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Thursday, November 5, 2026

Um escudo ou corpete? A peça secreta da Quinta da Cruz

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindo ao "A Nossa Cultura". Eu sou o Martim Madeira e encontramo-nos na Quinta da Cruz, na exposição "Vestígios Somáticos" de Andreia Santana, que está localizada no espaço expositivo Venha a Nós a Boa Morte Arte Contemporânea. Agora, se calhar, vamos passar de peça em peça. Tens alguma que gostavas de começar? Queres alguma continuidade nesta exposição? Começamos por esta peça. Eu vou fazer uma descrição breve do que estou a ver, porque isto é rádio e as pessoas não conseguem ver. A mim, pelo menos, parece-me ser uma espécie de escudo. Eu não sei se estou correto, mas parece-me. O que é que vemos aqui? Vemos também vários tons, não sei se tem a ver com a queimadura do metal, mas vários tons, e depois temos uma parte mais dourada no centro e depois vai-se desintegrando aos poucos, cada vez ficando mais queimado. Eu gostava de perguntar o que é que temos aqui concretamente.

Temos aqui um corpete. Mas eu achei curiosa essa coisa do escudo, porque na verdade era quase como um sistema de proteção do corpo feminino também. Isso é uma até das questões que está implícita na conceção da exposição. Mas em relação às cores, na verdade, acertaste. Isto tem a ver com a maneira como a própria fundição é feita. Portanto, o estanho, quando corre para dentro do molde de areia, geralmente corre de uma maneira mais orgânica e as partes de fora, que são as que têm contato mais inicial, apanham estas cores todas, enquanto que as mais do meio já não têm. Nós não vemos isto no estanho normal, porque geralmente eles fazem um polimento a posteriori, que eu decidi não fazer. Eu decidi manter este arco-íris, esta iridescência, porque para mim foi bastante importante também ter esta história da feitura e da presença do material como é.

Eu, de facto, agora já consigo compreender o corpete. Vê-se, de facto, no meio, vejo o que me parece a mim serem uma espécie de botões. É o que me parece. Por que este simbolismo do corpete, que a mim me parecia um escudo?

Como eu estava a dizer inicialmente, eu estive a visitar várias vezes a coleção de bustos relicários do Museu Grão Vasco, que eu convido as pessoas a irem visitar, que são mesmo incríveis. E estes bustos relicários geralmente eram peças que teriam que conter um osso lá dentro ou partes de fragmentos ósseos ou partes de coisas que santos ou pessoas importantes que tu querias, post mortem, preservar. E muitos deles são sempre em madeira, que não é o caso de nada do que está aqui, mas são sempre partes de corpo ou umas mangas. Então era engraçada esta questão da manga que tem um vidro e que protege um osso. Tem a ver quase com uma estratificação, quase uma lente para dentro do corpo humano. E por isso é que também achei curioso continuar a utilizar o vidro, por isso é que nós vemos estes vultos fantasmagóricos em algumas das peças.

E passaremos já para uma das peças. Eu queria só perguntar, também falávamos desta questão de se estar cada vez mais a queimar para fora. Falaste que isso era a técnica usada, mas eu queria perguntar se há algum simbolismo nesse queimar, se foi de propósito. A mim, pelo menos, se calhar posso ser eu que estou a dar um simbolismo adicional, mas a mim parece-me que há uma desintegração. No meio parece a parte mais sagrada, parece mais perfeitinha e depois vai cada vez queimando para fora. Não teve nenhum simbolismo específico? Foi só ao acaso?

É assim, é o contrário. Portanto, queima de fora para dentro.

De fora para dentro.

Exatamente. Ou seja, as partes mais exteriores, que têm mais iridescência, são efetivamente quando o material estava mais quente e entrou para dentro do molde. Percebes? E dá para ver também que as texturas têm mais presença enquanto o material está mais quente, porque o metal, o estanho, está líquido quando entra para dentro do molde. Ou seja, tem mesmo que ver com o correr do metal para dentro da ausência que está no molde.

E está aqui feita esta análise desta peça dos vestígios somáticos de Andreia Santana, que está localizada na Quinta da Cruz, em Viseu. Continuaremos esta exposição nos próximos episódios.

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