Usina centenária de SP ainda opera com equipamentos originais e atinge potência máxima em 15 minutos
Bastam 15 minutos para que a usina hidrelétrica Henry Borden, que completa 100 anos neste sábado (10), eleve sua geração de energia da potência mínima à máxima, de 889 MW.
Crucial no desenvolvimento de São Paulo, o complexo foi fundado pela Light em 10 de outubro de 1926 e está hoje sob gestão da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), cujo controle a Sabesp assumiu em fevereiro deste ano.
A usina fica em Cubatão (SP) e continua em plena atividade. Ainda mantém parte de suas características originais, mas já não opera da mesma forma como fazia no passado. Desde 2012, afinal, a Henry Borden trabalha sob o regime de disponibilidade.
Funciona assim: em vez de vender energia ao mercado, ela recebe para garantir que sua produção esteja sempre à disposição do ONS, o operador nacional do sistema elétrico, que pede eletricidade sob demanda —que costuma ser solicitada quase todos os dias.
Na manhã de quinta (8), por exemplo, quando a Folha visitou o complexo, 92% da usina estava à disposição do ONS e a maioria dos geradores permanecia em atividade.
Um deles data da inauguração da hidrelétrica: o primeiro rotor da Henry Borden continua ativo cem anos após ser instalado, mas será substituído até o fim do ano em meio a projetos de modernização do complexo.
A usina se confunde com a paisagem da Serra do Mar. É impossível passar pela rodovia Anchieta ou pela estrada velha de Santos e não observar os dutos que descem do pico do morro ao nível do mar, 720 metros abaixo.
São oito grandes e centenários tubos de aço, todos ainda originais, que transportam água do reservatório Rio das Pedras, que integra a represa Billings, até os geradores da Henry Borden.
É uma operação controlada. Os tubos ficam constantemente cheios, mas a força com que a água sai deles é regulada pela chamada casa de válvulas, um prédio de concreto armado construído no topo da serra.
A distância e a altura não são obstáculos para quem está lá em cima. A descida é feita por um bonde que desce sobre trilhos também centenários afixados em pedras ao lado dos dutos. A pequena estrada de ferro liga a casa de válvulas à casa de força, onde estão os geradores.
O trajeto leva de 12 a 13 minutos e pode assustar nos trechos mais íngremes, que chegam a 43° de inclinação, mas ainda assim é o atalho mais curto entre o alto da serra e o nível do mar. Por ele passaram os operários que construíram a Henry Borden e por ele passam equipamentos e funcionários até hoje.
A usina surgiu de um ambicioso projeto da Light para fazer frente aos apagões que atingiam São Paulo nos anos 1920.
O estado vivia um boom industrial, mas a oferta de energia não conversava com a demanda. A iluminação pública com frequência caía, e a capital e região metropolitana viviam no escuro.
Até que veio a ideia de represar rios no alto da serra para dar início ao projeto Billings, um plano que quase foi às ruínas em 1932.
Era 29 de julho e as tropas federais lutavam contra o levante paulista que ficou conhecido como revolução constitucionalista, frente armada criada duas semanas antes para derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas.
Duas bombas foram arremessadas contra a usina naquele dia, ambas por um hidroavião Savoia-Marchetti. Apenas uma atingiu o alvo. Não explodiu, mas causou danos estruturais e feriu quatro funcionários. O avião só recuou após ser alvo de disparos de canhões do alto da serra.
A revolução acabou sufocada pelo governo, mas o fracasso da investida contra a usina abriu caminho a um projeto de expansão do complexo que incluiu a construção de uma usina subterrânea.
O sistema funciona da mesma forma, só não é visível a olho nu. A água é transportada por uma adutora de quase dois quilômetros de extensão e cai nas turbinas no interior de uma caverna.
O acesso se dá por um túnel. O espaço embaixo das pedras se assemelha a um bunker: tem 39 metros de altura, 120 de comprimento e 21 de largura.
O grande entusiasta de tudo isso chama-se Henry Borden, empresário canadense que assumiu a presidência da Light em 1946 e que desde 1964 dá nome ao complexo —antes, ela se chamava apenas "usina de Cubatão".
Coube a Borden conduzir projetos que transformaram o complexo na maior hidrelétrica do hemisfério sul, quadro que só veio a se alterar em meados dos anos 1960 com a construção da usina de Furnas.
O plano de expansão da Henry Borden incluiu empréstimos milionários assegurados pela União e a conclusão de uma obra iniciada em 1927 sem a qual São Paulo não seria a mesma de hoje: o desvio das águas do rio Pinheiros.
Em vez de desaguar no Tietê, as águas eram bombeadas até a represa Billings, cujo volume até então era substancialmente instável.
A questão era a sujeira. Toda a matéria orgânica que vinha do esgoto despejado no Pinheiros acabava também na represa Billings.
Em épocas de seca, por exemplo, os geradores falhavam com alguma frequência porque funcionavam a partir de águas altamente poluídas, e os gases formados pela matéria orgânica atacavam diretamente equipamentos da usina.
O problema chegou a ser reconhecido durante a ditadura.
Em 1975, por exemplo, o governo Ernesto Geisel determinou ao então ministro de Minas e Energia Shigeaki Ueki a elaboração de planos para conter a poluição da Billings mesmo que isso significasse reduzir a produção de energia da Henry Borden.
Mas esta era uma via de mão dupla, já que a redução da produção significava também uma menor vazão do rio Cubatão, em boa parte abastecido pelo volume excedente da hidrelétrica.
A medida afetaria diretamente o polo petroquímico que havia se instalado em Cubatão anos antes, atraído pela oferta abundante e barata de energia, que usava água do rio para fins industriais, como resfriamento das máquinas.
A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) reagiu, industriais pediram prazo e os planos foram sucessivamente adiados até 1992, quando uma resolução estadual proibiu por tempo indeterminado o bombeamento contínuo das águas do Pinheiros para a Billings.
Desde então esse processo só é permitido para controlar enchentes e "reduzir o risco de inundações durante períodos de chuvas intensas", diz o diretor de Operações da Emae, Fernando Luís Fernandes, para quem a importância da Henry Borden vai muito além da produção energética.
"Localizada próxima ao maior centro consumidor do país, a usina responde rapidamente às solicitações do ONS e contribui para a recomposição do sistema em caso de apagão, graças à sua capacidade de iniciar a operação sem depender de energia externa", afirma.
De 2019 até aqui o principal foco da Emae foi a usina subterrânea, que recebeu R$ 338 milhões em investimentos segundo ele. A próxima frente é a modernização dos aparelhos da usina externa.
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