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Saturday, October 24, 2026

Debate da Globo: com menos ataques, Lula e Flávio discutem propostas e disputam legado

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O último debate das eleições de 2026, realizado pela TV Globo na noite desta sexta-feira, 23, a dois dias do segundo turno, foi marcado pela discussão de propostas e pela disputa sobre a autoria de medidas já em vigor. Diferentemente do primeiro confronto, realizado no domingo, 18, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) evitaram trocar acusações sobre casos de corrupção.

O formato do primeiro bloco favoreceu a discussão de propostas. Os candidatos tiveram que fazer perguntas relacionadas às cinco regiões do país, abordando temas como infraestrutura, salário mínimo, transporte público e desenvolvimento regional.

Na primeira troca, dedicada à infraestrutura e às exportações, Flávio Bolsonaro criticou os investimentos do governo federal, afirmou que mais de 11 mil obras estão paralisadas e prometeu "rasgar" o Brasil de ferrovias caso seja eleito.

Lula, por sua vez, defendeu os investimentos de sua gestão em portos, rodovias, ferrovias e hidrovias e afirmou que pretende concluir obras já iniciadas, como a Transnordestina. Segundo dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), os últimos anos registraram recordes de investimentos no setor. A previsão é que os aportes cheguem a R$ 300 bilhões em 2026.

O salário mínimo foi outro ponto de divergência. Ao abordar a região Sudeste, Lula afirmou que o piso nacional seria de R$ 900 em São Paulo se não fossem os reajustes concedidos durante os governos do PT. O presidente também criticou as gestões de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), afirmando que ambas deixaram de conceder aumentos reais ao salário mínimo.

Durante o governo Bolsonaro, a política de reajuste não previa ganhos acima da inflação. Pela regra atual, o salário mínimo é corrigido pela inflação acrescida do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes, o que permite aumentos reais quando há crescimento econômico.

Em resposta, Flávio Bolsonaro retomou o discurso de campanha de que o poder de compra dos brasileiros diminuiu e questionou quando havia sido a última vez que Lula tinha ido ao supermercado.

Os candidatos também discutiram a possibilidade de oferecer transporte público gratuito aos fins de semana. Questionado por Lula sobre a proposta, Flávio afirmou ser favorável à gratuidade nos ônibus, mas relacionou a medida ao aumento de impostos, aos gastos públicos e à inflação.

O senador disse que o trabalhador "merece sim ter um transporte gratuito", mas criticou o que considera uma contradição na política econômica do governo.

"Você dá com uma mão e tira com a outra", afirmou Flávio.

A discussão sobre a região Norte elevou o tom do confronto. Lula acusou o adversário de desconhecer a realidade do país e fez referência à atuação do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19, especialmente à crise de falta de oxigênio no Amazonas.

"A única imagem que ele tem do Amazonas é essa: o pai dele rindo de quem não tinha oxigênio", disse Lula.

O presidente também sugeriu que o senador estudasse mais sobre a região amazônica.

"Quando você não souber, pesquise no Google. Você não conhece o Brasil. É importante você estudar um pouco e ser mordido por um carapanã", afirmou, em referência ao mosquito comum na região.

No debate sobre o Nordeste, Lula destacou a instalação da montadora chinesa BYD em Camaçari, na Bahia, no antigo complexo industrial da Ford, que deixou o Brasil em 2021, durante o governo Bolsonaro. Sem citar o nome da empresa chinesa, o presidente questionou quais medidas a gestão anterior havia adotado para desenvolver a região.

Flávio respondeu, destacando as obras da transposição do Rio São Francisco, e afirmou que o governo de seu pai havia concluído o projeto, citando o ramal do Agreste. A transposição, no entanto, não foi integralmente concluída na gestão anterior. Os ramais do Apodi e do Salgado ainda tinham obras em andamento em 2025.

Além das discussões entre os candidatos, o debate contou com a presença de aliados políticos e integrantes das duas campanhas. Lula levou ao estúdio o ministro Sidônio Palmeira, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o senador Camilo Santana (PT-CE). Flávio Bolsonaro esteve acompanhado de Daniella Marques, do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do marqueteiro Duda Lima.

Entre os convidados da campanha de Lula estava Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina morta por um disparo de fuzil que, segundo a suspeita mencionada no caso, teria partido de um policial militar de quem Flávio Bolsonaro atua como advogado. Cristiane acompanhou o debate na primeira fileira da plateia, ao lado da primeira-dama Janja e do vice-presidente Geraldo Alckmin.

2º bloco tem discussão sobre Bolsa Família, SUS e Banco Central

No segundo bloco, dedicado a perguntas temáticas, Lula e Flávio Bolsonaro debateram Bolsa Família, SUS e autonomia do Banco Central. Os candidatos também divergiram sobre propostas para reduzir o endividamento das famílias e protagonizaram um dos momentos de maior tensão do encontro, após o presidente criticar o senador por chamá-lo de "nove dedos".

Ao falar sobre programas sociais, Flávio prometeu reajustar o Bolsa Família e permitir que beneficiários continuem recebendo o auxílio por um período após conseguirem emprego com carteira assinada ou abrirem uma empresa. Segundo o senador, a medida daria maior estabilidade financeira às famílias durante a transição para o mercado de trabalho. A possibilidade de manutenção temporária do benefício, no entanto, já existe nas regras atuais do programa.

Lula também questionou Flávio sobre uma declaração atribuída ao senador, na qual teria chamado o Bolsa Família de "bolsa farelo". Na sequência, criticou o adversário pelo uso da expressão "nove dedos". "Eu não vou permitir que um miliciano fale isso sobre mim", afirmou o presidente, que também disse que o primeiro emprego de Flávio foi no gabinete do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Após ser questionado por Lula, Flávio pediu desculpas por ter usado a expressão "nove dedos" para se referir ao presidente.

Os candidatos também disputaram a autoria de propostas para reduzir o endividamento das famílias. Flávio defendeu a compra de dívidas de brasileiros inadimplentes, enquanto Lula afirmou que a iniciativa reproduz uma medida já encaminhada por seu governo ao Senado.

"Quando ele fala que vai comprar a dívida, está copiando uma coisa que já mandei ao Senado. Não adianta ficar falando que vai fazer. Nós já fizemos", afirmou o presidente.

Lula associou a proposta ao Desenrola 3, que prevê a aquisição, pelo Tesouro Nacional, de dívidas de até R$ 10 mil. Pelo modelo mencionado, a compra das carteiras de crédito de bancos e empresas credoras ocorreria por meio de leilões, com desconto mínimo de 90% sobre os valores devidos.

Na discussão sobre política econômica, Flávio defendeu a autonomia do Banco Central e afirmou que a medida impede interferências políticas na definição dos juros. O senador também comparou os riscos de uma eventual interferência à situação econômica da Argentina durante os governos de Cristina Kirchner e a atuação de Guillermo Moreno, ex-secretário de Comércio Interior do país.

"Você ia transformar o Brasil no que a Cristina Kirchner e Moreno transformaram lá na Argentina. E ia explodir a taxa de juros, ia explodir a inflação", disse Flávio, que atribuiu a independência do Banco Central ao governo de Jair Bolsonaro.

Na área da saúde, Lula questionou Flávio sobre uma declaração de seu indicado a respeito dos investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). Em resposta, o senador prometeu atualizar a tabela SUS, utilizada como referência para o pagamento de procedimentos médicos na rede pública.

Considerada defasada há mais de uma década por especialistas, a tabela passou a ter previsão de revisão periódica anual por uma lei sancionada por Lula em janeiro de 2024. Em dezembro do mesmo ano, o Ministério da Saúde atualizou os valores de procedimentos de atenção especializada e anunciou reajuste de 3,5% nos repasses a entidades filantrópicas.

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