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Monday, October 19, 2026

Há 50 anos, Paul McCartney encerrava a maior turnê de sua carreira após os Beatles

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“Foi um show tão bem executado, tão bem apresentado, que o público saiu de lá com todo o antigo entusiasmo por McCartney como um dos verdadeiros gênios da música rock renovado”, dizia uma crítica publicada pelo The Guardian

Rolling Stone

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Paul McCartney e Linda McCartney
Paul McCartney e Linda McCartney em show no Wembley Pool, Londres, em 19 de outubro de 1976 (Foto: Watal Asanuma/Shinko Music via Getty Images)

Quatro anos antes de Paul McCartney encerrar a turnê “Wings Over the World”, em 1976, com três noites na Wembley Arena (então conhecida como Empire Pool), a banda fez um show muito menor em um espaço ao ar livre localizado em uma encosta em Ollioules, na França. O grupo havia começado a se apresentar ao vivo poucos meses antes, e aqueles eram shows discretos, planejados para testar novas músicas na estrada e colocar McCartney diante do público pela primeira vez desde a última turnê dos Beatles, em 1966.

O jornalista Robin Denselow, do The Guardian, não ficou impressionado com o que viu em Ollioules. “[Foi] um dos shows mais deprimentes, quase constrangedores, de que consigo me lembrar”, escreveu. “O nervosismo [de Linda McCartney] e sua evidente falta de talento parecem contagiosos, pois a banda estava desafinada, desajeitada e, de modo geral, horrível.”

A crítica é bastante dura e não resiste muito bem a um exame mais atento quando se ouvem as gravações daquela turnê, mas refletia parte da decepção sentida pelos fãs que assistiram aos primeiros shows do Wings, em 1972. A banda realmente ainda era inexperiente, tocava sobretudo músicas de Wild Life, álbum de 1971 que não correspondeu às expectativas, e McCartney se recusava a incluir sequer uma canção dos Beatles no repertório.

Muita coisa mudou quando o grupo voltou à estrada, no fim de 1975. O sucesso de Band on the Run, de 1973, e Venus and Mars, de 1975, deu à banda hits como “Jet”, “Let Me Roll It”, “Mrs. Vanderbilt”, “Band on the Run”, “Listen to What the Man Said” e “Venus and Mars/Rock Show”, que foram incorporados ao repertório. A eles se juntou a música-tema do filme de James Bond de 1973, Com 007 Viva e Deixe Morrer, que, na prática, parecia ter sido feita para se tornar um hino explosivo de arenas e estádios pelas décadas seguintes. No meio da turnê, o grupo lançou Wings at the Speed of Sound, que trouxe os sucessos “Silly Love Songs” e “Let ’Em In”.

As coisas haviam dado tão certo para o Wings naqueles poucos anos que McCartney já não sentia necessidade de fingir que a outra banda de seu passado não existia. Assim, concordou em apresentar algumas músicas dos Beatles durante a turnê “Wings Over the World”, que passou por arenas da Europa, da Austrália e da América do Norte entre setembro de 1975 e outubro de 1976.

Por isso, quando Denselow deixou a Empire Pool em 19 de outubro de 1976, teve a sensação de ter assistido, essencialmente, a uma banda completamente diferente daquela que o decepcionara tanto quatro anos antes. “Eles tocaram sem parar por mais de duas horas e proporcionaram um dos shows de rock mais alegres, empolgantes e brilhantes que Londres viu nos últimos anos”, escreveu no The Guardian. “Foi um espetáculo tão bem executado, tão bem apresentado, tão bem iluminado e com um som tão excelente que saí de lá com todo o antigo entusiasmo por McCartney como um dos verdadeiros gênios da música rock renovado.”

Dificilmente ele poderia ter escolhido um momento melhor de toda a história do Wings para assistir à banda ao vivo. Após 62 shows ao longo de 13 meses, o grupo finalmente havia se consolidado como a banda que McCartney sempre soube que poderia se tornar. Desde 1966, as oportunidades de assistir a qualquer um dos Beatles em um show eram muito escassas. A turnê de George Harrison em 1974, restrita à América do Norte, foi um fiasco tão decepcionante que acabou apenas aumentando a demanda do público por uma experiência mais acessível aos fãs — sem um longo set de Ravi Shankar nem interpretações noturnas de “In My Life” tão bizarras e desafinadas que beiravam o sacrilégio.

O show do Wings começou com vários de seus sucessos recentes — “Venus and Mars/Rock Show”, “Jet” e “Let Me Roll It” —, além de “Maybe I’m Amazed” e “Call Me Back Again”, uma faixa menos conhecida de Venus and Mars. Quando a última terminou, McCartney se dirigiu à plateia. “Esta aqui é um pouco mais antiga”, disse. “É para os maiores de 14 anos que estão na plateia.”

Em seguida, ele conduziu a banda em “Lady Madonna”, provocando uma explosão de alegria no público. Como tantas das melhores músicas dos Beatles, ela nunca havia tido a oportunidade de ser tocada em um show. Para boa parte da plateia, tanto os maiores quanto os menores de 14 anos, aquela era a primeira chance de ver um integrante dos Beatles interpretar ao vivo uma música da banda.

Antes que os aplausos pudessem diminuir, McCartney emendou “The Long and Winding Road”. Essa também era uma canção dos Beatles composta muito depois de o grupo ter parado de fazer turnês. E era particularmente delicada para McCartney, já que Phil Spector havia acrescentado cordas, metais e um coral à gravação original sem seu consentimento. A versão apresentada naquela noite era mais enxuta, como ele originalmente pretendia lançá-la, e acabou chegando ao público em 2003, no álbum Let It Be…Naked.

A energia na Empire Pool continuou alta após a sequência de duas músicas dos Beatles, pois o show foi seguido por “uma canção sobre um agente britânico chamado 007”, nas palavras de Linda McCartney.

O microfone passou para Denny Laine, que interpretou uma versão de “Richard Cory”, de Simon & Garfunkel. Em seguida, voltou para McCartney em “Bluebird”, até que chegou novamente a hora dos Beatles, com uma sequência acústica de “I’ve Just Seen a Face”, “Blackbird” e “Yesterday”. Esta última não foi exatamente uma surpresa, já que McCartney a vinha apresentando durante toda a turnê, mas, ainda assim, o público foi à loucura. Era o equivalente a Bob Dylan tocar “Blowin’ in the Wind” na turnê de reunião de 1974 com a The Band ou ao CSNY apresentar “Suite: Judy Blue Eyes” naquele mesmo ano: uma dose poderosa de nostalgia dos anos 1960 para uma plateia desesperada para voltar àquela época.

Mas cinco músicas dos Beatles era o limite de McCartney. A segunda metade do show se concentrou no repertório do Wings, com um breve desvio pela passagem de Laine como vocalista original do Moody Blues, em “Go Now”. O espetáculo terminou em grande estilo com “Band on the Run”, “Hi, Hi, Hi” e “Soily”.

“O domínio da banda sobre seu repertório era impressionante”, dizia uma crítica publicada pelo Evening Standard sob o título “Wings Conquista Wembley”. “Cada música era meticulosamente construída, com a seção de metais formada por quatro músicos acrescentando uma nova dimensão a algumas das canções mais antigas. Ainda assim, cada faixa conseguia soar fresca e espontânea […] Ninguém pode subestimar o impacto do Wings na cena musical atual. É uma banda que sabe exatamente o que está fazendo — sem esquecer de onde veio.”

Era exatamente o tipo de crítica que McCartney sonhava em ler quando o Wings foi formado, e chegar até ali exigiu muito trabalho. Os anos seguintes, porém, não transcorreram exatamente como ele havia planejado. A banda começou a trabalhar em um novo álbum em 1977, mas as sessões foram interrompidas pela gravidez de Linda e pela saída do guitarrista Jimmy McCulloch e do baterista Joe English. Eles foram substituídos pelo guitarrista Laurence Juber e pelo baterista Steve Holley, e o grupo finalmente concluiu London Town, de 1978, um disco que ficou aquém das expectativas. Em vez de sair em turnê para promovê-lo, os integrantes optaram por lançar às pressas uma coletânea de grandes sucessos e começar a trabalhar em Back to the Egg, de 1979.

Back to the Egg foi outro fracasso, alcançando posições ainda mais baixas nas paradas do que London Town. Mesmo assim, a banda saiu em turnê para promovê-lo, já que estava longe dos palcos havia três anos. A ideia era realizar uma jornada mundial semelhante à turnê de 1975 e 1976, mas McCartney foi flagrado com maconha no aeroporto de Tóquio após uma série de shows no Reino Unido e acabou preso por dez dias. Foi o fim não apenas da turnê de Back to the Egg, mas também do Wings. Com a chegada dos anos 1980, McCartney decidiu se dedicar integralmente à carreira solo e deixar o Wings para sempre como uma lembrança da década anterior.

Antes que essa decisão se tornasse pública, imagens da etapa norte-americana da turnê “Wings Over the World” foram lançadas no filme-concerto Rockshow, de 1980. O longa chegou aos cinemas apenas quatro anos após o fim da turnê, mas parecia uma mensagem enviada de outra era da história do rock. McCartney já estava compondo músicas inovadoras, como “Temporary Secretary”, e uma fase inteiramente nova de sua carreira estava prestes a começar.

+++LEIA MAIS: Paul McCartney critica filmes dos Beatles por ser representado como mais baixo do que John Lennon

TAGS: Beatles, linda mccartney, Paul McCartney, turne, Wings
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