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Sunday, October 11, 2026

Terras raras atraem ao menos 18 empresas estrangeiras e somam mais de R$ 17 bi em investimentos

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Brasília A compra da Meteoric Resources, anunciada no fim de setembro pela também australiana Lynas, em um acordo de R$ 3,5 bilhões para explorar terras raras no sul de Minas Gerais, é o episódio mais recente de uma corrida estrangeira atrás dos minerais críticos no Brasil.

Ao menos 18 empresas internacionais têm hoje processos minerários em andamento para pesquisar ou explorar terras raras no país (veja lista completa no mapa).

Juntos, esses projetos somam mais de US$ 3,5 bilhões (R$ 17,5 bilhões), entre investimentos já realizados e estimativas iniciais para implantação. Como boa parte dos planos ainda está em fase de pesquisa, o que está por vir sinaliza que essa cifra será superada rapidamente.

Vale coberto por neblina densa entre colinas verdes ao amanhecer. Céu com nuvens rosadas e alaranjadas ao fundo.
Estrangeiras querem explorar terras raras na região dos municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas (MG) - Fernando M. Fernandes - 27.fev.26

A operação entre a Meteoric e a Lynas foi anunciada menos de um mês após a americana USA Rare Earth concluir a aquisição da mina Serra Verde, em Goiás, a primeira que explora terras raras no país.

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As transações bilionárias colocam o minério brasileiro na mira crescente de grupos internacionais que buscam a oferta de terras raras fora da China, hoje a líder global em extração e beneficiamento. A Folha cruzou informações da ANM (Agência Nacional de Mineração) com documentos societários, estudos técnicos e comunicados de companhias do setor.

A Austrália concentra hoje pelo menos 11 dos 18 grupos mapeados. Canadá e Estados Unidos têm três cada. Há ainda uma companhia constituída nas Ilhas Marshall. Em maior ou menor medida, todas acumulam críticas sobre impactos ambientais e sociais.

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Os empreendimentos estão em estágios diferentes, desde empresas que ainda coletam amostras e fazem sondagens para descobrir se os depósitos justificam uma mina, até outras que operam instalações de teste e que já produzem comercialmente.

As terras raras são fontes essenciais para a fabricação de ímãs de alto desempenho usados em motores de carros elétricos, por exemplo, além de turbinas eólicas e sistemas de defesa.

O interesse do Brasil vai além de vender o minério. Depois da produção de um concentrado, é necessário separar os elementos e transformá-los em metais, ligas e, então, produtos industriais. Essas etapas exigem tecnologia pesada e concentram a maior parte do valor dessa cadeia.

Do lado do governo federal, a meta é permitir que etapas de industrialização fiquem no país e que o Brasil deixe de ser um vendedor de commodities, como ocorre com o minério de ferro. Nessa esteira, o chamado Projeto Caldeira, que agora passa a ser tocado pela Lynas, surge como o grande empreendimento que vai pôr à prova as ambições do Palácio do Planalto.

No fim do mês passado, pouco depois de o anúncio bilionário ser feito na Bolsa da Austrália, o MME (Ministério de Minas e Energia) informou que "o Brasil irá receber a primeira grande planta industrial de separação e processamento de minerais críticos e estratégicos".

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O anúncio ocorreu 15 dias após a sanção, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE).

O negócio, por enquanto, não formaliza um processo de industrialização nacional. O que existe até aqui, por parte da Lynas, é a pretensão de "avaliar o potencial para o desenvolvimento de atividades de separação de terras raras no Brasil".

À Folha o MME declarou que "tem mantido diálogo institucional com representantes das empresas envolvidas" e que, no dia 16 de setembro, o ministro Alexandre Silveira recebeu representantes da Meteoric, que expuseram o objetivo de implantar uma indústria de separação de terras raras no Brasil, aplicando a tecnologia utilizada pela Lynas na Malásia.

"Esse plano evidencia que os investidores internacionais já estão respondendo às premissas de agregação de valor local e soberania consolidadas pela nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos", declarou a pasta.

Dez pessoas em pé em um palco, com um homem ao centro segurando um documento aberto. Ao fundo, painel azul com texto sobre a política nacional de minerais críticos, estratégicos e terras raras. Pessoas ao redor aplaudem e sorriem, com bandeiras brasileiras à esquerda.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sanciona lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras - Ricardo Stuckert - 25.set.26/Ricardo Stuckert

Para Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), a aplicação efetiva da nova lei dos minerais críticos depende das regras que serão trazidas em sua regulamentação. É o que vai ditar o caminho do setor.

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"A nova política de minerais críticos vem com a promessa de que serão acionados novos instrumentos, governança e medidas para que esse minério não seja apenas extraído e exportado, mas realmente sirva para estimular o adensamento da cadeia de valor", diz Cardoso.

Na avaliação da especialista, a lei deve se voltar mais a estímulos para ampliar a industrialização nacional do que a algum tipo de intervenção estatal.

"Eu acho difícil chegar a uma exigência que faça com que o setor privado seja regulado, a despeito de qualquer coisa. A mineração já é um setor altamente internacionalizado e isso não vai mudar. A legislação traz artigos e estímulos que buscam indicar quais são os instrumentos para favorecer esses projetos."

A lei autoriza a criação de um fundo garantidor, com participação da União de até R$ 2 bilhões, para facilitar o financiamento de projetos prioritários. Também prevê até R$ 1 bilhão por ano em créditos fiscais entre 2030 e 2034 para atividades de processamento, transformação e recuperação de minerais de resíduos.

Hoje, o projeto mais avançado na exploração de terras raras no país é o Serra Verde, em Minaçu (GO). A mina recebeu licença ambiental de operação em 2023 e começou a produzir comercialmente em 2024. O empreendimento, que produz concentrado de terras raras usadas na indústria de ímãs, já recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos, segundo a americana USA Rare Earth.

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À Folha a Serra Verde declarou que "já agrega valor no Brasil", porque "não exporta minério bruto e opera, em Minaçu, uma mina e uma planta integrada de processamento, onde produz Carbonato Misto de Terras Raras".

O desenvolvimento de etapas adicionais, segundo a empresa, dependerá de tecnologia, capital, escala, regulamentação governamental favorável e condições econômicas competitivas.

"Por meio da combinação com a USA Rare Earth, esperamos acessar tecnologias de separação de terras raras ao longo do tempo. A localização de uma eventual instalação de separação será definida após uma análise técnica e econômica completa, e o Brasil permanece como uma possível opção."

Outros projetos combinam processamento inicial no Brasil e planos industriais no exterior. A canadense Aclara estima US$ 781 milhões para seu projeto em Nova Roma (GO) e mantém uma planta-piloto em Aparecida de Goiânia. Sua estrutura conta com unidades próprias nos Estados Unidos para separar os elementos e produzir metais e ligas.

A australiana Brazilian Rare Earths prevê US$ 969 milhões para o empreendimento integrado Monte Alto–Camaçari, na Bahia, até a primeira produção de óxidos. Em setembro, a companhia anunciou que a primeira etapa de sua planta-piloto em Camaçari entrou em funcionamento e produziu concentrado mineral. A etapa seguinte, de tratamento químico e separação, está prevista para 2027.

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Em Poços de Caldas, a australiana Viridis conseguiu licença prévia para seu projeto. A empresa teve aprovado financiamento de R$ 77,5 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para um centro de pesquisa e processamento de terras raras.

Outras empresas ainda precisam demonstrar a viabilidade dos depósitos e definir como vão processar o material. Essas etapas incluem mapeamento, coleta de amostras, sondagens e testes em áreas de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Amazonas, Tocantins e Piauí.

Boa parte dos R$ 17,5 bilhões mapeados até agora ainda depende de licenças, financiamento e viabilidade técnica.

O MME afirmou que "o avanço dos projetos minerais na cadeia de valor deve ser estimulado por uma combinação de incentivos e instrumentos regulatórios" e que o Conselho Nacional dos Minerais Críticos "deverá ter papel importante nessa estratégia, utilizando mecanismos de fomento e regulação para induzir as empresas a ampliar no Brasil etapas de beneficiamento, processamento, separação, refino e transformação dos minerais críticos e estratégicos".

"Isso não significa que cada mineradora precise necessariamente realizar, sozinha, todas essas etapas. O objetivo é criar condições para que os projetos avancem na cadeia de valor, seja diretamente, seja por meio de parcerias com empresas que detenham tecnologia e capacidade industrial", disse a pasta.

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