Portugal não precisa de escolher entre um dos dois Brasis

As eleições presidenciais brasileiras voltaram a revelar um país profundamente dividido: “dois Brasis”, como lhe tem chamado a imprensa daquele país.
Além da discussão sobre quem vencerá a segunda volta, parece-me especialmente pertinente perceber o que essa divisão pode significar para Portugal, sobretudo do ponto de vista económico.
A pergunta mais óbvia é qual dos resultados poderá trazer mais brasileiros e mais investimento para o nosso país. Talvez a pergunta esteja errada. Quando uma sociedade com 214 milhões de habitantes se organiza em torno de dois projetos políticos muito diferentes, qualquer resultado deixa uma parte significativa da população sem se rever no rumo escolhido.
Isso não significa que metade do Brasil queira sair do país, muito menos transferir o seu património para o exterior. Significa, contudo, que, para algumas famílias com capacidade financeira, aumenta o valor de uma coisa muito simples: ter opções.
É uma realidade que também temos observado nos Estados Unidos. A polarização política não provoca uma saída em massa de norte-americanos sempre que muda a Administração, mas ajuda a tornar mais presente, entre determinadas famílias, a discussão sobre questões como a residência, a fiscalidade, a educação e a diversificação geográfica do investimento.
Este último conceito parece-me particularmente relevante. Durante décadas, aprendemos que um património deve estar diversificado entre diferentes classes de ativos, setores e moedas. Hoje, algumas famílias aplicam o mesmo princípio à geografia. Não pretendem abandonar o país onde vivem, onde têm os seus negócios ou onde construíram o seu património. Procuram reduzir a dependência de uma única geografia.
Para uma família brasileira, Portugal pode representar uma segunda residência, uma universidade europeia para os filhos, uma parte do património em euros, uma empresa com acesso ao mercado europeu ou, simplesmente, a tranquilidade de saber que existe uma segunda base do outro lado do Atlântico.
Nada disto pressupõe deixar de acreditar no Brasil. É perfeitamente possível continuar a investir em São Paulo, gerir uma empresa no Rio de Janeiro ou passar a maior parte do ano naquele país e, simultaneamente, construir uma presença em Portugal. Não devemos interpretar este movimento exclusivamente como emigração; em muitos casos, estamos perante um processo de internacionalização familiar e patrimonial.
Esta distinção ajuda também a perceber por que razão diferentes resultados eleitorais podem produzir movimentos semelhantes, embora por motivos distintos. Se o próximo ciclo político for acompanhado por maior confiança económica, valorização dos ativos e fortalecimento do real, haverá famílias e empresários com maior capacidade para investir no estrangeiro. Um Brasil economicamente mais forte não significa necessariamente menos investimento em Portugal.
Se, pelo contrário, aumentar a perceção de incerteza económica, fiscal ou política, a motivação será diferente. Nesse caso, a procura de ativos no exterior poderá responder sobretudo a uma lógica de proteção e diversificação patrimonial.
Num cenário, investe-se internacionalmente porque existe maior capacidade para o fazer. No outro, porque ter uma alternativa ganha valor. Portugal pode estar presente em ambos.
Portugal parte, desde logo, de uma posição vantajosa em relação a outros países europeus. Não existe apenas uma língua comum. Existem relações familiares, empresariais e culturais construídas ao longo de décadas, ligações aéreas regulares e uma comunidade brasileira já estabelecida.
Os números mostram que esta relação já tem expressão económica. Em 2024, 29% das transações de habitação em Portugal foram realizadas por compradores estrangeiros. Entre estes, o Brasil foi a principal origem, representando 25% das transações.
Mas o imóvel é, muitas vezes, apenas a manifestação visível de uma decisão familiar e patrimonial bastante mais abrangente, que pode ter que ver com a educação dos filhos, com o investimento em ativos expostos ao euro ou com a procura de uma segunda residência.
Existe também um efeito de rede que não deve ser subestimado. Quanto maior for a comunidade brasileira em Portugal, menor será a distância percebida por quem pondera fazer o mesmo percurso: familiares, amigos ou parceiros de negócios já instalados tornam essa decisão mais natural.
É aqui que a dimensão do Brasil ganha particular relevância. Portugal não precisa de uma deslocação massiva de brasileiros para sentir os efeitos deste movimento. Num país com mais de 214 milhões de habitantes, basta que uma pequena fração das famílias com capacidade financeira procure uma segunda geografia para que o impacto possa ser significativo num mercado com a dimensão do português.
A questão, portanto, não é posicionar Portugal como um refúgio para um dos lados do eleitorado. Portugal pode ser O nosso país é suficientemente próximo para ser familiar e suficientemente diferente para representar diversificação. Portugal pode funcionar como porta de entrada na Europa tanto para quem está confiante como para quem está apreensivo quanto ao futuro do Brasil.
O resultado da segunda volta será naturalmente importante. Mas, do ponto de vista do investimento estrangeiro em Portugal, pode ser menos determinante do que parece. Os governos mudam e os ciclos económicos sucedem-se. A internacionalização das famílias e dos patrimónios é uma tendência mais estrutural.
A verdadeira oportunidade não está, portanto, em convencer os brasileiros a trocar o Brasil por Portugal. Está em fazer com que não tenham de escolher.
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