Do "tico-tico" ao x-ato. Ferramentas que dão forma à matéria

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Estamos a conhecer a exposição Simplesmente Casinhas, da autoria de Teresa Carreira, uma artista local e autodidata que me faz companhia aqui na Casa da Ribeira, em Viseu. Olá mais uma vez, Teresa, obrigado por falar aqui com a Rádio Observador. Vamos olhar aqui para um caixote que está à nossa frente, onde se pode ler: "Instrumentos que ajudam a matéria a ganhar forma de casinhas e bonecas". E a Teresa já me explicou, há pouco, em off, o que é um tico-tico. Gostava que também explicasse a quem nos ouve.
É o seguinte: no início dos meus trabalhos, todas as casinhas que eram feitas eram construídas com o auxílio do tico-tico, que é uma peça elétrica, e que tem uma lâmina, e essa lâmina é que vai cortando os quadrados ou retângulos e vou ajustando os telhados. É difícil usar, porque o tamanho das minhas casinhas não é muito grande, como eu digo, das iniciais.
É um trabalho minucioso.
Sim, tem que se ter algum cuidado para não ter problemas e não me magoar.
E que outras coisas temos aqui, além do tico-tico, que é uma espécie de serra elétrica pequena?
Outras peças que temos aqui é um x-ato. Eu, há uns anos atrás, tinha uma aversão aos x-atos, mas hoje é extremamente importante para o meu trabalho e principalmente nesta fase em que eu faço casinhas muito pequeninas, com a ajuda, já não do tico-tico, pontualmente do tico-tico, mas 90% dos trabalhos são feitos com uma pequenina serra. Portanto, eu trabalho sobre um bocado de madeira e é com uma serra que eu vou fazendo e dando forma às casinhas. Uso o x-ato e uso as cores, claro. Os pregos, cola para esses pregos ficarem fixos e diferentes bocados de madeira.
E tem aqui também as várias cores que utiliza e tem também os próprios pedaços de madeira que, podemos recordar aqui também neste episódio, que às vezes vai recolhendo à medida que se encontra com eles na rua. Quando é que foi a última vez que pegou um pedaço de madeira de rua?
Ontem. Foi mesmo, por acaso, ontem. Encontrei um bocadinho, cheguei a casa, tenho dezenas de quadros, como pode ver aqui por esta exposição. Tenho outros que não puderam ficar aqui porque o objetivo é mostrar e sensibilizar as pessoas e não um amontoado de quadros. Ainda ontem continuei nas minhas casinhas. Isto é uma paixão e fico mesmo emocionada e feliz quando estou a trabalhar. Ou seja, vejo surgir um olho, por exemplo, dar cor àquele olho, dar cor ao cabelo ou fazer uma casinha. Normalmente as casinhas são, 99%, todas com telhado vermelho. Podem ter porta, mas a porta é sempre uma pinturazinha preta. Não é porta trabalhada. As janelas, a mesma coisa. Portanto, isto é tudo muito simples. Ou seja, é raro o dia que eu não tenha que fazer uma ou duas casinhas e elas vão aguardando numa caixinha em cima de uma mesa, estrategicamente colocadas, até que, de repente, tenho uma ideia e vou começar.
Já agora, e estava a falar do espaço que tem em casa, onde trabalha e guarda as obras, sendo que são maioritariamente obras feitas em madeira, como tem dado aqui conta, que tipo de cuidados tem a preservar essa madeira e a guardar as peças?
Bem, aqui nesta exposição está tudo nas paredes. As senhoras aqui da Casa da Ribeira fizeram um trabalho espetacular e muito minucioso para pendurar todos estes quadros, porque à exceção das telas, todos os outros são difíceis de pendurar e tiveram que ficar numa determinada posição para ter equilíbrio. Tenho algumas peças também em mesas de vidro.
Podemos nos aproximar aqui desta mesa para dar conta?
Em mesas de vidro, que são trabalhos mais pequeninos, porque qualquer bocadinho de madeira pode ter 15 por 10, 20 por 25, eu aproveito para criar alguma coisa. Por exemplo, estou a ver aqui um que eu gosto particularmente. Imaginem um retângulo de madeira cortado com uma grande dentada. Pensei em fazer uma cara e cá está ela. É uma cara em que tem um cabelo esverdeado, mas um esverdeado seco, algumas partes em preto e tem duas madeixas. Uma das madeixas é composta por duas casinhas colocadas estrategicamente para dar a ideia da madeira. A outra madeixa são dois pregos enferrujados. Por exemplo, tenho aqui outro também bastante engraçado, que é outro pedaço de madeira também bastante irregular.
Mais uma vez, essa imperfeição da madeira é que torna as peças únicas.
Sim, e que me cativa. E então tem um cabelo, o cabelo parece que está todo despenteado, um cabelo preto, um corpo preto, digamos, uma camisola preta, e depois é como se tivesse um toucado. E o toucado é como se fossem fiozinhos de tinta para formar esse toucado. E no cimo tem um pequenino passarinho que está assente sobre dois pregos como se fosse o ninho do passarinho.
Sim, a natureza também, muitas das vezes, e como já sublinhou várias vezes a questão do pássaro que aparece em vários. Queria gongolê?
Só dizer uma coisa. Os pássaros, ao contrário do que as pessoas pensam, incomodam-me um bocado, porque eu acordo com o chilrear dos pássaros e moro numa vivenda, tenho jardim, os pássaros andam por ali. Então sujam tudo, fazem barulho, mas é engraçado. Ao ter esta ideia acerca dos pássaros, depois passar para estes bocadinhos de madeira, os pássaros, acho muita graça, porque como eles são muito coloridos, dão uma alegria diferente às minhas peças.
E o chilrear dos pássaros não é o pior barulho, há barulhos bem piores.
Com o barulho dos pássaros, não é que me irritem, incomodam, mas depois é engraçado. Eu vou passá-los para os meus trabalhos.
A natureza como inspiração e no próximo episódio vamos olhar precisamente para algumas peças que foram inspiradas no mar e no céu. Não perca os próximos episódios de "A Nossa Cultura", aqui em Viseu.
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