a direita deve ser majoritária, estenda o período.
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