Homem detido por panelaço em Maceió questiona PM: 'Por que só o porteiro?'

A conduta dos policiais que o prenderem será alvo de apuração da Corregedoria-Geral da PM (Polícia Militar), da Promotoria de Controle Externo da Polícia e do MPE (Ministério Público Eleitoral). A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) também acompanha.
O que ocorreu

À coluna, o porteiro conta que um dos moradores desceu com uma bandeira de Lula para a área livre do prédio, em frente à guarita onde Edmilson trabalha. "Ele veio e subiu no jardim do prédio, e eu fui ao salão de festas, onde guardamos as panelas para o café, peguei uma e fui bater junto. Nos apartamentos, os moradores também estavam batendo panelas."
O protesto com as panelas seguia pacífico —e também ecoava em vários prédios da região nobre da capital—, até que um morador do prédio vizinho passou de carro com a esposa e a filha, baixou os vidros e começou a reclamar do ato.
"Ele fez um gesto obsceno para o morador que estava no jardim. Não contente, ele parou o carro e desceu e pediu para o menino descer para brigar, e eu respondi: 'Felipe, não vai não, deixa ele. Deixa para lá'."
Segundo o porteiro, o morador informou ao bolsonarista que não iria descer porque não queria brigar. "Mas ele ficou insistindo, insistindo, insistindo... Mas o panelaço continuou."
Nesse tempo, o morador chamou a polícia e alegou que o panelaço, antes das 22h, estaria incomodando a filha. "Quando a polícia chegou, eu estava batendo a panela e continuei. Aí o policial disse: 'Desce aqui'. Eu falei para ele: 'Pode falar daí que eu lhe respondo'."
Após ele se negar a descer, o porteiro conta que um dos policiais o questionou por quê? "Eu disse: 'Porque eu estou aqui dentro do meu prédio trabalhando. E estou batendo panela como todo mundo. Falei normal, sem alteração".
Foi nesse momento que a polícia teria decidido entrar no prédio, e o morador que estava junto a ele batendo panela ordenou que abrisse o portão para entrada dos militares quando ele descesse até a área da portaria.
"Quando eu abri o portão, um policial foi logo dizendo assim: 'Você vai ser preso', e eu disse: 'eu vou ser preso por quê? Eu estou dentro do meu trabalho'. Aí o policial entrou no meu recinto já perguntou: "Zero Um, eu posso algemar?"

A versão da ideia de algemar o porteiro foi confirmada pelo morador Felipe, que filmou boa parte da ação dos policiais no prédio. "Só não colocaram algemas porque a gente questionou a necessidade", diz.
O porteiro diz que, assim que foi citada a algema, questionou: "O que foi que eu fiz para o senhor chegar aqui no meu trabalho e me algemar? O senhor está achando que aqui tem algum bandido? Não tem bandido não, senhor. Aqui tem trabalhador igual a você."
Edmilson trabalha há 25 anos como porteiro no prédio e diz que não será penalizado por conta do episódio. "Todos me apoiaram, inclusive aqueles que votam em Bolsonaro. Sigo no emprego", diz.

Após o episódio, ele faz uma reflexão. "Eles deveriam ter tentado conversar, perguntando meu nome e pedido para parar um pouquinho [o panelaço], dizer que o pessoal está incomodado. Eu tinha parado sem problema, mas eles não quiseram conversar. A vontade deles era de ter alguma pessoa presa", diz.
O porteiro conta que, após ser liberado na Central de Flagrantes, escondeu a história para não assustar a esposa e o filho. "Eu saí para trabalhar, imagina chegar uma notícia dizendo que fui preso?"
A esposa só soube do caso na manhã do sábado quando viu a foto do marido no Instagram. "Ela me ligou preocupada, perguntando o que tinha acontecido. Eu disse que, quando chegasse em casa, conversava. Quando expliquei tudo direitinho, eles ficaram mais tranquilos."
Neste domingo, ele participou do ato pró-Lula na orla de Maceió e teve direito a fala no carro de som, onde foi ovacionado.
Em nota, a SSP relatou que a Corregedoria da PM vai apurar a atuação dos militares no caso.
Segundo o relato inicial da ocorrência, "a situação envolvia uma reclamação de barulho que estaria prejudicando o descanso de uma criança recém-nascida."
Na nota, segundo o relato feito pelos policiais, os militares "teriam tentado sensibilizar o porteiro do estabelecimento sobre a situação, momento em que, conforme o registro policial, teria ocorrido um desacato à equipe."
Atuações
O caso do porteiro rapidamente repercutiu, e entidades e órgãos de controle se posicionaram.
O MPE (Ministério Público Eleitoral) informou que abriu procedimento administrativo para "apurar preliminarmente as circunstâncias da prisão de um participante de manifestação".
A promotora Karla Padilha, responsável pela área de controle externo da polícia, informou que o MP-AL (Ministério Público de Alagoas) vai apurar o caso.
"Serão adotadas providências junto à Corregedoria da PM para que se possa aferir o que de fato aconteceu. A Central de Flagrantes também será acionada para saber quem deu essa orientação, que tipo de crime ou contravenção consta no registro da PM e a partir daí serão adotadas eventuais medidas."
A OAB/AL também se manifestou sobre a prisão. Informou ter adotado medidas e afirmou que a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos "acompanhará o caso e permanecerá vigilante para que os fatos sejam esclarecidos e as providências cabíveis sejam adotadas."
A Comissão já oficiou a Delegacia Geral da Polícia Civil de Alagoas e a Promotoria de Justiça responsável pelo controle externo da atividade policial do Ministério Público de Alagoas (MPAL), solicitando a imediata apuração dos fatos, com especial atenção à legalidade da abordagem e da condução do trabalhador, bem como à conduta dos policiais militares envolvidos. A OAB/AL reafirma que a atuação dos agentes de segurança pública deve observar rigorosamente a legalidade, a proporcionalidade e o respeito aos direitos e garantias fundamentais, assegurando tratamento isonômico a todos os cidadãos, independentemente de suas convicções políticas.
OAB
Reportagem
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