Como a IA barata da China tomou conta das empresas — e por que isso assusta os EUA
RESUMO +
Em 2026, modelos chineses de inteligência artificial alcançaram ao menos 55% do uso empresarial nas plataformas de acesso a IA OpenRouter e Vercel, segundo dados obtidos pela CNBC. O avanço combina preços até 12,5 vezes menores e desempenho mais competitivo. O crescimento levou comitês da Câmara dos Estados Unidos a investigar possíveis riscos econômicos, tecnológicos e geopolíticos.
Os modelos de inteligência artificial (IA) chineses estão se tornando cada vez mais populares nas empresas — e isso já preocupa o governo americano. Segundo dados obtidos pela emissora CNBC, a adoção global de modelos chineses por empresas cresceu de forma expressiva ao longo de 2026, a ponto de superar a maioria absoluta do uso em duas das principais plataformas que conectam empresas a diferentes fornecedores de IA.
No OpenRouter, plataforma que funciona como portal de acesso a modelos de várias empresas, sistemas chineses passaram de 6% a 13% do total de tokens (as unidades que medem o processamento consumido) usados em fevereiro para entre 57% e 67% na semana de 14 de setembro.
Em meados do ano, os modelos chineses já representavam cerca de 61% de todos os tokens processados no OpenRouter.
O levantamento da plataforma abrange empresas dos Estados Unidos, da Europa e do chamado "Sul Global" (grupo que reúne 82 países da América Latina, África e Ásia). A Vercel, por sua vez, não detalhou a divisão geográfica de seus dados.
A IA chinesa é mais barata?
A diferença de preço entre modelos chineses e americanos costuma ser grande, mas varia bastante conforme o modelo comparado.
O DeepSeek V3.1, por exemplo, cobra US$ 0,25 por milhão de tokens de entrada, contra os US$ 3 cobrados pelo Claude 3.5 Sonnet, da Anthropic, uma diferença de 12 vezes.
Em abril, a DeepSeek chegou a anunciar um corte de 75% no preço do modelo V4-Pro, e depois tornou esse desconto permanente. Já o Qwen, da Alibaba, cobra a partir de US$ 0,40 por milhão de tokens de entrada em sua versão Plus, contra os US$ 5 do Claude Opus — cerca de 12,5 vezes menos.
Do lado do desempenho, os modelos chineses deixaram de ser apenas mais baratos e passaram a competir de perto em testes técnicos.
O NIST, instituto de padrões e tecnologia dos Estados Unidos, avaliou em maio que o DeepSeek V4 Pro estava cerca de oito meses atrás da fronteira tecnológica americana; em julho, já considerou o modelo chinês GLM-5.2 comparável a um sistema americano lançado apenas seis meses antes — um sinal de que a distância vem encolhendo.
Em testes de programação de interfaces, o Qwen3.8-Max, da Alibaba, ficou em quarto lugar na Frontend Code Arena, atrás apenas do Claude Opus 5 em esforço máximo e do chinês Kimi K3, e empatado com o próprio Opus 5 em esforço alto — evidência de que, em algumas tarefas específicas, modelos chineses já superam concorrentes ocidentais.
Embora os modelos americanos mais avançados ainda liderem a maioria dos testes de desempenho gerais, empresas chinesas como DeepSeek, Z.ai e Alibaba lançaram novos modelos com ganhos expressivos em tarefas de programação e de agentes de IA.
"Os modelos abertos chineses lançados neste ano conseguem, de forma crível, cumprir casos de uso agênticos avançados, especialmente em relação à programação, de um jeito que simplesmente não era verdade no fim de 2025", disse Peter Walker, chefe de insights do OpenRouter, à CNBC. Segundo ele, esses modelos também são "incrivelmente competitivos em custo" comparados à maioria dos sistemas de laboratórios americanos.
O preço é o principal fator por trás da adoção crescente, segundo Harpreet Arora, chefe de infraestrutura agêntica da Vercel.
"Os modelos chineses estão se tornando capazes o suficiente para mais tarefas a um custo muito mais baixo. Uma vez que um modelo atinge o padrão de qualidade necessário para o trabalho, essa diferença de preço se torna irresistível", disse.
Ainda assim, ele pondera que as empresas continuam preferindo os modelos de fronteira americanos para as tarefas mais complexas.
A resposta das empresas americanas já começou. Nesta semana, OpenAI e Anthropic anunciaram novos modelos mais baratos — a Anthropic lançou o Claude Opus 5.5, com 40% de redução de custo em relação ao modelo anterior.
Dianne Penn, chefe de gestão de produtos, pesquisa e laboratórios da Anthropic, disse à CNBC que a empresa está tentando tornar as respostas de seus modelos "mais eficientes, para que usem menos tokens dependendo da configuração de esforço escolhida".
O 'Sul Global' como principal usuário
Empresas de países do chamado Sul Global são hoje as maiores usuárias de modelos chineses no sistema do OpenRouter: mais de dois terços, 67%, dos tokens consumidos por essas empresas rodam em sistemas chineses. Cerca de metade de todo o volume de tokens da plataforma, no entanto, ainda vem de empresas americanas.
"O Sudeste Asiático, em particular, pode ver uma adoção significativa de modelos chineses de IA, dados os laços econômicos e culturais estreitos com a China e a infraestrutura digital em crescimento", disse Daniel Remler, pesquisador sênior do programa de tecnologia e segurança nacional do Centro para uma Nova Segurança Americana (CNAS), think tank de Washington. "De Lagos a São Paulo, passando por Jacarta, onde empreendedores e governos buscam modelos abertos e baratos, vão olhar primeiro para a IA chinesa."
A popularidade também aparece fora das plataformas corporativas: a família Qwen já soma mais de 1 bilhão de downloads e serve de base para cerca de 40% dos novos modelos derivados publicados no Hugging Face, plataforma de compartilhamento de modelos de código aberto.
Washington vê risco geopolítico
O crescimento chinês já motivou investigações de dois comitês da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos sobre o impacto da adoção crescente desses modelos.
Os Estados Unidos tentam preservar sua liderança em IA restringindo a compra, por empresas chinesas, dos chips mais avançados por meio de controles de exportação — mas Washington teme que essas empresas acessem remotamente chips da Nvidia hospedados em data centers no exterior, além de ganharem terreno por meio da chamada "destilação", técnica em que um novo modelo aprende a imitar o comportamento de sistemas mais estabelecidos.
A desconfiança já afeta contratos públicos: a lei orçamentária de defesa dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2026 obriga o Departamento de Defesa americano a excluir de seus sistemas qualquer IA da DeepSeek ou de sua controladora, a gestora High-Flyer, e proíbe empresas contratadas pelo governo de usar essas ferramentas.
A Zhipu AI, dona do modelo GLM, está incluída desde janeiro de 2025 numa lista de entidades do governo americano com restrição presumida de acesso à tecnologia dos Estados Unidos.
Para Remler, do CNAS, o risco vai além da tecnologia em si. "A IA chinesa representa riscos econômicos e de segurança reais para os Estados Unidos", afirmou. "A preocupação final é que a integração de modelos chineses de IA puxe países para uma esfera de influência tecnológica chinesa que se solidifica em alinhamento geopolítico."
O tema ocupou espaço central na reunião entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping nesta semana, que discutiu justamente o equilíbrio entre competição tecnológica e cooperação entre as duas potências no campo da inteligência artificial.
'Perguntas frequentes'
Quanto cresceu o uso de modelos chineses de IA pelas empresas? +
Segundo dados obtidos pela CNBC, os modelos chineses passaram de 6% a 13% dos tokens usados no OpenRouter em fevereiro para entre 57% e 67% na semana de 14 de setembro de 2026. Na Vercel, a participação subiu de 11% em janeiro para 55% em agosto.
Por que as empresas estão adotando modelos chineses de IA? +
O preço é o principal fator, segundo Harpreet Arora, chefe de infraestrutura agêntica da Vercel. O DeepSeek V3.1 custa US$ 0,25 por milhão de tokens de entrada, ante US$ 3 do Claude 3.5 Sonnet, enquanto o Qwen Plus parte de US$ 0,40, contra US$ 5 do Claude Opus.
Os modelos chineses de IA têm desempenho semelhante aos americanos? +
Os modelos americanos mais avançados ainda lideram a maioria dos testes gerais, mas sistemas chineses já competem de perto em algumas tarefas. Segundo o NIST, o GLM-5.2 era comparável, em julho, a um sistema americano lançado seis meses antes; na Frontend Code Arena, o Qwen3.8-Max ficou em quarto lugar nos testes de programação de interfaces.
Quais países mais usam modelos chineses no OpenRouter? +
Empresas do chamado Sul Global destinam 67% dos tokens consumidos no OpenRouter a modelos chineses, segundo dados da plataforma. Ainda assim, cerca de metade de todo o volume de tokens do OpenRouter vem de empresas americanas.
Por que o governo dos Estados Unidos teme o avanço da IA chinesa? +
Washington teme que empresas chinesas acessem remotamente chips avançados da Nvidia em data centers estrangeiros e usem destilação para reproduzir o comportamento de sistemas estabelecidos. Dois comitês da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos investigam o impacto da crescente adoção desses modelos.
Quais restrições os Estados Unidos impuseram a empresas chinesas de IA? +
A lei orçamentária de defesa dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2026 determina que o Departamento de Defesa retire de seus sistemas ferramentas da DeepSeek e da gestora High-Flyer, além de proibir seu uso por empresas contratadas. A Zhipu AI, dona do modelo GLM, está desde janeiro de 2025 em uma lista americana de entidades com restrição presumida de acesso a tecnologia do país.
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