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Tuesday, November 3, 2026

Sangue, suor e lágrimas

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Lisboa, Porto, Berlim, Munique, Estugarda, Frankfurt, Nice, Marselha, Paris, Dublin, Zurique, Milão, Bilbao, Barcelona, Madrid. Eu ia começar por dizer que por todo o lado há um ponto em comum, que é o facto de a extrema-esquerda saber perfeitamente como identificar um ou vários problemas concretos para os manter suficientemente inflamados até que tudo arda à sua volta, mas talvez tenha de fazer uma ressalva: é evidente que quem não consegue mesmo pagar uma casa tem um problema real (que, já agora, é um problema bem mais grave do que quem consegue pagar uma casa queixando-se apenas de que a mesma é cara). Como é evidente que quem estuda em escolas a cair aos bocados tem razões para exigir melhor (eu andei em várias, dispenso as lições de moral de gente que não tem lugar de fala, como se diz por aí), e por aí adiante. Mas sucede que nenhuma reivindicação, por mais justa que seja, confere mandatos para destruir, agredir, incendiar ou substituir as instituições democráticas pela soberania dos que conseguem ocupar uma praça.

Por toda a Europa, Portugal incluído, porque a surpreendente coincidência desta vaga de protestos também nos arrastou para lá, coexistiram protestos pacíficos e episódios de violência grave, como os que vimos em França ou na Alemanha. Naturalmente, confundir todos os que se manifestam, por mais erradas que sejam as suas ideias ou propostas, com os opositores do Estado de Direito, da democracia liberal ou do mundo ocidental, seria um disparate. Mas também é verdade que a justiça de uma causa não torna legítimo tudo o que se faça em seu nome para lá das instituições, não é a bondade de um protesto que concede a todos os radicais a imunidade legal ou mesmo moral. E o que tem estado em causa desde o início é o carácter indefinido no tempo em que os acampamentos se anunciavam, a forma como o espaço público foi apropriado por privados e o conflito de interpretações jurídicas dirimível por tribunais. Pensava que isto era uma daquelas coisas que não seria necessário dizer, mas pelo que tenho visto estava errado.

(A decisão judicial entretanto proferida tem o mérito de ter sido proferida, lá está, por um tribunal, mas não deixa de conter nela, no juridiquês habitual, a origem de interpretações diversas, que só poderão ser dirimidas por um tribunal superior, quando podiam ter ficado cabalmente resolvidas por este. Isso, porém, não invalida o facto de que o MAI e o Governo deviam ter assumido a sentença como uma derrota e ficar a esperar para ver o que sai dos acampamentos. Ninguém sai vitorioso disto: nem os grupos das acampadas, nem o Governo, nem os tribunais. Mas deixemos isso para outro dia.)

O que me interessa é discutir o terreno onde esta contestação cresce. Mais do que os protestos, e este Big Brother das tendas ou dos saques a que temos assistido ao minuto por essa Europa inteira, ou mesmo mais do que os problemas que lhes estão na base, interessa-me mesmo muito cavar um pouco mais e tentar ir à raiz do problema. E o que temos bem lá no fundo de tudo é algo que me parece incontestável: a Europa está a descobrir que o seu modelo de vida exige condições que deixou de saber assegurar. A cavalgar esse facto estão radicais vários, mas tudo isso é mais consequência do que causa.

Aquilo a que nos habituámos colectivamente foi à distribuição de resultados de uma prosperidade tratada como eterna, mas cuja produção foi sendo tratada como tema secundário. E agora, sem líderes à altura, ninguém sabe explicar às pessoas de onde vem o dinheiro, a energia, o trabalho, a segurança, a liberdade, e muito menos explicar que só pode vir de nós próprios.

Andámos entretidos, ao longo das últimas décadas, a funcionar como se tudo tivesse terminado num compromisso absolutamente confortável: aquele em que a Rússia fornecia energia, a China fabricava, os Estados Unidos nos protegiam, e em que nós nos limitávamos a aperfeiçoar as regras e as virtudes pelas quais gostaríamos que o mundo inteiro se regesse. Acreditámos que o comércio era conciliador, que a interdependência domesticava ambições, que a prosperidade europeia acabaria a convencer todos os outros da nossa superioridade moral. Tudo isto ruiu como um baralho de cartas, em particular com a invasão da Ucrânia e com a mudança de perspectiva das várias lideranças norte-americanas (porque Trump pode ter menos jeito retórico para nos enganar do que Obama, mas no fundo já ninguém nos EUA quer saber de nós para nada há bastante tempo)

É verdade que continuamos a ter indústria, ciência, empresas e quadros altamente qualificados. Claro. O problema não é esse. A questão é a distância que vai da nossa capacidade ao que as nossas decisões colectivas nos permitem fazer. A desindustrialização, a energia cara, as dificuldades de investimento, a falta de capital, a lentidão administrativa, o peso da burocracia são o resultado de políticas acumuladas, não são fatalidades como tantas vezes parecem ser. E o que temos feito nós para contrariar tudo isso?

Achámos que ser um museu a céu aberto, virado de portas ao mundo, era uma solução, ou que o capital só cá podia entrar pela via da valorização do património. Este era, de resto, o maior consenso que tínhamos, a única via de captação de capital legítima e inquestionável. Foi com isso que reabilitámos cidades, que atraímos turistas, consumidores, enquanto vendíamos apenas localização, clima e segurança, três características que achávamos que não nos custavam nada, embora agora se veja que a última delas tem um preço que também deixámos de querer suportar. Sucede que viver assim é muito diferente de aumentar a capacidade produtiva de uma sociedade. E é por isso que as casas multiplicam o seu preço sem que os salários acompanhem essa valorização. É por isso que hoje o maior património dos portugueses é o seu activo imobiliário e não outra coisa – e é também por isso, já agora, que vamos acabar, se não quiserem destruir tudo como se prevê, com a primeira grande geração de herdeiros da História, gente que sem fazer nada por isso herdará activos imobiliários que valem fortunas.

A incapacidade produtiva numa sociedade altamente extractiva só podia resultar em conflito. Mas nós, quando devíamos estar a falar de recuperar produtividade e capital, estamos a entregar o debate a quem acredita que tudo se resolve como sempre nos foi prometido, isto é, com facilidade: perseguindo proprietários, colocando tectos administrativos aos preços, expulsando investidores. O Estado tinha um papel fundamental na preparação das respostas difíceis, mas que Estado é capaz seja do que for quando vive de economias em recessão, burocráticas, improdutivas, e perante eleitorados avessos a reformas? Que Estado endividado e mais assente no bem-estar do que na produção da sua economia seria capaz de responder fosse ao que fosse?

O conflito vem, também, da demografia. Envelhecemos, temos poucos filhos, organizámos todas as instituições como se houvesse sempre uma geração seguinte numerosa o suficiente para pagar a anterior, e resolveu-se o problema de outra forma: chegou-nos a imigração em massa como fórmula mágica para suprir faltas de trabalhadores e contribuintes. Mas, uma vez mais, o que fizeram as lideranças políticas? E nós? Não nos falta capacidade de reconhecer o contributo de quem chega, quer trabalhar e participar na vida activa de um país (curiosamente, nunca ninguém se lembra de colocar o foco do problema das migrações nos países de origem, de onde tanta gente foge da miséria, mas adiante), mas as cantigas de amigo feitas aos imigrantes não foram mais do que uma política utilitária (e, arrisco, com o seu quê de racista) que viu em tantos seres humanos meras unidades de substituição. Uma política migratória exige regras, habitação, escolas, cuidados de saúde, serviços, integração e, sim, cultura, capacidade de cumprir e fazer cumprir regras e valores comuns. Como é que isto se faz num continente onde tantos chegaram a apregoar que não existem coisas como a cultura de um país ou que todas as culturas merecem o seu espaço excepto a própria, mesmo quando as primeiras a ofendem? Portanto, o que fizemos foi, resumidamente, recrutar mão-de-obra barata para pagar o nosso conforto, sem olhar a mais necessidades e carências, transferindo mesmo os custos da presença dos imigrantes para eles próprios e para as comunidades que os recebem.

Chegámos, pois, a esta contradição permanente, gerida sem norte por lideranças políticas falidas, explorada por radicais e sentida angustiosamente por tanta gente: nós queremos prestações e um estilo de vida que só sociedades altamente produtivas podem oferecer, mas preservando os obstáculos à produção; queremos autonomia estratégica, mas rejeitamos custos de defesa militar; queremos trabalhadores, mas não queremos pagar infraestrutura para os receber; queremos casas baratas, mas não as queremos constriur; queremos capital, mas não queremos qualquer medida que o faça chegar ou criar. E há sempre bons motivos para tudo e mais alguma coisa. A indústria polui, o nuclear assusta, o turismo descaracteriza, a construção incomoda, o investimento especula, o comércio explora, o lucro chateia, os ricos ai-que-horror, até acabarmos a viver numa sociedade que é absolutamente incapaz de responder às necessidades que reclama ter.

Esta cultura não nasceu hoje, e encontrou terreno fértil num individualismo que foi perdendo a noção de reciprocidade. Lembram-se de como o século começou com o Big Brother, o verdadeiro e não o das tendas, em que ficava demonstrado que qualquer imbecil, sem fazer nada por isso, passava a ter um valor próprio e o reconhecimento dos outros? Todos, individual e colectivamente, fizemos esse percurso, todos nos tornámos esferas soberanas de identidade, de desejo, de valor, ao passo que aos outros caberia apenas validar ou aceitar o nosso brilhantismo e às instituições restaria acomodar a vontade individual de cada alminha. E acabámos incapazes de perguntar o que devemos uns aos outros, enquanto comunidade histórica e cultural, até nos reencontrarmos na forçosa necessidade do grupo que conheceu o apogeu do ridículo com o wokismo, quando nos tornámos uma sociedade de indivíduos que era, ao mesmo tempo, um confronto permanente entre identidades várias. Tudo isto é uma loucura, uma insanidade, mas não há aqui inocentes. As gerações anteriores construíram sistemas aptos a proteger quem já estava dentro deles (no arrendamento, no mercado de trabalho, nos mecanismos de pensões e reformas) e adiaram, como continuam a adiar, reformas cujo custo político preferiram deixar aos filhos e aos netos, a quem vão pagando a casa, as férias ou o colégio dos mais pequenos; e as novas gerações, ou pelo menos as radicalizadas que proliferam pelas ruas europeias, não parecem também particularmente disponíveis para algo que não seja a destruição de tudo.

O mais dramático em tudo isto é que parece não haver futuro. Da esquerda vêm sempre os amanhãs que cantam, quando não a promessa do caos. Das lideranças políticas incumbentes não chega coisa nenhuma. E da direita parece vir apenas a promessa de que o mundo sereno e tranquilo do passado irá voltar. Não volta. Não volta se não voltarmos também a produzir, construir, investir, ter filhos, integrar, defender, robustecer instituições capazes de decidir e a educar os filhos para um mundo em que fazer sacrifícios é normal e em que as vidas fáceis não existem, e que se quiserem viver melhor terão de fazer por elas próprias muitas escolhas com custos e que as deixarão insatisfeitas noutros segmentos das suas vidas, que não é possível ter tudo e muito menos agora, que há limites ao que o Estado pode oferecer e que tudo isso tem um preço a pagar. Se não descobrirem agora, descobrirão tudo isso mais tarde, mas a única coisa que uma liderança política pode prometer neste momento é sangue, suor e lágrimas, muito sacrifício e capacidade para fazer escolhas.

P.S.: Os canais de notícias ao minuto não têm feito outra coisa que não incendiar ânimos porque precisam de manter o mundo num estado de emergência permanente. Garante-lhes audiências, sim. Mas o que têm feito ao longo de muitos anos em prol da democracia, da serenidade, da não radicalização, ronda o zero. Estão de parabéns.

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